Coordenador de frente suprapartidária com PSDB e PT quer incluir Lula

O sociólogo Fernando Guimarães é coordenador do Direitos Já, grupo suprapartidário a favor da democracia e contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista ao Congresso em Foco, ele comenta as críticas feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre os movimentos de frente ampla democrática.

Mesmo com as críticas do ex-presidente, Guimarães afirma que é importante ter a participação de Lula no processo.

"Lula é muito importante nessa construção. Nós sempre fizemos todos os gestos para que ele se integre nesta construção do Direitos Já e continuaremos fazendo. Todos são importantes em todos os campos, todos os democratas", disse.

O ex-presidente disse na segunda-feira (1º), em reunião virtual com membros do Diretório Nacional do PT, que é contra a participação de petistas em movimentos que contem com a presença de pessoas que apoiaram a sua prisão e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Estão querendo reeducar o Bolsonaro, mas não querem reeducar o Guedes”, afirmou. “Tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora nos manifestos. O editorial do Globo é uma proposta de acordo pra manter o Bolsonaro”.

>Membros do PT, PSDB, PDT e PC do B lançam grupo de oposição a Bolsonaro

Fernando Guimarães discorda de Lula e afirma ser importante a união de diferentes setores. De acordo com ele, sob a gestão de Bolsonaro o Brasil corre o risco de viver uma nova ditadura.

"Da mesma forma que para governar, os últimos presidentes, seja Fernando Henrique, Lula, Dilma, todos compuseram os governos com a esquerda e a direita, esse mesmo gesto de unidade é necessário em um momento que precisamos defender a democracia até para que possamos garantir que esses diferentes projetos nacionais possam disputar, protagonizar e terem condições de transformar o país".

E completou: "isso não a acontece em um ditadura, então precisamos assegurar a democracia juntos".

Movimentos em favor da democracia e contra o governo do presidente Jair Bolsonaro começaram a ser impulsionados desde o último sábado (30). Entre os três principais que tomaram forma foram: “Basta”, “Estamos Juntos” e “Somos70PorCento”.

O "Basta" reuniu assinaturas de  nomes da área judiciária. O "Somos7oPorCento" foi um movimento espontâneo das redes sociais e faz referência a popularidade do presidente, que nas últimas pesquisas fica em torno de 30%.

Já o "Estamos Juntos" reuniu assinaturas dos mais diversos nomes da cultura e política, como da atriz Fernanda Montenegro, dos cantores Caetano Veloso e Anitta, do ex- presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB)  e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT).

"Direitos Já", fundado e coordenado por Guimarães, teve seu evento de lançamento em setembro do ano passado e contou com nomes como Ciro Gomes (PDT), Eduardo Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB).

No sábado (6), o grupo realizou uma live com Fernando Henrique,  o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim e os governadores Camilo Santana (PT-CE) e Flávio Dino (PCdoB-MA).

>Frente pela democracia tem que incluir militares, diz Fernando Henrique

No próximo sábado (13) está marcada outra live com a participação da ministra do STF Cármem Lúcia, da ex-senadora Marina Silva (Rede), do deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), do general Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, e do apresentador Luciano Huck.

Fernando Guimarães foi filiado por 30 anos ao PSDB e coordenava uma corrente interna do partido que promovia o progressismo, o PSDB Esquerda Pra Valer. No segundo turno das eleições de 2018, ele apoiou o candidato Fernando Haddad (PT) contra Jair Bolsonaro. Por articulação do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foi expulso da legenda no início de 2019.

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida por Guimarães ao site.

Congresso em Foco: desde as eleições de 2018 o senhor procurou construir uma frente ampla pela democracia e contra o projeto representado por Bolsonaro nas urnas. Como vê o impulsionamento de iniciativas semelhantes desde o fim de semana passado?

Fernando Guimarães: as iniciativas são muito bem vindas, cada uma delas têm suas características e elas somam na defesa pela democracia. O Direitos Já tem por característica, é um fórum pela democracia, então tem um espaço em que nós reunimos dezenas, centenas de organizações da sociedade civil, reúne lideranças em exercícios dos partidos políticos. Portanto, o Direitos Já funciona como um espaço de convergência nesse processo de construção. Outros movimentos têm outras características, o importante é que todas eles participem também deste processo de diálogo para que a gente não tenha uma gincana de pró-ativismo que possa levar a algum passo equivocado. É evidente que desde o primeiro dia, o Bolsonaro e aqueles que o cercam vêm buscando radicalizar, provocar determinadas situações na expectativa de que a oposição morda a isca. A gente tem que agir com muita firmeza, mas com sabedoria. O melhor formato é a sociedade dialogando e construindo isso junto em defesa das instituições.

Defende que essa união têm que acontecer nas ruas neste momento  mesmo com a pandemia?

É claro que se não fosse a pandemia teríamos  milhões de brasileiros indo às ruas em defesa da democracia. Certamente assim que possível isso vai acontecer até por resposta à imensa responsabilidade que o Bolsonaro tem por essas vidas, as milhares de vidas de brasileiros que temos perdido pela necropolítica, omissão, mas nós criticamos de uma forma muito acertada quando o presidente, de forma irresponsável, incentivou atos antidemocráticos presenciais e participou das manifestações. Não há no momento em que você tem as UTIs lotadas, a pandemia avançando, ou seja, não chegamos ainda nem no plateau. Esse não é o momento de incentivar as pessoas a irem para as ruas. Até porque é muito difícil depois você conseguir enxergar que pessoas que estão em um sacrifício, não estão abrindo a suas lojas, que elas fiquem em casa quando se incentiva que as massas estejam nas ruas. Esse é um momento que a gente tem as redes sociais para trabalhar, temos a instituições cumprindo esse papel e no momento certo vamos às ruas.

O ex-presidente Lula tem comentado que não é para o PT se unir com setores que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma. Acha que essa atitude vai atrapalhar a construção de um diálogo amplo desejado pelos senhores?
A construção de uma frente ampla é um imperativo histórico, ela vai se dar inevitavelmente, é um processo em construção. As lideranças políticas têm se somado a isso, é uma demanda da sociedade. Não é o momento para a gente olhar para trás, não é o momento para a gente destacar diferenças ou projetos eleitorais. Esse é o momento de ter responsabilidade histórica, grandeza, generosidade, se colocar a serviço do país. Da mesma forma que para governar, os últimos presidentes, seja Fernando Henrique, Lula, Dilma, todos compuseram os governos com a esquerda e a direita, esse mesmo gesto de unidade é necessário em um momento que precisamos defender a democracia até para que possamos garantir que esses diferentes projetos nacionais possam disputar, protagonizar e terem condições de transformar o país. Isso não a acontece em um ditadura, então precisamos assegurar a democracia juntos e o presidente Lula é muito importante nessa construção. Nós sempre fizemos todos os gestos para que ele se integre nesta construção do Direitos Já e continuaremos fazendo. Todos são importantes em todos os campos, todos os democratas.

Acredita que todos que quiserem participar do grupo pela democracia devem ser aceitos ou há alguma restrição? Militares e Sergio Moro devem ser incluídos?

Estamos buscando dialogar com amplos setores da sociedade.Neste próximo sábado teremos diálogo com o general Santos Cruz, com uma live que será transmitida, junto da Marina Silva, Luciano Huck, Alessandro Molon e a ministra [do Supremo Tribunal Federal] Cármem Lúcia, então estamos ampliando esse diálogo. A defesa da democracia é uma defesa que se espera que todos façam, a defesa do estado democrático de direito se espera que todos façam. Eu acredito que todo brasileiro tem que colocar nessa defesa. Estamos aqui fazendo gesto para que essa articulação seja a maior possível. Agora não necessariamente todos os nomes precisam participar de todos os movimentos. É um processo natural dos movimentos irem convidando pessoas e se articulando. Quem tem compromisso com a democracia tem que defendê-la. Isso é um processo natural, não é uma coisa que você possa dizer… “Falaremos com todos". Acho que isso é um processo de construção e diálogo.

Acha que há possibilidades de em 2022 as eleições serem novamente polarizadas entre PT e Bolsonaro?

Eu não quero entrar na questão eleitoral, agora a preocupação que a gente tem que ter é defender a democracia para que tenha 2022. O PT é um partido importante para a democracia brasileira assim como tantos outros. O importante é que a gente consiga construir um processo nesse momento que não seja com olhos nas eleições, temos que olhar para a democracia. Nas eleições naturalmente vão surgir os nomes e as conversas e temos 2022 para isso, mas vamos deixar para 2022, agora vamos assegurar que ela [a democracia] sobreviva.

Fora a programação de lives com debates de membros de diferentes partidos, quais outras ações o grupo planeja fazer nas próximas semanas e meses?

Temos um ato, que é o terceiro ato do Direitos Já, que vai ser realizado dia 26 de junho, às 19 horas. Vai reunir as 100 mais influentes lideranças da política e sociedade brasileira. Um grande ato em defesa da democracia, da vida e da proteção social. Junto com esse grande ato, que terá participação de artistas, intelectuais, esportistas, jornalistas, governadores, prefeitos, convidados internacionais, será apresentado um manifesto que está sendo construído com a contribuição de diversos e importantes nomes da sociedade brasileira. Também nós estamos construindo um documento que será apresentado nos próximos dias no Congresso Nacional. Eu anunciei isso na live de ontem, formamos um grupo de economistas de muito prestígio, indicados por lideranças dos mais diversos partidos e ele estão há cerca de três dias construindo um documento, apresentando um projeto de consenso apesar da diversidade de visões econômicas desde aqueles representam partidos de esquerda ou direita, mas um projeto que representa uma saída econômica e proteção social nesse momento de pandemia e grave crise econômica. O ato vai ser virtual só que ao vivo, teremos essas 100 personalidades participando ao vivo pelas nossas plataformas de rede social.

O senhor foi expulso do PSDB, pretende se filiar a outro partido?

Eu fui filiado ao PSDB, fui expulso do partido sem direito a um processo, sem ter direito a comissão de ética, sem defesa. O governador João Doria lá atrás ele se manifestou contra a minha participação na construção do Direitos Já. Naquele momento ele voltou os canhões do partido pedindo a minha expulsão. Eu na época era membro do Diretório Nacional e por ser membro eu não poderia, segundo os estatutos, ser sequer submetido a uma comissão de ética do município ou estado, somente na nacional. Como não tinham maioria na nacional para isso, eles fizeram sem ter processo nem na nacional, nem estadual, nem municipal. Eu fui comunicado disso muito tempo depois quando já estava expulso, não consegui apresentar recurso e foi isso que aconteceu. Acho que depois de 30 anos de vida partidária, eu mereço aí umas boas férias, bons descansos sem pensar em partido neste momento e pensando nessa construção.

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!