Existe no Brasil um apartheid camuflado, diz Paulo Paim

Em entrevista ao Congresso em Foco, o senador Paulo Paim (PT-RS) repudiou o assassinato de um homem negro, que foi espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour, em Porto Alegre (RS), nesta quinta-feira (19). Para o senador, que preside a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal, o ato representa a força do racismo no Brasil. 

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“A agressão e a violência contra o povo negro é algo covarde, perigoso”, afirmou o parlamentar. Ele defendeu que é necessário aprofundar o debate no Brasil sobre ações “truculentas” de forças de segurança “contra a população” e sobre crimes raciais.

O parlamentar é relator de um projeto elaborado pela Coalização Negra por Direitos, que pretende vedar a conduta de agente público fundada em preconceito de qualquer natureza, de raça, origem étnica, gênero, orientação sexual ou culto. Paim reforçou a urgência de se avançar com a proposta na Casa Legislativa.

“Conduta truculenta como esta, não é a primeira. Esta é uma delas, que leva ao assassinato de pessoas inocentes. Vamos aprofundar o debate no Congresso. O ato de racismo não poder ser enquadrado como injúria, e sim, como crime inafiançável”, explicou.

Para ele, existe no Brasil um “apartheid” camuflado e “mais contundente do que o do próprio Estados Unidos”. “O racismo no Brasil está embutido na sociedade. Não enfrentá-lo quer dizer que é uma coisa natural, mas o racismo não é natural, é uma violência, é uma agressão, é um crime”, argumentou.

“Nós temos que trabalhar para efetivamente assegurar negros e negras nos espaços em todos os aspectos. Seja na política, seja no [espaço] econômico, seja no [espaço] social, que é assegurado para aqueles que não são negros”, afirmou.

O senador argumentou que o caminho para uma sociedade mais igualitária e antirracista passa pelo combate aos crimes contra o povo negro e pela construção de políticas de educação. “A verdadeira história dos negros tem que ser contada”, defende, como uma forma de empoderamento.

“Chegou a hora de dar um basta nisto tudo, por isso, que é fundamental ter mais participação de negros e negras na política”, argumenta.

Eleições 2020

Sobre as eleições municipais de 2020, o parlamentar afirma que apesar dos tempos difíceis houve um avanço “inegável” e “vitórias importantes”. O número de candidatos negros eleitos cresceu, porém ainda abaixo da expectativa, segundo Paim. 

Ele apontou que os desafios não param por aí, e devem ser enfrentados com “coragem”, “firmeza” e “competência”. Há três décadas no parlamento, o congressista acredita que o papel e as dificuldades de pessoas negras que ingressam em espaços de poder não mudou muito de lá pra cá 

“Eu entrei na Constituinte e o papel que nós temos é praticamente o mesmo”, pontuou. “Achamos que é fundamental que o Congresso avance mais na legislação, para garantir uma disputa de igual para igual em todos os setores da sociedade, democraticamente, vamos avançar com equilíbrio entre brancos e negros”, defendeu.

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