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Todos brincando com fogo: a complexidade da questão militar

"Militares usados por políticos de direita e atacados por políticos de esquerda. Uma crise profunda de credibilidade no país, com instituições trocando tapas e esfarelando cotidianamente em praça pública"

O silêncio do general Villas Bôas fala muito. Comandante do Exército, permaneceu calado desde o anúncio da intervenção. As Forças Armadas foram arrastadas para uma situação que não queriam.

A imagem do general Braga Neto, “o interventor”, assustado durante as entrevistas, é a expressão de quem foi retirado correndo de uma praia para uma roubada.

Acusá-lo de ser partícipe de uma conspiração golpista é delírio ou má-fé. Temer fez dos militares peça de seu jogo político. Resolveu brincar com fogo. Sabe como começa, não tem a menor ideia de como vai terminar. Decidiu jogar roleta russa com o medo da população.

O Exército foi empurrado para uma sinuca de bico. Se questionar a autoridade de Temer, estará incorrendo em indisciplina e insubordinação. Ao assumir a missão, não tem para onde correr.

Se der errado, carregará para sua imagem a pecha de incompetente. Vejam, é bem diferente de uma missão especial, de apoio pontual ou emergencial. Não é a segurança da Copa do Mundo. Agora é o Exército que está no comando. E eles não costumam brincar em serviço.

É como soltar Leões no meio de cervos gordinhos e pedir que não ataquem os bichinhos. A culpa é dos leões ou de quem os soltou?

Não por acaso, na reunião do Conselho da República realizada na última segunda feira (19), o general Villas Bôas afirmou ser necessário “dar aos militares garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão de Verdade.” Se vão soltar os Leões…

Por outro lado, parte da esquerda resolveu escolher os militares como alvo. Concentram a crítica no fato de o interventor ser militar, como se só este fato já fosse um risco à democracia, como se fossem os militares golpistas por natureza.

Ao cutucar e provocar, reforçam internamente os setores mais atrasados das Forças Armadas. Brincam com fogo também.

A defesa do interesse nacional aproximou durante um tempo a esquerda dos militares. José Genoíno, Aldo Rebelo e outros quadros progressistas viraram palestrantes recorrentes na Escola Superior de Guerra.

Na onda de desmonte nacional e das Forças Armadas pela ofensiva neoliberal, uma aproximação natural. Sem Estado Nacional, para que Exército? “A com B”.

Essa aproximação foi contaminada pela desconfiança suscitada a partir da Comissão da Verdade. Não se trata de defender encobrir bárbaros crimes praticados pela ditadura. Mas na política é preciso fazer escolhas.

Entre a construção de uma eventual aliança futura com um setor estratégico “armado” em torno de um projeto nacional e a execração pública de torturadores e assassinos caquéticos e decadentes como o coronel Brilhante Ulstra, a esquerda ficou com a segunda opção.

Militares usados por políticos de direita e atacados por políticos de esquerda. Uma crise profunda de credibilidade no país, com instituições trocando tapas e esfarelando cotidianamente em praça pública.

Uma população esgotada, no meio de uma grave crise econômica.

É bom todos agirem com responsabilidade. Quem resolver brincar com fogo pode acabar incinerando o país com consequências imprevisíveis.

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Sobre o autor

Ricardo Cappelli

Ricardo Cappelli

Jornalista, especializado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi secretário nacional de Esporte Educacional e de Incentivo ao Esporte nos governos Lula e Dilma. Ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), é tricolor e Vila Isabel de coração. Exerce atualmente o cargo de secretário chefe da representação no DF do governo do Maranhão

Outros textos de Ricardo Cappelli.

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