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O pior cego é o cego ideológico

"Partidos brasileiros que até outro dia mereciam o apoio da população pelo seu histórico de lutas, embarcam sem rubor na defesa de posturas que namoram com a insanidade e vão pra cama com o autoritarismo"

É de John Kennedy a frase: “Quase sempre preferimos o conforto da opinião ao desconforto da reflexão.” A cegueira ideológica é uma praga que não pára de crescer. Funciona segundo a lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Mesmo que ele seja um canalha. A forma como alguns partidos brasileiros que se autodenominam de esquerda encaram a atual situação venezuelana é uma prova viva disso. Se combatem os Estados Unidos e Maduro se opõe a Washington, logo Maduro merece apoio. Mesmo que Maduro seja um canalha.

Partidos brasileiros que até outro dia mereciam o apoio da população pelo seu histórico de lutas, embarcam sem rubor na defesa de posturas que namoram com a insanidade e vão pra cama com o autoritarismo, além de ultrapassarem o senso do ridículo.

A ditadura envergonhada da Venezuela

É impossível desconhecer os descalabros cometidos pelo ditador Nicolás Maduro ao longo dos últimos meses. A farsa da Constituinte composta por representantes escolhidos a dedo para apoiar o governo – em substituição à Assembleia Nacional, de maioria oposicionista – vem se revelando a cada dia de forma mais escancarada. Antes mesmo de sua convocação o povo foi às ruas condená-la. Ainda assim, Maduro manteve a decisão de promover uma eleição de fancaria, para dar um falso verniz democrático à “consulta”.

Reprodução Internet

"A cegueira ideológica é uma praga que não pára de crescer"

Gatos pingados a seu soldo compareceram às urnas e coonestaram a farsa, revelando ao mundo o caráter antidemocrático e autoritário da medida. Na formação da assembleia constituinte, chama a atenção que entre os 545 membros, mais de um terço tenham sido recrutados entre sindicatos que apoiam o governo. Os demais foram pinçados dos municípios venezuelanos. Pior: cada município entrou com um representante, independente das dimensões e da densidade populacional. Como se Recife entrasse com um e Caruaru também. Tudo para disfarçar a intenção autoritária embutida na armação. Mais fácil seria a outorga de um novo texto constitucional – como aqui no Brasil fizeram as ditaduras de Getúlio em 1937 e a dos militares em 1967/69. Mas Maduro é um ditador envergonhado: não tem sequer a coragem de assumir a ditadura.

Um café vale 60 tanques de gasolina!

Maduro tem cometido todas as arbitrariedades típicas de um governante em marcha batida rumo à ditadura escancarada. Até mesmo o bolsa-comida de lá vem sendo usada como arma política. A Venezuela enfrenta a mais grave crise econômica de sua história. Um cafezinho custa o equivalente a 60 tanques de gasolina!!! Você não leu errado nem eu escrevi errado: é isso mesmo – um cafezinho ou uma garrafa de água mineral custam o equivalente a 60 tanques de gasolina, principal produto de exportação do país. Confira aqui.

Moradores de Caracas estão usando receitas caseiras pra fabricar pasta de dentes e desodorante. Não contente, Maduro usa o bolsa-comida, única solução para grande número de famílias, como instrumento de opressão ideológica: a condição para receber o benefício é o alinhamento ao governo. Quem não apoia não come.

Mas, como Maduro, na linha do antecessor, Hugo Chávez, escolheu como alvo o “império” norte-americano, os partidos de esquerda brasileiros hipotecam-lhe apoio e solidariedade. É patético.

Mais de cem mortos até aqui

Maduro tem as mãos tintas com o sangue dos compatriotas. De vez em quando aparece um ou outro dissidente por aqui – como o deputado Jean Willys, do PSOL – para denunciar o descalabro.

A responsável por essa visão distorcida e insana tem nome e sobrenome: chama-se cegueira ideológica. Como dizia Kennedy, é muito mais fácil ficar com o conforto da opinião do que com o desconforto da reflexão. Os partidos que coonestam a farsa de Maduro e sua assembleia de araque sabem que devem e precisam mas não querem mudar de ideia. E não mudam. Doido é quem tem ideia fixa. Gente normal muda de ideia, evolui, avança. Mas, se o pior cego é o que não quer ver, o cego ideológico odeia quem quer enxergar.

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Sobre o autor

Paulo José Cunha

Paulo José Cunha

* Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor.

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