Para Ricardo Young, mercado obriga governo a rever política ambiental

O empresário e ex-vereador paulistano Ricardo Young é uma das principais vozes no debate da questão socioambiental no país. Fundador e presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Young acredita que o presidente Jair Bolsonaro está sofrendo um “choque de realidade” com a pressão do mercado internacional e de setores do agronegócio brasileiro em favor de uma guinada na política ambiental deflagrada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Para ele, o atual momento expõe o governo às suas próprias contradições. Mesmo assim, ressalta, não há uma definição clara de que a rota será realmente alterada. "Pelo menos dá para dizer que estamos vivendo um momento contraditório, porque até o início do ano o movimento do governo era claramente contrário ao dos preservacionistas", disse o ambientalista ao Congresso em Foco.

Segundo Ricardo Young, de um lado há indícios de uma desaceleração do desmonte da agenda ambiental, com a presença mais ostensiva do Exército na Amazônia. De outro, atitudes preocupantes, como a demissão de Lubia Vinhas do cargo de coordenadora-geral de Observação da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), após alertar para o desmatamento recorde na Amazônia em junho.

Na avaliação do presidente do IDS, a pandemia reforçou a discussão sobre a sustentabilidade. "A destruição da biodiversidade volta com efeito bumerangue potencializado para a humanidade. Na sequência, é que com todas as negociações de Paris se acreditou que poderia reverter a questão da mudança climática em 30 anos. A pandemia mostrou que pode ser muito mais rápido. Se tem algumas atividades que puderem ser diminuídas ou relativizadas, nós vamos atingir as metas do protocolo de paris, muito mais rápido", pontua.

Young reforça que, diferentemente do que têm pregado Bolsonaro e Salles, a questão ambiental não é ideológica. Virou também um imperativo econômico. "Ao mesmo tempo que o Brasil se tornou um país praticamente agroexportador, nós perdemos muita competitividade no setor industrial. O nosso ativo ambiental faz a diferença. Potencializando o nosso ativo, é que nós podemos pular um degrau para a retomada do desenvolvimento", defende.

 

Na visão dele, o crescimento recorde de queimadas e desmatamento na Amazônia expõe a atuação de organizações criminosas na região e uma espécie de "salvo conduto" dado pelo poder público para a ação de grileiros, mineradores e garimpeiros ilegais. "Boa parte do governo Bolsonaro é militar, o próprio vice-presidente Hamilton Mourão, que é responsável hoje pela política da Amazônia, também é militar, isso expõe as próprias Forças Armadas. A ausência do Estado faz com que a bandidagem corra solta na Amazônia, expõe ainda mais o governo na sua ala mais forte, que é a militar", considera.

Ricardo Young entende que a junção da visão do governo de que a sustentabilidade e a preservação ambiental são causas apenas da esquerda e de que o Estado deve ser mínimo agrava a crise socioambiental no país.

"Como é um governo que se propõe a combater a esquerda radicalmente, colocou tudo no mesmo saco e começou a considerar toda a legislação ambiental como uma legislação que servia mais a interesses ideológicos do que o próprio meio ambiente. Isso numa visão altamente liberal de mercado, que acredita que o Estado deve ter uma presença mínima na economia. Essas duas visões juntas potencializaram o maior desastre ambiental de todos os tempos", aponta o ambientalista.

"Nós perdemos uma grande oportunidade de um salto em vez de passarmos anos penando na superação da crise econômica que se alargou com a covid. Nós perdemos a oportunidade de atração de investimentos em massa se a nossa saída fosse na direção da sustentabilidade. Por isso o setor econômico está tão mobilizado nesta questão ", explica Young.

O IDS apoia o Prêmio Congresso em Foco pelo segundo ano consecutivo, promovendo a categoria Clima e Sustentabilidade. A ideia é reconhecer, valorizar e estimular parlamentares que atuam em defesa da pauta socioambiental.

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"O Congresso em Foco tem, antes de mais nada, o mérito de ser uma instituição que acompanha a atividade do Congresso e monitora a performance dos deputados em diversos temas, em uma abordagem suprapartidária. O que permite uma isenção e uma grande credibilidade. Então, o Prêmio Congresso em Foco tem uma legitimidade única, não tem paralelo no Brasil. Nenhuma outra instituição faz esse monitoramento de performance e esse reconhecimento público de forma suprapartidária", afirma o Ricardo Young.

Ele acredita que a parceria entre o IDS e o Congresso em Foco tem contribuído para colocar as discussões ambientais "no coração do Congresso Nacional". "O fato de termos hoje um trabalho mais orquestrado no Congresso com a sociedade civil permite que os interesses coletivos tenham a favor uma visão que preserve os recursos para as gerações futuras", diz o ambientalista.

Além da agenda ambiental, o instituto tem estado próximo das discussões sobre a reforma tributária, um dos principais temas em debate no Congresso. A necessidade de simplificação do sistema tributário brasileiro é apontada por especialistas como um dos caminhos para o crescimento econômico. A mudança, explica Ricardo Young, pode promover um novo modelo de desenvolvimento.

"Se você tem uma reforma tributária que foca no desenvolvimento sustentável, faz criar mecanismos fiscais para investimentos em energia solar, em energia eólica, sistemas de saneamento, sistemas de reciclagem e assim por diante. A nossa atuação tem sido justamente essa, garantir que a reforma tributária incorpore uma agenda de estímulo ao desenvolvimento sustentável também através da tributação. Porque a tributação sozinha sem regulamentação adequada também não é o suficiente", explica o presidente do IDS.

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