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O velho P(MDB) e os novos movimentos de renovação política

"É bem verdade que em um sistema de apenas dois partidos, não é de se estranhar que o veículo único das aspirações democráticas de parte considerável da população também se fortalecesse pela polarização forjada nos embates com a Arena"

O P(MDB) é o partido mais bem-sucedido da história recente do Brasil. Nenhuma agremiação política conseguiu acesso tão privilegiado ao primeiro escalão do governo da República. De 1985 a 2010, foram 66 ministros e congêneres. Nos governos Dilma e Temer, seguiu – e continua firme – a ocupação do coração do poder central.

A grande frente que aglutinou boa parte da resistência democrática durante a ditadura de 64 parece ter sido formalmente constituída para tornar-se fraca. A porção institucionalmente apartada do poder no sistema bipartidário poderia perfeitamente cumprir o papel de homologar a preservação protocolar de preceitos constitucionais, como, por exemplo, o funcionamento regular do parlamento. Sem recorrer a grandes teorias, parece fácil controlar o que é por natureza fragmentado.

No entanto, o destino reservado à oposição nos anos sem eleições não seria o de mero espectador. De “oposição branda”, o MDB começa a ser incorporado por uma série de movimentos da sociedade brasileira como plataforma de enfrentamento do regime. O canal exclusivo de expressão dos setores médios urbanos, inflados pela industrialização do país, passa a ser sinônimo da luta por melhores salários e por um desenvolvimento econômico com distribuição de renda, mas, principalmente, pelo restabelecimento das garantias e liberdades individuais contra o arbítrio do Estado.

É bem verdade que em um sistema de apenas dois partidos, não é de se estranhar que o veículo único das aspirações democráticas de parte considerável da população também se fortalecesse pela polarização forjada nos embates com a Arena. O MDB construía uma imagem incrivelmente poderosa de oposição real.

No imaginário popular, suas lideranças eram aquelas oprimidas por um sistema de força e, portanto, fortes e obstinadas, quase heroicas. A necessidade de maior controle da máquina política pelos governos militares agora enfrentava sua antítese. E ela detinha o monopólio do combate à ditadura. Não era pouco em uma nação que se redemocratizava.

Célio Azevedo

"O MDB construía uma imagem incrivelmente poderosa de oposição real"

A abertura chegou e com ela toda uma gama de novas oportunidades. Com o anúncio do fim do regime, a autorização controlada para a criação de novos partidos separou os que antes não tinham alternativa senão caminharem juntos. Alguns permaneceram, mas muitos socialistas e sociais-democratas começaram a sair do agora PMDB, já ocupado por forças de centro e de centro-direita – principalmente pela assimilação do PP. Não era mais necessário constituir uma frente, muitos pensaram.

A oposição agora se fragmentava organicamente. Dada a possibilidade de vencer as disputas em eleições livres, o maior esforço era o de construir novas estruturas partidárias, ressignificar siglas antigas, mobilizar a militância. Os que saíam daquele PMDB não imaginavam que deixavam para trás uma estrutura bastante consolidada em todas as regiões do Brasil, uma base de apoio volumosa e organizada e um capital político gigantesco: a união em torno daquelas três letras havia derrotado a ditadura sem uma única gota de sangue derramado. O PMDB era o bom e velho MDB, aquele dos que não se exilaram, aquele que ficou corajosamente ao lado dos brasileiros.

Comecei dizendo que o PMDB é o partido brasileiro de maior êxito na ocupação de espaços políticos no período pós-ditadura. O que deu errado então? Minha opinião sobre o porquê de aquilo ter dado nisso é o que pretendo dividir com vocês semana que vem.

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Os vários movimentos atuais de renovação política, que surgem na esteira de um sentimento generalizado de inconformismo e indignação por parte da população, podem repetir os erros daqueles que saíram da legenda peemedebista nos anos 80.

Retrospectivamente, já que os novos partidos iriam dar conta de liderar o processo de reerguimento nacional com a volta da democracia, uma geração quase inteira que abdicou da política formal para ajudar a desenvolver as soluções práticas que melhorariam o país – ou simplesmente para tratar da vida – legou aos seus filhos um difícil desafio. Eles surgem no horizonte – certamente promissor – como se a batalha das eleições pudesse ser ganha sem a construção institucional que, por exemplo, PT e PSDB experimentaram com sucesso. A premissa de que a sociedade só terá olhos para alguma reforma geral do cenário, não importando quão pouco sustentável ou madura ela pareça, pode se revelar vazia.

Longe de mim querer desanimar gente tão comprometida, para a qual torço com todas as forças e apoio vigorosamente, mas começar essa jornada de forma desagregada pode até eleger novos representantes, mas muitos menos do que se poderia conseguir como movimento unificado. Que qualquer percalço em 2018 não signifique derrota e nem traga desânimo. Essa construção exige tempo, suor e lágrimas.

Pena é que tenhamos que começar tudo de novo a cada ciclo, e como se fosse sempre a primeira vez.

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Sobre o autor

Tom Barros

Tom Barros

Tom Barros é fundador do Observatório Social de Brasília, auditor do Tesouro Nacional, líder Raps e Lemann fellow. Escreve às quartas sobre política, economia e governo

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