Será um patriotismo de fachada?

Renata CamargoUm grupo de parlamentares liderados pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ressuscitou nesta semana uma organização multipartidária da época de JK e Jango. Cerca de 30 parlamentares, a maioria deles ruralista, “refundaram” a Frente Parlamentar Nacionalista. Mais do que um …

Renata Camargo

Um grupo de parlamentares liderados pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ressuscitou nesta semana uma organização multipartidária da época de JK e Jango. Cerca de 30 parlamentares, a maioria deles ruralista, “refundaram” a Frente Parlamentar Nacionalista. Mais do que um resgate nacionalista, no entanto, a iniciativa se mostra como mais uma estratégia para agilizar as polêmicas mudanças no Código Florestal e conquistar o eleitorado rural.
 
Não há disfarces de intenções por parte dos ruralistas, ainda que o coordenador da frente, Aldo Rebelo, tente minimizar as evidências. A proteção contra embargos comerciais em exportações agropecuárias foi colocada como uma das prioridades da frente, nos discursos de seus membros. Também foi levantado no discurso o boicote a instituições como o Bradesco, que aparece como parceiro/doador da ONG SOS Mata Atlântica.
 
Inclusive, a criação da frente foi apresentada pelo deputado Paulo Piau (PMDB-MG) como uma “reação à campanha Exterminadores do Futuro”, lançada justamente pela SOS Mata Atlântica. O deputado Moacir Micheletto (PMDB-PR), afirma que a primeira ação da frente nacionalista será organizar o Prêmio Joaquim Silvério dos Reis, uma premiação aos “traidores” dos interesses nacionais.
 
O prêmio será entregue em nome da frente. E, no caso, os que mais se aproximam do perfil de traidores até o momento, na avaliação dos ruralistas, são deputados que defendem propostas ambientalistas e ONGs ligadas ao meio ambiente. Os ruralistas acusam as ONGs de defenderem “interesses internacionais escusos” por trás de um discurso ecológico de preservação da floresta brasileira.
 
Com biografia ligada ao nacionalismo, Aldo Rebelo prefere falar na frente como um meio para “lutar contra as ações que contrariam os interesses do Brasil em favor dos interesses externos”. Aldo justifica a refundação da frente com exemplos como do caso da Organização Mundial do Comércio (OMC) ter autorizado o Brasil a retaliar os Estados Unidos na disputa contra subsídios dados pelo governo norte-americano à produção de algodão. “A OMC agiu muito mais em defesa dos interesses do Brasil do que nosso Parlamento”, diz Aldo.
 
O comunista é a peça-chave nesse cabo de guerra entre ruralistas e ambientalistas. Ele é relator da proposta que modifica o Código Florestal e será um dos responsáveis pelo futuro dos recursos naturais no país. Ainda que não tenha se posicionado diretamente em relação aos pontos mais polêmicos do projeto, Aldo Rebelo tem demonstrado mais afinidade ao discurso dos que pertencem ao setor agroexportador, do que daqueles entitulados ambientalistas.
 
O discurso ruralista – com alguns argumentos válidos para exigir mudanças na legislação ambiental – se baseia, no entanto, em um modelo que parece, boa parte das vezes, contraditório com uma proposta nacionalista de desenvolvimento sustentável. Se assemelha mais ao discurso nacionalista desenvolvimentista daquela época de Jango. O deputado Odair Zonta (PP-SC), por exemplo, deixou escapar que existe a “necessidade de adequar a legislação ambiental à realidade nacional para preservar sim, mas para preservar o direito da propriedade, o direito de produzir”.
 
Está dada, portanto, a escala de valores sobre a qual a nova frente nacionalista, com a devida composição, deve se posicionar. Uma das contradições entre a atual frente e a de 1956, é que a de antigamente encampava, entre outras coisas, a proposta de reformas de base, como a reforma agrária. A nova frente – pelo perfil dos que até o momento a encampam – está longe de defender esse tipo de reforma. Esse perfil, inclusive, tem suscitado críticas de parlamentares que defendem interesses nacionais.
 
“Acho uma graça, tem muito ruralista exportador dizendo que é nacionalista. Nacionalismo tinha um significado maior. Queria dizer quem defendia um projeto nacional de desenvolvimento. A grande maioria aí não tem nenhum tipo de tradição nessa área de defesa dos interesses nacionais”, examinou o deputado Ivan Valente (Psol-SP), que se diz nacionalista, mas sequer soube da instalação da frente, talvez porque, no jogo do Código Florestal, ele pertence ao time dos ambientalistas.

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