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O ouro que entregamos

"Não sou comentarista do futuro, nem jogo no time da nostalgia. Mas não preciso ser craque em bola de cristal para saber que nada mudará enquanto acreditarmos que a CBF, escalando o seu velho time de dirigentes, trará de volta o ouro que entregamos na Copa do Brasil"

Escutei de vários brasileiros, ontem e hoje, que estavam felizes porque os alemães foram os campeões da Copa no Brasil. Justificavam que não admitiriam a gozação futebolística argentina, pois os hermanos não respeitavam o nosso penta e a genialidade de Pelé. Em contrapartida, os alemães disseram que amavam o Brasil, interagiram com os nativos e trocaram presentes com os índios. Pouco importa se os alemães tivessem levado o “nosso” ouro, matado a nossa honra futebolística, conquistado o charme de ser o primeiro europeu a ganhar na América, ampliar a hegemonia europeia no futebol, aproximar-se do penta e retirar do brasileiro Ronaldo o título de maior artilheiro das Copas. E o Brasil não reclamou do sonho confiscado.

Lembrei-me, então, do velho período em que fomos colonizados. Cabral e os patrícios aportaram na Bahia, elogiaram a terra em que se plantando tudo dá, interagiram com os nativos e trocaram presentes com os índios. E logo depois, juntos com os demais europeus, levaram nossos ouros, mataram os brasileiros-índios, conquistaram nossas terras, ampliaram seus domínios e retiraram a perspectiva da América do Sul ser um continente próspero e livre. E a América nunca reclamou da riqueza expropriada.

Não estou alegre porque a Alemanha ganhou, ainda que o competente esquadrão de ouro alemão tenha, merecidamente, conquistado o tetra. Tampouco estaria se a Argentina tivesse levado o caneco em pleno Maracanã. Acho até que gozação argentina faz parte da alegria do futebol. Eu estava na terra de Maradona quando o Brasil ganhou de 4 x 1 dos Hermanos e se fez campeão da Copa das Confederações de 2005. Usando minha camisa canarinha, tirei um bom sarro dos amigos argentinos que choravam a derrota acachapante, agravada pela eliminação, na Libertadores, no mesmo dia, do Boca pelo São Paulo. E como vascaíno assumido, também sei como dói a gozação pela minha mania de ser vice. Mas ninguém consegue roubar o meu gostar pelo time da inclusão social.

Na verdade, o que me deixou triste foi a soberba do nosso escrete e a arrogância do seu técnico, incapazes até de passar a bola com um simples gesto de desculpas.  Mas, sobretudo, o que mais incomoda é a completa ausência de perspectiva de mudança na secular cartolagem que controla o futebol brasileiro. Escalam-se novos nomes de dirigentes, sem que o esquema tático seja alterado. A ausência de democracia e a inexistência de transparência na CBF ainda fazem o Brasil jogar na retranca do esporte das paixões. Acho que enquanto vibrarmos com as vitórias alheias, parodiando Dodô & Osmar, os que manipulam e não pulam de alegria com o bom futebol brasileiro continuarão sorrindo e fazendo grandes negócios.

É bem verdade que o futebol sul-americano fora humilhado no Mineiraço e derrotado outra vez no Maracanaço. Queria mesmo ter ouvido da torcida o grito de guerra composto pela Legião Urbana: Quem me dera ao menos uma vez Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem Conseguiu me convencer que era prova de amizade. Não sou comentarista do futuro, nem jogo no time da nostalgia. Mas não preciso ser craque em bola de cristal para saber que nada mudará enquanto acreditarmos que a CBF, escalando o seu velho time de dirigentes, trará de volta o ouro que entregamos na Copa do Brasil.

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Sobre o autor

Cezar Britto

Cezar Britto

Cezar Britto é advogado e escritor, autor de livros jurídicos, romances e crônicas. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e da União dos Advogados da Língua Portuguesa. É membro vitalício do Conselho Federal da OAB e da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

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