Quarta, 29 de Março de 2017

Colunistas

Ventania e mar revolto

“Mas navegar é preciso. O problema da sociedade é decidir como, quando, de que forma e qual o rumo do país. E isso terá de ser feito no e com o Congresso de Renan, Jucá e dezenas de outros congressistas envolvidos em operações policias”

Prepare-se. Este ano que começa está inteiramente contaminado pelas crises política, econômica, moral e ética. Com uma consequente confusão em todas as áreas das dimensões públicas. Até as decisões administrativas mais banais foram atingidas em todos os níveis de governo. Lamento. Gostaria de brindar e desejar tudo de bom no ano novo. Sobram desejos sinceros. Mas só há perspectivas de ainda mais ventania e mar revolto.

Mesmo com os anúncios do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e do Banco Central de que no segundo semestre a economia dará sinais de melhora, é pouca a crença de industriais e trabalhadores, produtores rurais de todos os tamanhos, comerciantes e até de quem já está aposentado. Que estragos a tempestade de agora deixará quando passar? A previsão para 2017 é de mar alto, próximo do nível em que a Marinha de Guerra e os navegadores mais experientes recomendam recolher a embarcação.

Mas navegar é preciso. O problema da sociedade é decidir como, quando, de que forma e qual o rumo do país. E isso terá de ser feito no e com o Congresso de Renan Calheiros, Romero Jucá e dezenas de outros congressistas envolvidos em operações policias. A Lava Jato pode prender o ex-presidente Lula, sua mulher e filho. Ministros do atual governo que são investigados também podem sair para se defender das acusações na Justiça.

Após tantas crises políticas que o Brasil atravessa desde a República, a mais recente parece maior, quase intransponível. Os analistas mais otimistas chegam a conclusões, no mínimo, preocupantes. Não há mais o boom das commodities que deram o gás econômico aos dois governos Lula e nem mais o dinheiro do Tesouro que a desastrosa gestão Dilma utilizou para a sua política anticíclica de investimentos, financiamentos e isenções tributárias para tentar aquecer a economia. Não há dinheiro dos impostos nem como aumentar a arrecadação.

Em abril, o historiador inglês Perry Anderson, bem longe do clima ácido das nossas ruas e antes do impeachment, escreveu: “Os BRICS (grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China) estão em apuros. África do Sul em queda livre”. Não há mais espaço na economia global para a mesma fórmula adotada pelos governos petistas de exportar commodities para obter dólares e emprego aqui dentro.

De coloração marxista, Anderson reconhece que o vendaval da crise econômica mundial é devastador. Mas conclui: “Todavia, em nenhum outro lugar as crises política e econômica se fundiram de forma tão explosiva quanto no Brasil, cujas ruas no último ano viram mais manifestantes do que o resto do mundo combinado”.

A conclusão de Anderson foi antes do impeachment, da posse do vice Michel Temer e do aparecimento das delações premiadas de dezenas de executivos, gerentes e até os donos da maior empreiteira brasileira, a Odebrecht. Além disso, o Poder Judiciário deve concluir a partir do primeiro semestre deste ano a situação de parlamentares investigados e já denunciados por vários crimes. Centenas de julgamentos estão previstos para todas as instâncias da Justiça. Inclusive da chapa Dilma-Temer, acusada de crime eleitoral. Com a fila de processos e inquéritos, os tribunais superiores poderão abrir uma Caixa de Pandora e libertar monstros inéditos.

Projetam-se inflação na meta definida pelo Banco Central e crescimento de meio ponto percentual do PIB. O agronegócio anuncia investimento, mas este é um mantra do setor que não pode cultivar agouros. Mas eles sabem que as soluções disponíveis nos manuais de gestão são poucas e arriscadas. Remédios de consequências imprecisas para o ineditismo da septicemia brasileira.

A agenda a ser debatida e votada pelo Congresso é das mais difíceis. Reforma da Previdência, reforma trabalhista, reforma política, rearranjo administrativo desde prefeituras até o Palácio do Planalto, cortes ainda mais profundos dos gastos públicos e o reflexo na insatisfação dos servidores e da população atendida por eles. Por mais apoio que o governo tenha no Legislativo e que as medidas sejam aprovadas, mesmo assim todas as soluções fiscais terão consequências devastadoras.

Em 2017 teremos noites e dias de tempestade na Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes, gabinetes de governos estaduais, assembleias legislativas e prefeituras. Espera-se o imprevisto das investigações policiais envolvendo políticos e governantes de todos os níveis. É provável que não tenhamos mais manifestações de rua como as de 2013. O calor dos protestos e do mau humor foi transferido para a internet. Mas, como cantou o genial Gonzaguinha: “Em tempo ruim, todo mundo também dá bom dia”. Feliz ano novo.

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Sobre o autor

Leonel Rocha

Leonel Rocha

* Editor da Revista Congresso em Foco, tem mais de 30 anos de atividade profissional como jornalista. Passou por algumas das principais redações do país (entre elas, as revistas Época e Veja e o jornal O Estado de S. Paulo).

Outros textos de Leonel Rocha.

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