CPI discute abusos na hidrelétrica de Jirau

Audiência pública reuniu trabalhador que denunciou tortura e outras violências e diretor da Camargo Corrêa, que disse que a empreiteira jamais se envolveu com tráfico de pessoas e outros desmandos

Uma audiência pública ocorrida na manhã de hoje (21) na CPI do Tráfico de Pessoas discutiu as denúncias de abusos e irregularidades trabalhistas na hidrelétrica de Jirau, uma das principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Como informou o Congresso em Foco, uma delegação de deputados esteve na hidrelétrica e apresentou relatório que constata problemas na obra. Na sessão de hoje (21), foram confrontadas as versões do operário Raimundo Braga da Cruz, que disse ter sofrido tortura e violência, e o diretor de Energia da construtora Camargo Corrêa, Luiz Carlos Martins, responsável pelas obras civis da usina.

Deputados investigam tortura de operário de Jirau
Responsáveis pela obra de Jirau contestam acusações

Também estava prevista a audiência do líder do consórcio Energia Saudável do Brasil (ESBR), Victor Paranhos, responsável pela usina, mas ele apresentou atestado médico alegando “impossibilidade de exercer atividades laborativas e outras”, colocando-se à disposição para comparecer em outra data. Segundo o atestado, ele recupera-se de uma cirurgia.

Revólver na cabeça

O operário Raimundo relatou violências sofridas na usina. Segundo ele, após um incêndio que destruiu algumas instalações do canteiro de obras, ele foi abordado por um policial que o chamou de “vagabundo”, apontando um revólver para a sua cabeça. “Aconteceram coisas que eu nunca pensei que iria acontecer comigo”, contou Raimundo, dizendo que os “gatos” o aliciaram para o emprego e cobraram, logo de saída, R$ 500 para a contratação.

Segundo o operário, policiais o torturaram por horas, com socos no estômago e chutes na cabeça e até “despejando pimenta" em seus ouvidos. A sessão de tortura que havia começado no início da madrugada de 3 de abril, instantes após ser detido por causa do incêndio, prosseguiu até por volta das 6h. “Fui tratado pior do que um cachorro. Fiquei sem roupa, sem documento, pior do que um mendigo. Sumiu tudo meu”, emendou Raimundo, que atribuiu a tortura a policiais da Força Nacional de Segurança e da Companhia de Operações Especiais da Polícia Militar de Rondônia.

Defesa

Representante da Camargo Corrêa, Luiz Carlos Martins fez questão de reiterar a preocupação da empresa com as condições satisfatórias de trabalho oferecidas. “A empresa jamais se envolveu a qualquer fato relacionado a tráfico de pessoas”. Segundo o diretor, a empreiteira pratica em Jirau “o maior salário em construção pesada no Brasil”.

“A Camargo se preocupa com o cumprimento das obrigações trabalhistas, como também com o bem-estar de seus empregados”, declarou Luiz Carlos, que em seguida passou a expor imagens e detalhar setores do canteiro de obras e da estrutura sob responsabilidade da empresa – espaços para práticas de esporte, academias, centro de eventos, refeitórios, áreas de lazer, quartos com ar-condicionado e outras dependências, algumas delas mostrando trabalhadores satisfeitos, foram expostos na comissão.

Membro titular da Comissão de Direitos Humanos (CDH), o deputado Domingos Dutra (PT-MA) anunciou uma questão de ordem logo após a exposição dos membros da mesa – ele queria acesso ao conteúdo dos depoimentos da CPI. “Como maranhense, eu me sinto envergonhado. O que eu vi [em Jirau], não é essa maravilha colorida que eu vi aqui na comissão”, disse, referindo-se à apresentação de Luiz Carlos Martins. Com o vice-presidente da CDH, o deputado Padre Ton (PT-RO), Domingos visitou os canteiros de obra em 22 de março, e disse ao Congresso em Foco ter presenciado os mais variados atentados à dignidade do trabalhador. A reportagem teve acesso ao material colhido pelos deputados.

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