Fernanda Abreu: “Temos um desmonte na cultura”

Precursora do pop dançante no Brasil, Fernanda Abreu chega aos 30 anos de carreira solo com a mesma energia com que despontou como backing vocal da Blitz, um dos fenômenos musicais da década de 80. A cantora, compositora e bailarina tem motivos de sobra para comemorar. Mas reconhece que a cultura brasileira vive um momento delicado, não só pela pandemia de covid-19, que atingiu em cheio o setor, mas também pela política cultural adotada pelo governo Jair Bolsonaro.

"Hoje, a gente vive o desmonte da cultura e do setor cultural. Começou com a demonização dos artistas, depois a extinção do Ministério da Cultura, depois o constante desrespeito para com a cultura e seus atores, depois esse troca-troca na Secretaria de Cultura que até hoje não apresentou nenhum programa ou ação para a área”, disse a cantora nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.

Fernanda é a grande atração musical da cerimônia de entrega do Prêmio Congresso em Foco 2020, na próxima quinta-feira (20), às 20 horas. Você poderá acompanhar a suas páginas nas redes.

Para artista, está em curso uma política para deseducar a população. “Não só em relação à péssima gestão do Ministério da Educação, como agora o ministro da economia, Paulo Guedes acabou de falar em taxar livros, dizendo cinicamente, que o livro é um produto de elite. Livro é para todo mundo! Livro é para educar o brasileiro, então o recado foi dado: o projeto é de deseducação do Brasil! Estamos sem um ministro médico na área da Saúde no meio da maior pandemia mundial! A Amazônia e o meio ambiente sendo diariamente destruídos! O projeto é claro: É o desmonte da cultura, da arte, da educação, do meio ambiente e da ciência", critica.

Esse projeto de desmonte na área cultural não impacta somente artistas, a cadeia produtiva e a economia do setor cultural, ressalta Fernanda, mas a população como um todo. "É um prejuízo muito grande para o povo brasileiro, porque a cultura é o que revela a identidade de uma nação. É onde o povo se vê e se entende como brasileiro", afirma. "A música por exemplo, que tem uma força muito grande no Brasil e que é um tesouro em diversidade de ritmos, poesia, melodias e harmonias, deve ser valorizada em cada canto (no sentido de lugar e de voz) do Brasil, e o que a se vê hoje é uma tentativa de calar esse canto, essas vozes com essa postura de desprezo pela cultura brasileira, ", afirma.

A cantora também denuncia a ação de lobbies no Congresso que podem prejudicar os intérpretes artistas, compositores e músicos com a votação de projetos de lei que isentam setores de pagamento de direitos autorais. Uma dessas propostas, o PL 3968/1997, teve sua urgência para votação aprovada semana passada e isenta a rede hoteleira e órgãos públicos de remunerar os criadores por sua produção musical.

Na entrevista a seguir, Fernanda fala de seus próximos projetos e destaca como a cultura tem sido fundamental para a saúde mental do brasileiro durante a pandemia, como mostram os elevados índices de audiências de shows transmitidos ao vivo pela internet. "Imagina essa pandemia num silêncio total, sem nada. Sem música, sem filmes, sem livros, sem espetáculos online, sem lives sobre o fazer das artes? A arte é transformadora e fundamental! Eu acredito na arte como um instrumento de transformação e os artistas como vozes desse instrumento", defende.

Ela também adianta que cantará seus principais sucessos durante o show no Congresso em Foco. Para ela, a premiação aproxima a população dos parlamentares. “Existe a sensação de um Congresso Nacional e seus parlamentares distantes da população. O que precisamos hoje é de um Congresso forte, atuante e defensor da democracia! A premiação do Congresso em Foco traz visibilidade para o trabalho desenvolvido pelos parlamentares, e convida a população a ficar antenada e votar naqueles que tem feito um bom trabalho. Um trabalho sintonizado com as demandas da sociedade e não na defesa de seus próprios interesses.”

Veja a íntegra da entrevista:

Congresso em Foco - Você despontou no cenário musical no início dos anos 80, quando o Brasil vivia a transição do regime militar para o democrático. Há algum paralelo entre aquele momento e agora?

Fernanda Abreu - Acho que não tem paralelo. Ao contrário, a partir de 82, estávamos entrando num período de distensão, de final de ditadura onde a juventude estava começando a buscar seu espaço e as bandas de pop rock nos 80 são um exemplo disso. A força da banda Blitz, a qual integrei, foi um exemplo desse espaço conquistado. Hoje temos artistas maravilhosos despontando em todo canto do Brasil sem nenhum apoio inicial ou políticas públicas de valorização desses artistas e do setor. Não há projeto de fomento, de formação de plateia e de criação/manutenção de equipamentos públicos para a população.

O Estado brasileiro e seus governos nunca deram o devido valor à cultura, nunca a trataram como um setor estratégico como deve ser e é em qualquer nação desenvolvida. O Ministério da Cultura sempre teve que brigar por orçamento. Ao meu ver, os ministros que tiveram um trabalho consistente no debate e na criação de políticas públicas na área da cultura, especialmente valorizando as vozes da periferia, onde se produz muita riqueza cultural, foram o Gilberto Gil e o Juca Ferreira. Hoje a gente tem um desmonte da cultura, primeiro, com a dissolução do Ministério da Cultura e depois com esse troca-troca na Secretaria de Cultura que até hoje não apresentou nenhum programa ou ação para a área”,

Paulo Guedes acabou de falar em taxar livros, dizendo cinicamente, que livro é um produto de elite. Livro é para todo mundo! Livro é para educar o brasileiro, então o projeto é de deseducação do Brasil, é de desmonte da cultura, da arte e da ciência". A gente está passando por um momento muito difícil politicamente de total desvalorização da cultura brasileira bem diferente dos anos 80 e 90.

A cultura perdeu ministério, virou uma secretaria e um foco de problemas no governo Bolsonaro. Que prejuízo isso tem acarretado para a classe artística?

Acho que o principal prejuízo é para a população brasileira. O brasileiro tem direito, pela Constituição, à cultura, e a desenvolver os seus feitos culturais. Não podemos aceitar esse descaso com a cultura do nosso país! O Brasil é um país muito diverso e riquíssimo em sua diversidade cultual. Na música, na dança, no cinema, no teatro, no circo, na literatura, nas artes plásticas, nas artes gráficas, na fotografia, tanto nos centros urbanos como nos meios rurais e nas periferias. A música, por exemplo, que tem uma força muito grande no Brasil e é um tesouro em diversidade de ritmos, poesia, melodias e harmonias, deve ser valorizada em cada canto (no sentido de lugar e de voz) do Brasil, mas o que a se vê hoje é uma tentativa de calar esse canto já que existe um desprezo por feitos artísticos. Sem investimento real e simbólico na nossa cultura, é o povo brasileiro que sofre. É um prejuízo muito grande para o brasileiro, porque a cultura é o que revela a identidade de uma nação. É onde nós, o povo, nos entendemos e nos enxergamos como brasileiros.

Como isso se reflete na produção cultural?

A produção cultural é um reflexo do seu tempo. Acho que os artistas estão antenados e acabam refletindo e traduzindo esse contexto. O artista está conectado com o momento político. Não é necessário que se faça arte militante, mas toda a arte está em sintonia com seu tempo. Isso é ser político. Hoje vivemos uma pauta humanista muito importante e que é política também. Estamos discutindo sobre racismo, homofobia, machismo, violência contra a mulher, intolerância religiosa, liberdade de gênero, uma série de temas importantes e que dizem respeito ao dia a dia do brasileiro. Afinal o mundo precisa avançar. E como dizia o nosso querido e sábio Chico Science: “um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar”!

As pessoas precisam ter respeito pela outras e serem respeitadas. Os governos deveriam estimular esse debate, essa tolerância para que as pessoas de sintam incluídas na sociedade e não excluídas. O que estamos vivendo hoje no Brasil, com essa polarização em que os grupos não se escutam, não leva a nada, só leva ao ódio e a coisa não caminha, não evolui. Na verdade, o que a gente tem visto hoje com o governo Bolsonaro é uma tentativa de desconstruir o que aos poucos a frágil democracia brasileira estava tentando trazer à tona, o debate desses temas tão importantes para o convívio social. No meu ponto de vista estamos no governo do retrocesso. Vivem nesse negacionismo. Que não existe fome no Brasil, não existe queimada na Amazônia, a Terra é plana...

Como a arte pode ser um espaço para engajamento político? É importante o artista se posicionar politicamente? 
A arte é uma voz poderosa, uma voz muito forte de transformação. Acho que os artistas de maneira geral estão conectados com seu tempo e tem um canal de comunicação poderoso com a população, com a sociedade. A sociedade brasileira consome e ama a arte brasileira. A gente viu agora, mais do que nunca, durante a quarentena, como a arte salvou a saúde mental de muita gente. Imagina essa pandemia num silêncio total, sem nada. Sem música, sem filmes, sem livros, sem espetáculos online, sem lives sobre o fazer das artes? Sim, eu acredito na arte como um instrumento de transformação e os artistas como vozes desse instrumento.

 Como a classe artística foi impactada pela pandemia de coronavírus?

Acho que a pandemia foi 100% prejudicial para a arte. Para a nossa área da música foi e está sendo terrível. Primeiro porque os artistas perderam seu principal ganha pão que são os shows. Vivemos e amamos aglomeração. Então tivemos que nos reinventar e tentar criar um meio de comunicação com o nosso público através das redes sociais. Segundo porque milhares de famílias que fazem parte dessa cadeia produtiva como técnicos, produtores, carregadores, contra-regras , maquiadores, cenógrafos, iluminadores e etc... ficaram sem trabalho e sem o sustento de suas famílias. As pessoas estão passando por muitas necessidades, pelo menos 3 milhões de pessoas dependem da arte direta e indiretamente. Ponto positivo pro Congresso Nacional que aprovou a Lei Aldir Blanc de auxílio `a Cultura. .O ponto positivo foi a certeza absoluta que a arte e a cultura são fundamentais para a saúde física e mental das pessoas.

Você já foi ao STF defender nova lei de direito autoral, em 2013. Qual é o grande desafio dos artistas hoje em relação aos direitos autorais hoje, com as facilidades oferecidas pela internet? Que mudanças são mais necessárias neste momento?

Temos aí duas questões. Uma é a busca de um maior equilíbrio dos direitos autorais e conexos nos meios digitais e outra é em relação ao pagamento de direitos autorais, em estabelecimentos privados e públicos.

Em relação aos meios digitais, os criadores dos conteúdos, autores, interpretes e músicos lutam por uma remuneração mais justa dos direitos autorais, artísticos e conexos dentro desse novo ambiente e desse novo modelo de negócios junto `as distribuidoras e `as plataformas digitais.

A outra passa pelo Congresso Nacional, onde existem fortes lobby de grupos de interesses opostos aos dos autores. São lobbies ligados a empresários de eventos, à hotelaria e até a órgãos públicos. Esses "caras" volta e meia tentam emplacar algum PL pra prejudicar a classe musical e o recolhimento dos direitos autorais. Toda a hora aparece um PL tentando usurpar nossos direitos autorais que não legítimos e privados. São os direitos autorais e conexos dos músicos compositores e intérpretes brasileiros. E é isso é o que está acontecendo agora com esse PL 3968/1997.

A Câmara aprovou urgência para um projeto que desobriga hotéis e órgãos públicos do pagamento de direitos autorais. Que impacto isso tem?

É um golpe tentar colocar para votar em caráter de urgência um projeto que é de 1997. Estamos no meio de uma pandemia com assuntos muito mais relevantes para a população brasileira do que, na calada da noite, alguns parlamentares empurrarem essa votação defendendo esses grupos que citei anteriormente e prejudicando a classe musical.

Esse tipo de atitude só demonstra como o nosso Congresso Nacional não está em consonância com as demandas da sociedade brasileira. Como falamos nessa entrevista, a música é uma das artes que esta “salvando” essa quarentena. O povo brasileiro ama a música brasileira. Usurpar o direito autoral é matar a galinha dos ovos de ouro! Se não querem pagar direito autoral, não usem a música brasileira! E como hotéis, shoppings centers, e tantos estabelecimentos privados e públicos viveriam sem musica? No silencio?

.E ainda temos uma Secretaria de Cultura debaixo do guarda chuva do Ministério do Turismo, onde interesses da rede hoteleira são fortes. O Ministério do Turismo tem outras maneiras de socorrer o setor sem prejudicar a música brasileira e seus criadores. Na minha opinião, direito autoral é uma matéria que deveria estar ligada ao Ministério da Justiça. Acredito até esse PL deve possa cair em alguma inconstitucionalidade pois se trata de direito privado. Você não pode usar a obra de outra pessoa sem pagar.

Você está comemorando 30 anos de carreira solo. O que mudou na sua música nesse período?

Esses 30 anos de carreira são um caminhar e me orgulho muito da trajetória coerente que construí na minha carreira. Comecei em 1990 trazendo um som novo, um disco de música dançante brasileira. Hoje, com o passar dos anos, sou considerada a mãe do pop dançante brasileiro. Consegui fazer uma carreira longeva importante pra cultura pop, considerada descartável. Então é para comemorar mesmo!

E o futuro?

Este ano de 2020 foi inteiramente dedicado a essa comemoração dos 30 anos. A pandemia mudou um pouco os planos. Comecei o ano lançando um single chamado Do Ben, em homenagem ao meu grande ídolo, Jorge Ben Jor. Tenho mais três projetos grandes para lançar dentro dos 30 anos. “Slow Dance”, uma coletânea de baladas incluindo o single “Dance Dance” uma gravação inédita, na sequência lanço o DVD “Amor Geral ao Vivo”, o show da turnê do CD homônimo, que rodei pelo Brasil durante três anos. Depois vou lançar um álbum com 13 remixes inéditos em homenagem à cena dançante brasileira e aos DJs.

Você é a grande atração musical do Prêmio Congresso em Foco, que, neste ano, por causa da pandemia, será totalmente feito pela internet. O que o público pode esperar da sua apresentação?

Podem esperar um show repleto de sucessos! Apresentaremos o show, eu e meu marido, Tuto Ferraz, baterista e produtor musical, diretamente do nosso estúdio caseiro aqui no Rio, respeitando 100% o distanciamento social. Como Tuto é craque em áudio e vídeo não precisaremos de nenhum técnico conosco. Eu e Tuto tocaremos ao vivo e os áudios de baixo, guitarra e teclados disparados através de programação eletrônica. Estou animada, pois acho o Prêmio Congresso em Foco uma iniciativa superbacana já que aproxima a população do trabalho que os parlamentares têm feito e trazendo à tona os melhores! Vai ser um showzão num clima intimista, porém muito animado!

> Saiba mais sobre o Prêmio Congresso em Foco 2020

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