Sábado, 18 de Maio de 2013

Colunistas

Pig’s services

“Oremos. Com fé. MUITA FÉ. Se o problema for com operadoras ou planos de saúde”

Acontecem coisas surrealistas com as operadoras de tevê a cabo, internet e telefonia, a começar do atendimento ao cliente. Minha assinatura inclui o pacote completo – telefone, tevê e internet –, mas só este mês fiquei sem sinal por duas vezes em todos estes serviços e, se não tivesse celular, estaria perdida. Na terça-feira, aconteceu de novo. Seguinte: pela manhã houve uma queda de energia no condomínio onde moro e todos os condôminos, assinantes da referida operadora, ficaram na mão.

Há na caixa de força do edifício um dispositivo da empresa que sofreu pane ou algo assim, contudo este só pode ser aberto por um técnico da operadora em questão cujo GRANDE SERVIÇO seria apenas ligar uma chave ou fio ou rebimboca do gênero ou, quando muito, substituir a tal chave ou fio ou rebimboca qualquer, em caso de dano permanente.

Ligamos para a empresa, mas esta informou que “todos os técnicos já estavam ocupados e só poderia agendar uma visita para o dia seguinte”, e estamos conversados. Até lá, nós que nos fodêssemos sem internet, telefone e televisão.

Ponderei que o prédio fica em lugar central – confluência de Vila Mariana, Aclimação, Cambuci e Paraíso – e que eu considerava materialmente improvável não ter nenhum técnico nas imediações pra nos dar atendimento, o qual, repito, seria simples, rápido, fácil, como já exaustivamente explicado, bastando um pouco de boa vontade e considerando o prejuízo de tantos assinantes. Afinal, era só abrir a porra da tal caixinha localizada no saguão do prédio (com serviço de portaria durante 24 horas) e ligar a porra do dispositivo.

Mas o telemarketing de plantão – que se recusou dar o nome, CPF e RG – mesmo como representante da empresa (enquanto nós, consumidores, temos que lhes fornecer até o número da calcinha se pedido), só falava em ordens de serviço, agendamento, procedimentos da empresa, o caralho – e nós que nos fodêssemos, é claro.

Daí me ocorreu lembrar ao telemarketing sem nome: Engraçado, a polícia deve ser tecnologicamente muitíssimo mais avançada do que vocês, pois é o único serviço que, quando chamado, vem imediatamente!(pela primeira vez, a voz se calou, num silêncio constrangido).

Idem o Corpo de Bombeiros, cujo serviço de resgate, pelo fato de atender rapidamente aos chamados (sem perguntas e procedimentos idiotas), recentemente evitou que um amigo meu morresse de ataque fulminante do coração, enquanto seu Plano de Saúde – pago há séculos e os olhos da cara – não só lhe negou ambulância, como quase o matou por negligência, devido ao “brilhante” diagnóstico do autista de plantão no PS (um carinha que aparentava ter uns treze anos no máximo – de idade física e mental – provavelmente “formado” em alguma “Unisquina”, dessas que abundam atualmente, tipo ensino à distância e diploma de pós-graduação por telefone) com crachá de “médico” na lapela: inferindo que tudo que ele tinha não passava duma “crise de estafa”, deu-lhe alta do PS, mandando-o “apenas repousar”, prescrevendo-lhe, de passagem, “Melhoral Infantil”.

A propósito: 36 horas antes de minha mãe morrer no hospital de seu plano de saúde, ela recebeu alta duas vezes, dada por dois médicos diferentes. Para vocês imaginarem a quantas anda a competência inspirada na mais genuína covardia dos médicos atuais – capazes de tudo, literalmente tudo para: 1) puxarem o saco da Empresa e do Dono do Plano, um bilhardário filha-da-puta, que está pouco se lixando para o resto da humanidade, para: a) torná-lo cada vez mais rico; b) manterem os respectivos empregos; c) e o paciente que se foda.

O último, que se disse gastroenterologista, ao dar-lhe alta na manhã anterior à sua morte (causada principalmente por uma trombose intestinal), “recomendou” que ela poderia fazer a colonoscopia “uma outra hora”.

Quando? Se na manhã seguinte, ela não passava de pó no Crematório de Vila Alpina?

Oremos. Com fé. MUITA FÉ. Se o problema for com operadoras ou planos de saúde.

Já pra polícia (ou o Corpo de Bombeiros) é só telefonar.

A propósito: eu gostaria de cobrar – sim, cobrar – da Presidente Dilma, de quem fui eleitora e apoiei com entusiasmo a campanha (tomo minhas colunas da época como testemunho!), providências a respeito de tais questões que afetam direta e irrevogavelmente o cidadão comum, mas diante das quais ele se sente impotente! (daí a razão de recorrer à Presidente). Antes que ela se torne de vez Gerente do Brasil e a nossa versão da Lady de Ferro, abrindo mão – duma vez e definitivamente – do seu lado humano. O único que importa. O único que conta.

Sobre o autor

Márcia Denser

Márcia Denser

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos de Márcia Denser.

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10 Comentários

  1. Attila disse:

    Brava! Brava! Brava! (palmas).

    Este desabafo deveria ser publicado na primeira páginas de todos os jornais, periodicos e outros instrumentos de midia, pois representa o sentimento generalizado da maioria dos contribuintes, sugados desta forma em seus rendimentos.

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  2. carlos brickman disse:

    Marcia:

    Beleza de artigo!

    Beijão

    Carlinhos

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  3. Solange disse:

    Finalmente alguém reconhece q a policia e os bombeiros são competentes no que fazem, mesmo passando fome, e gritando ao mundo q são mal pagos.

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  4. fabricio brandão disse:

    Márcia,

    Tudo bem?

    Pensando aqui em seu texto, recentemente, acionei a Anatel para reclamação de um problema com operadora de tv a cabo e a coisa funcionou. A Agência Reguladora fica no pé dos caras e eles, ameçados naturalmente por uma multa ou coisa do gênero, te ligam como doces de pessoas depois, prontinhos para atenderem seu caso. Na reclamação ao órgão, mencione tudo com detalhes, inclusive se há algum malfadado número de protocolo fornecido pela empresa. Saliente também o prejuízo com a interrupção dos serviços.

    Vale a pena registrar isso em todo o âmbito regulatório.

    Esse modelo cliente-cidadão, sobretudo herança das privatizações, é algo curioso mesmo. Temos de ficar de olho.

    Beijos e tudo de bom,

    Fabrício

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  5. tania faillace disse:

    Marcia,

    depois do reconhecimento de que o consumidor existe e é uma pessoa humana, também um contribuinte, um cidadão, um trabalhador, um depositante bancário, um passageiro de transporte urbano, um comprador de porcarias como carros e outros gadgets – a partir da guerra que Ralph Nader moveu contra as grandes corporaç~eos nos EUA, guerra que foi exportada e se universalizou…

    voltamos a cair no limbo.

    O neoliberalismo simplesmente não reconhece os direitos do consumidor. Não só por parte da telefonia, dos produtos com defeito de fábrica, das calçadas esburacadas, dos boeiros que explodem, etc. e tal…

    não reconhece qualquer direito a reles mortais, que não constam nem do Almanaque Gotha, do Who”s Who, e não são agraciados com o título honorífico (e também pago) de gênio das finanças, como um certo rapazinho chamado Eike.

    Voltamos à estaca zero. Precisamos começar tudo de novo. Mas a nova geração não sabe o que acontece, e só tem gás para as amenidades dramáticas da vida (festa e corpo) e a velha geração está caquética.

    Se você lembrar, nos idos dos 50 e 60 – você era criança – “o freguês tinha sempre razão”, a nível de comércio.

    O Código do consumidor, estendeu essa razão aos produtos industriais e aos serviços. Agora recaímos no vazio. O poder público se recusa a informar ao controle social as qualificações de seus técnicos contratados para efetuar estudos ridículos e caríssimos durante anos a fio… um pequeno exemplo.

    Se forjam projetos às escondidas, quando é preciso que o cidadão aja como um detetive para descobrir pistas de onde se trava a próxima maracutaia… Se impõem projetos feitos sem licitação, e a privatização de espaços públicos, sem plebiscito, sem consulta à população…

    Na maior.

    Cabe-nos recomeçar e repetir o que fizemos nos 70 e 80. Sarney e Collor foram o começo do retrocesso. A sociedade acreditou na redemocratização e dormiu no ponto. Perdeu-se a contrapartida da ditadura, que foi a organização da militância em termos de sociedade civil.

    E os homens voltaram devagarzinho, a comer pelas bordas e tomar conta do prato.

    Tania Jamardo Faillace

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  6. carlos rosa moreira disse:

    Muito bom, La Denser, é tudo exatamente como você disse. Principalmente quanto aos adjetivos usados, os caras são aquilo mesmo.
    Carlos Rosa Moreira.

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  7. aurora duarte disse:

    Gostei de ler… e passarei adiante… Aurora Duarte

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  8. Regina Macedo disse:

    Maravilhoso teu texto!!..o que me deixa mais p#%&# da vida é que pagamos,e caro,por estes serviços!,e eles cága& em nossas cabeças!!..Hoje, qdo me acontece isto,além dos mesmos procedimentos,que nao dao em nada,eu escrevo,(reclamo),pelo twitter,(colocando o nome da empresa),geralmente a resposta, e o procedimento, chegam mais rápido!
    Abraço

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  9. Hilton disse:

    Márcia! meus respitoso pêsames pela sua queria mamãe e pelo seu ex-querido-país.
    Já reparou que os preços do minuto celular são gêmeos independente da paternidade? E a telefonia fixa que detem monopólios regionais e fazem vendas casadas (Exemplo Oi x Velox no Esp santo).
    Ja reparou como o estado protege os planos de saude com aumentos e aumentos nas mensalidades e (pasmem) deixando a previdencia social aos cacos (isso é estratégia de favorecimento sim ou ninguém sabia?).
    Já reparou como as regulamentações sempre favorecem os consórcios e nunca o povo?
    Nada contra privatização, aliás, sou a favor de privatizer até banheiro público, porque isso não é função do estado, mas se alguém discorda não reclamem do prço do gas e da gasolina.
    Precisamos abrir os olhos, mas independente do que nos cerca, ORAR COM FÉ É FUNDAMENTAL, porque não oramos para homens nos socorrerem… a nossa fé vem do Senhor por meio daqule que nos amou JEUS CRISTO DE NAZARETH único e absoluto.

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  10. jovino machado disse:

    valeu,linda!

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