É pra rir ou pra chorar?

Edson Sardinha

A apresentação de candidatos no mínimo curiosos no horário eleitoral gratuito não é nenhuma novidade. A cada eleição, figuras anônimas trocam o anonimato das ruas por seus 15 segundos (quando muito!) de fama. Na base da galhofa (a deles ou a do eleitor), alguns acabam prolongando essa fama por anos de mandato. Mas a maioria acaba voltando mesmo para o ostracismo após o período eleitoral. Este ano, graças ao mais popular dos sites de compartilhamento de vídeo, ilustres personagens da vida eleitoral brasileira extrapolaram os limites das telinhas e ganharam notoriedade na rede mundial de computadores.

No Youtube, portal que recebe mais de 20 milhões de visitantes por mês em todo o mundo, é possível encontrar vídeos de alguns desses postulantes à vida pública. Há candidatos para todos os gostos, e todos os votos. O Congresso em Foco selecionou algumas dessas imagens que ilustram a antevéspera da tragicomédia da política brasileira - o período eleitoral.

Para assistir aos vídeos indicados a seguir, verifique se o seu computador tem as condições técnicas e o programa adequados. 

A centenária e o caixão

Há de tudo um pouco. Do candidato que se levanta cantando do caixão até a enfática defesa do fim dos impostos feita, nada menos, pela mais idosa dos postulantes a cargo público no país. Do alto de seus 102 anos, a candidata a deputada federal Mamãe (PSDC-BA) discursa: "Quando chega a terceira idade, muitos querem parar. E eu estou apenas começando. Jovens de menos de 100 anos, vamos acabar com os impostos antes que eles acabem com a gente. Então vote na Mamãe aqui, 2702" (veja o video).

"Não, não, aposentado não está morto, não", canta, com a voz cavernosa, Emanuel dos Aposentados, candidato a deputado estadual na Bahia, ao se levantar de um caixão para mostrar "a força do aposentado". Ele pode até não ganhar, mas lidera o ranking dos candidatos mais conhecidos do país no quesito das bizarrices eleitorais (clique para ver o vídeo).

Super homens

Na outra ponta, apostando no eleitor que ainda está longe da aposentadoria, Wesley Testa (PFL) é apresentado por uma típica voz de locutor de FM como o "candidato mais novo do futuro" do Brasil. Para conquistar votos para a sua corrida à Câmara Distrital, em Brasília, nenhuma promessa de campanha, apenas imagens do candidato-piloto radicalizando sobre duas rodas nas pistas (veja o vídeo).

Aos 72 anos, o policial militar aposentado José Vitória de Moura (PSL) exibe, no horário eleitoral, toda a sua "preparação física" para combater os desmandos na política, enquanto o locutor dá o caminho das pedras: "Contra a corrupção e o mensalão, agora você tem a solução: Super Moura! Há tempos ele vem se preparando para este combate. Agora só precisa de seu voto"  (veja as imagens). Também é possível conhecer outras peripécias de Moura, candidato a deputado estadual no Rio Grande do Norte, aqui.

"Vê se não vira ladrão"

Outro personagem com espaço garantido no Youtube é o folclórico vereador de Pelotas Cururu (PFL). Em um dos vídeos, vestido como gaúcho típico, ele aparece carregando uma mala com a credencial "mensalão". "Mulher, tô indo para Brasília", diz ele. "Vê se não vira ladrão por lá", adverte a companheira (veja o vídeo). Mais diálogos do casal podem ser acompanhados aqui e também neste link.

Ganhar de presente do eleitor uma cadeira em Brasília é objeto de desejo até do Papai Noel, candidato a deputado federal pelo PST em São Paulo. "Não, não agüento mais, roubaram até o meu trenó.Chega de ladrão, vota no Papai Noel", grita o candidato, entre roupas vermelhas e barba postiça branca (veja).

Humor na TV

Quem também tenta chegar à capital federal pela via do humor é a candidata Superzefa (PTdoB-RJ), nome "parlamentar" adotado por Regina Célia de Souza Bento. "Pelas criança, 'pelos idoso' e 'pelos animal', Superzefa para federal. Número 7, 'dois ovo' e um pau", diz ela ao se referir ao número de sua candidatura: 7001 (confira aqui).

Outros chamam a atenção pela simplicidade, calculada ou não. Com o chapéu na cabeça e camisa vermelha, José de Castro Viana, mais conhecido como Mazarope da Carroça, pede voto para ser deputado federal: "Se eu não conseguir chegar na sua cidade, anote o meu número no papel. É 1380, 1380" (assista).

"Impuguinação" e "assembréia"

Alguns candidatos parecem andar às turras com a língua portuguesa. Dono do discurso mais radical entre os partidos com espaço no horário eleitoral, o PCO atropelou o idioma de Camões e Machado de Assis, no Rio Grande do Sul, ao protestar contra a "impuguinação" (sic) da candidatura de Rui Costa Pimenta à Presidência da República (veja o vídeo).

Pedindo ao eleitor mato-grossense que o mande, com o "seu verdinho", para a "assembréia", o Tenente Lara (PHS) dispara uma sucessão de expressões típicas do interior do país: "Em primeiro de outubro, a onça vai beber água, a jeripoca vai piar. Aqui o couro come, a coruja vai cantar. 31031. Vamos à assembréia renovar. É pauleira, é aroeira, é cuiabano da lixeira" (acesse o vídeo).

Em outro vídeo, Tenente Lara tira a máscara, diz estar "macho" e "fuçado" e pede ajuda ao eleitor para ser um "angu de caroço" na Assembléia Legislativa (veja mais)

Ratos e avestruz

O humor também é o mote de Gil Móveis, candidato a deputado estadual pelo PV no Rio Grande do Norte. "Já reformei muito estofado. Agora, depois da minha formação acadêmica, quero reformar a Assembléia do nosso estado, caçando ratos e corruptos. Tchau, ratos", diz, enquanto apresenta um legítimo representante da espécie (veja). O bichinho também é personagem de outro episódio do horário eleitoral de Gil (clique aqui).

Em vez de um rato, um avestruz. É montado sobre um exemplar da ave exótica que Maurício do Avestruz (PPS-SP) tenta convencer os eleitores paulistas a fazerem dele seu representante na Câmara. O candidato se apresenta como o pioneiro na comercialização do animal no país (acesse).

Aparecendo de cabeça pra baixo, o candidato a deputado federal pelo PSDC da Bahia Daluz se apressa a esclarecer ao eleitor: "Não, não é a sua TV que está quebrada. Quem está quebrada é a Bahia. A Bahia está de cabeça pra baixo. Você pode mudar isso" (assista).

United States of Siará

Do PSDC, aliás, também vem o Coronel Gondim, candidato a governador do Ceará. "Enquanto eles prometem um mar de rosas, um United States of Siará, Coronel Gondim sabe como fazer segurança...", diz ele (veja). Autoproclamando-se o "governador da segurança", Coronel Gondim promete não dar moleza à "bandidagem", à qual dá o prazo de 24 horas para deixar o estado após a sua eleição. "Garantida a segurança, o restante a gente corre atrás", considera. "Em dois meses na política, vi mais bandidagem do que nos meus 33 anos na polícia militar", afirma (confira).

Dono de um discurso também inflamado, Osmar Lins Peroba (PAN), se "popularizou" com o chavão "Peroba neles", usado em sua campanha eleitoral em 2002 contras os políticos "cara-de-pau". Candidato a deputado estadual em São Paulo, tenta repetir a dose contra sanguessugas e mensaleiros. "Eles se aposentaram, renunciaram e estão de volta. Deve ser gostoso 'as teta' do Estado" (acesse aqui).

Samuel Silva

Em 2002, Samuel Silva (PMN) recebeu 243 votos como candidato derrotado à Assembléia Legislativa de São Paulo ao dizer apenas duas palavras no horário eleitoral gratuito. E as disse, nada menos, do que 13 vezes ao longo de 36 segundos: "Samuel Silva, Sa-mu-el Sil-va, Samuel Silva, Sa-mu-el Sil-va...". Passados quatro anos, ele repete o discurso para tentar chegar, desta vez, à Câmara dos Deputados. Se será eleito, aí é outra história. Mas o certo é que o ex-corretor de imóveis e professor de matemática ficou conhecido nacionalmente pela internet (veja o vídeo).

No site de relacionamentos Orkut, Samuel Silva dá nome a três comunidades, todas criadas por seus "fãs". Uma delas impõe a seguinte regra: "Todo e qualquer tópico criado aqui só poderá ter o assunto SAMUEL SILVA. E como comentário SAMUEL SILVA [não importando a grafia ou tamanho das letras]. O descumprimento desta regra será punido com banimento e eternamente o nome SAMUEL SILVA irá ficar em tua cabeça!!!".

"Não me deixem só"

Mas, além dos anônimos que desfrutam da fama durante a aparição em alguns segundos do horário eleitoral, o Youtube tem permitido que eleitores de outros estados vejam o desempenho de figuras pra lá de conhecidas. Até mesmo o reencontro "marcado de emoção" do ex-presidente Fernando Collor de Mello, candidato a senador pelo PRTB, com o eleitor alagoano. O prestígio pode não ser o mesmo, mas o discurso... "Eu preciso de vocês. Não me deixem só", finaliza o "ex-caçador de marajás" em sua aparição (clique aqui pra ver). 

Também fazem sucesso na internet as exibições do estilista e apresentador de TV Clodovil Hernandez no horário eleitoral gratuito (veja). Considerado um dos favoritos para conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados no próximo domingo, Clodovil usa e abusa da irreverência para conquistar o eleitor paulista. "Esta figura bem educada, que verbaliza direito, vocês não pensem que eu sou passivo não. Pisa no meu pé pra você ver o que acontece. Não tenho talento nenhum pra prometer nada. Mas tenho talento para denunciar." Clodovil diz ter apenas uma promessa a fazer: com a sua eleição, "Brasília nunca mais será a mesma" (confira).

O "cãozinho" e o "menestrel"

Outro que promete fazer barulho na capital federal é o cantor de forró Frank Aguiar (PTB), também cotado, nas pesquisas, para ser um dos novos deputados federais por São Paulo. Dizendo estar enveredando pela política para retribuir o público pelo carinho, Frank não dispensa, no horário eleitoral, o grito que lhe valeu o apelido de "cãozinho dos teclados". Veja aqui.

Fiel à irreverência que sempre caracterizou o "menestrel do Brasil", Juca Chaves (PSDC) faz com seus versos troça da crise política no horário eleitoral: "A honestidade há muito já sumiu. As conseqüências vêm sempre depois. Por isso, todo dia, para a alegria do Brasil, morre um ladrão e nascem dois".  E continua: "Desta vez, baiana gente, baiano de toda cor, o seu voto inteligente, com inteligência, justiça e amor, não será comprado, se tivermos no Senado Juca Chaves senador" (acesse o vídeo). Até agora, a cantiga não tem dado certo. O menestrel aparece com apenas 2% das intenções de voto.

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