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O “tchau, querida” e a chacina de Campinas

O assassinato de 12 pessoas - entre elas, nove mulheres - é desdobramento do movimento fascista que ganhou corpo no Brasil com o apoio de importantes veículos de comunicação, entidades de classe e partidos de oposição à Dilma e ao PT", diz ex-deputado petista

​Em seu blog, Carol Patrocinio disseca a carta do assassino de Campinas. Ela inicia seu texto afirmando que “​f​alar de amor é sempre um desafio”. “Mas falar o que NÃO é amor é simples”.

Sim, é simples e concordo, “​d​ominação não é amor. Poder não é amor. Controle não é amor. Dependência não é amor. Cobrança não é amor. Violência não é amor. Assassinato não é amor”.

Muitos adultos, quando crianças​,​ não foram amad​o​s, porém muit​o​s na vida adulta poderão amar e ser amad​o​s. E muit​o​s que foram amad​o​s se tornam adultos e não sabe​m​ o que é amor. Confundem com possessão: essa mulher, esse filho​ ou​ esse homem é meu. E​,​ se é meu, é meu objeto.

Deputado em votação do impeachment de Dilma, em abril de 2016

Vão entender e agir como se a pessoa amada fosse um objeto de suas satisfações e, por ser objeto​,​ pode ser dominado, controlado, massacrado, violentado e assassinado. Pela formação cultural e pelo processo de educação​,​ o sentimento de possessão é (natural, alguns assim entendem) mais presente no homem​,​ e isso é chamado de machismo. Para o machista​,​ amor é poder, dominação e controle sobre a mulher, que​,​ para ele​,​ é o objeto de suas satisfações. Se o objeto vai lhe fugir das mãos​,​ resta quebr​á​-lo, arrebentá-lo, destruí-lo.

Assim como Carol, também fiquei assombrado quando li a carta do assassino. Nenhuma crítica. A mera transcrição. Tive a impressão​ de​ que o objetivo dos que divulgaram a carta, sem critic​á​-la, apoiava o sucedido. Pior que a divulgação foram alguns comentários que circularam na internet: ódio puro.

A carta do assassino nada mais é que o resultado do que vem sendo construído nos últimos anos pela mídia, principalmente pela Rede Globo, pelas redes sociais e por agentes políticos: veem, assistem e alimentam o ódio.​

​Em 2014, 2015 e 2016​,​ tivemos muitos momentos ​em que se assistiu e se divulgou acriticamente ​​​uma infinidade de  atos, gestos e palavras de ódio e preconceito contra as mulheres, principalmente contra a ​ex-​presidenta Dilma Rousseff, negros e homossexuais. Muitas vezes​,​ não só​ se​ divulgou, ​como ​alimentou o ódio e o preconceito, nos atos de rua a favor do golpe contra Dilma​, por exemplo​.

Nas ruas, praças e estádios, eram cantadas e gritadas palavras de ordem de caráter machista contra Dilma. As televisões, através de seus comentaristas e l​íd​eres políticos de oposição, faziam ouvidos moucos ou quando não felizes comentavam estes fatos sem nenhuma critica. Quando da divulgação do adesivo misógino contra Dilma​,​ para colocar na boca dos tanques de gasolina dos carros, nenhum líder político da oposição, veículo de imprensa condenou, veementemente, a pr​á​tica.

Não sei se ​houve ​símbolo maior, ma​i​s simbólico da construção de ódio e preconceito ​do que​ a sessão da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril de 201​6​. Naquele dia​,​ em nome da família e de Deus​,​ muitos deputados praticaram atos, não só contra a democracia, mas contra as mulheres. A posição mais odiosa contra as mulheres foi a de Jair Bolsonaro.

Suas palavras foram preconceituosas e criminosas. Bolsonaro fez apologia à tortura e, em se tratando de Dilma, sabemos a que tipo de tortura. Tempos depois de fazer a defesa de um torturador e da tortura, por ironia, Bolsonaro foi aceito por uma seita religiosa, que se diz cristã, e, nova ironia, batizado no Rio Jordão.

A carta foi dissecada por Carol Patrocinio, mas faço uma observação: esta chacina não é fruto de uma loucura, mas sim resultado de uma construção machista e fascista. Na carta​,​ o assassino trata todas as mulheres de vadias; das 12 pessoas assassinadas, nove são mulheres. Trata-se de feminic​í​dio.

Gus Lanzeta, comentando o texto de Carol Patrocinio, em poucas palavras​,​ diz que o que est​á​ por trás da chacina misógina de ​C​ampinas​:​ é o “tchau​,​ querida”. Concordo: essa chacina é mais um desdobramento do movimento fascista que ganhou corpo no Brasil com o apoio de importantes veículos de comunicação (TVs, principalmente Globo, Folha de S​.​Paulo, Estadão, Veja, Época, IstoÉ, etc.), entidades de classe e partidos de oposição à Dilma e ao PT.

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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