Sábado, 21 de Janeiro de 2017

Colunistas

Um desconto para a civilização

“Poucas atividades refletem tão bem o estágio de evolução do espírito humano como o comércio. Pense no quanto o aparentemente banal ato de comprar e vender traduz a cultura e a filosofia de todo um povo!”

Poucas atividades refletem tão bem o estágio de evolução do espírito humano como o comércio. Pense no quanto o aparentemente banal ato de comprar e vender traduz a cultura e a filosofia de todo um povo!

Dia desses, por exemplo, soube de uma interessante promoção oferecida por uma concessionária de veículos norte-americana: compre um carro e leve de presente um fuzil AK-47 novinho e pronto para usar. O curioso é que esta ideia deu resultados: segundo o proprietário do estabelecimento, houve meses em que chegaram a vender uns 35 veículos além da média!

Para que não se diga ser esta uma ideia absolutamente isolada, uma pizzaria norte-americana anunciou descontos para clientes que exibissem suas armas no estabelecimento. É isso mesmo: descontos para quem fosse comer pizza armado. A promoção foi um sucesso, com 80% dos clientes aderindo, e registrou-se inclusive o caso de um cidadão que foi lá saborear a culinária italiana portando um fuzil AK-47.

Por falar em ofertas, que tal tatuar no braço, em letras garrafais e cor azul, o nome de um famoso bordel alemão da cidade de Colônia? Em troca, o cliente ganharia acesso vitalício ao estabelecimento, que tem 12 andares, 120 prostitutas, 80 empregados e mais de mil clientes por dia. Acredite: logo de cara 40 pessoas se apresentaram!

Ainda sobre prostíbulos alemães, outro deles, manifestando louvável preocupação com a ecologia e o aquecimento global, concede um desconto de cinco Euros a quem por lá comparecer a bordo de bicicletas ou via transporte público.

Há também o caso da loja de calçados de Wenzhou, na China, que dá descontos  para os fregueses que acertarem um sapato na face do ex-presidente norte-americano George Bush, retratado em uma das galerias. Segundo consta, tão logo a ideia foi anunciada verificou-se um verdadeiro “estouro de manada” e, nos primeiros 30 minutos da promoção, foram vendidos nada menos que 64 pares de sapatos – e centenas por dia, a seguir!

Enquanto isso, lá em Washington (EUA), um restaurante decidiu premiar os clientes cujos filhos apresentem bom comportamento à mesa. Chega a ser pitoresca a nota fiscal emitida, na qual lê-se a expressão “crianças bem comportadas” seguida do valor do desconto: US$ 4.

Já que estamos a falar de restaurantes e de respeito a consumidores, um outro – também norte-americano – decidiu conceder um desconto de US$ 3,50 a uma consumidora que encontrou um fio de cabelo em sua alimentação. Foram mais sovinas que um terceiro, daquele mesmo país, que “agraciou” um infeliz cliente com um desconto de 25% na conta – por conta de ter sido encontrada na sopa o ‘cadáver morto de um inseto defunto’…

Longe dali, na Itália, uma lanchonete anunciava um café expresso por precisos 3 Euros. Mas se o cliente pedisse “por favor”, este valor abaixaria para 2 Euros. E se fosse pronunciada a raríssima expressão “bom dia” na entrada, a bebida custaria apenas um Euro!

Estão aí, nestes exemplos, e volto ao primeiro parágrafo deste texto, um razoável retrato do momento cultural de diversos povos – talvez mesmo da humanidade! Da agressividade à hipocrisia, da ganância ao cinismo, da angústia por uma maior espiritualidade ao inconformismo com o egoísmo puro e simples, está aí, nas entrelinhas destas notícias até pitorescas, a narrativa de muito do nosso cotidiano. Daí, talvez, a genial exclamação de Horace Walpole: “a vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”.

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Sobre o autor

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

* Pedro Valls Feu Rosa, desembargador desde 1994, foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no biênio 2012/2013.

Outros textos de Pedro Valls Feu Rosa.

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