Segunda, 20 de Maio de 2013

Colunistas

Memorial do Escândalo

“Dois procuradores-gerais da República, a Polícia Federal, o Banco Central, o governo dos Estados Unidos … Dá pra acreditar em tanta gente assim unida para produzir uma ‘farsa’?”

Aqueles que queiram ter uma compreensão menos apaixonada do que começará a ser julgado hoje à tarde no Supremo Tribunal Federal (STF) deveriam perder algum tempo lendo as 338 páginas do memorial sobre o mensalão feito pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Aos que pretendem se comportar como torcida organizada, talvez o tempo perdido não valha tanto a pena: já têm posição firmada, independentemente de qualquer coisa. O Congresso em Foco publicou a íntegra do memorial ontem (1). Mas ele pode ser lido de novo aqui.

É claro, trata-se de um memorial feito pela acusação. Neste processo, essa é a posição do Ministério Público, que funciona como promotor no julgamento. Assim, o resumo feito por Roberto Gurgel – sim, com 338 páginas, trata-se de resumo; afinal, o processo do mensalão tem 69 mil páginas – tem o objetivo de reforçar os argumentos da acusação. Mesmo com isso em mente, fica impossível concluir, após a leitura, que não tenha ocorrido algo de muito grave sob o nome de mensalão, como ficou conhecido.

Como até andou reforçando o ex-procurador-geral Antônio Fernando de Souza, é sempre importante se ter em mente que “mensalão”, esse apelido dado pelo ex-deputado Roberto Jefferson ao batizar o que houve, não passa de uma figura de retórica. O Ministério Público não acusa os envolvidos de participar de um esquema que pagava “mesada”, remessas mensais de dinheiro a partidos e políticos. O que a acusação diz é que se formou uma organização criminosa com o propósito de trocar apoio político por dinheiro. E, efetivamente, havia dinheiro, depositado em contas dos bancos Rural e BMG, às quais vários parlamentares e dirigentes partidários recorreram em vários momentos.

Iam às agências dos bancos. Saíam com pacotes ou “pastas do tipo 007” cheias de dinheiro vivo. Recorreram às contas quando precisaram delas.

A auditoria contábil nas contas das empresas do empresário mineiro Marcos Valério de Souza, descrita no memorial, impressiona. Marcos Valério é o principal nome daquilo que a acusação chama de “grupo operacional” do esquema. A Procuradoria-Geral da República divide o esquema em três grupos. O “político” – dos dirigentes do PT – queria uma forma de obter o apoio de outros partidos ao seu projeto de poder. Encontrou essa forma no esquema bolado por Marcos Valério, o tal valerioduto, que ele já tinha feito antes para o PSDB de Eduardo Azeredo em Minas Gerais. O dinheiro, diz a acusação, era garantido pelo “grupo financeiro”, os executivos do Rural e do BMG.

Segundo o memorial, a auditoria contábil encontrou “centenas de milhares” – isso mesmo, “centenas de milhares”! – de notas fiscais falsas emitidas pelas empresas de Valério para forjar a história dos empréstimos feitos ao PT e evitar demonstrar uma relação entre tal dinheiro e o que suas empresas ganhavam com os contratos que tinham com o governo.

Outra auditoria não consegue encontrar relação entre valores repassados pela Visanet, fundo de incentivo do Banco do Brasil, para a DNA Propaganda, empresa de Marcos Valério, e eventuais trabalhos publicitários. Ou seja: indício de que o dinheiro era para abastecer o esquema.

Há bem mais. Simone Vasconcelos, que era gerente financeira de uma das empresas de Marcos Valério, narra em um depoimento que chegou a pedir certa vez um carro-forte para transportar R$ 650 mil (R$ 650 mil!) até um prédio no qual entregaria o dinheiro a pessoas do PL (hoje PR).

E por aí a coisa vai. Enfim, é difícil, após a leitura, considerar que não houve nada. Que tudo não passou de uma invenção. Até porque a “invenção”, forjada por Roberto Jefferson, teria que ser corroborada por dois procuradores-gerais da República que foram escolhidos por Lula, o ex-presidente da República que comanda o PT, principal partido acusado. E o memorial envolve ainda documentos produzidos pela Polícia Federal, pelo Banco Central, pela Controladoria Geral da União, pelo governo dos Estados Unidos … Dá pra acreditar em tenta gente assim envolvida na “farsa”?

Sobre o autor

Rudolfo Lago

Rudolfo Lago

* É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultou na cassação do senador Luiz Estevão.

Outros textos de Rudolfo Lago.

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9 Comentários

  1. Francisco de Assis Santiago disse:

    A podridão é grande, mas a esperança ainda é o Supremo, mas se fossem pobres ja estavam condenados a tempo, essa bandidagem é a vergonha da nação, mas será que os familiares mesmo tendo indiretamente usufruido da robalheira, não estão ao menos com um pouco de vergonha, depois vai ser o Lula e o Lulinha

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    • José Carlos disse:

      Um supremo tribunal onde seus ministros são escolhidos pelo chefe do executivo não caracteriza independencia de poderes e sim, subserviencia de poderes. Não acredito nem um pouco no supremo e com certeza teremos uma grande farsa.

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  2. A C Cohen disse:

    Em varias ocasiões o STF tem tomado posição nada jurídica, e sim politica e econômica. São vários os casos dentre eles: a) das poupanças beneficiando os bancos ?!?!; b) o caso da família Sarney no caso que considerou prova indevida no processo de Roseana, e foi da mesma forma que o mensalão; c) e muitos outros….
    Estou com Ministra Corregedora do CNJ que existe Juiz/Desembargadores/Ministros etc.. com desvio de função em todos os níveis. Basta por lógica analisar em que só Poder Judiciário na Republica é que julga e condena, logo, se há impunidade é porque este “poder” não funciona, e qual o motivo ? Será politico ou será econômico ?
    Podem estar certos que só teremos um país justo nas conquistas sociais e econômicas, quando o Poder Judiciário como um todo for justo nas suas decisões, porque trata-se de órgão moderador mais importante na Republica.

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  3. Frido Fela disse:

    Meu amigo Chico,vergonha isso não existe em politicos e familiares dos mesmos,pois é a nata da escorea selecinada pelo povo,esse é o Brasil pós ditadura.Alias a democracia esta sendo enterada de pé só felta os olhos feicharem

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  4. antonio josé alves da silva disse:

    Será que alguém ainda tem alguma dúvida que os familiares dessa corja de bandidos não sabiam que os recursos com o qual eles se ufanavam não seriam ilegais? É claro que sabiam…como exemplo, será que alguém ainda duvida que os familiares dos traficantes de tóxicos não sabem de onde veem tanto dinheiro? É claro que sabem, portanto, qual a diferença? Os que roubam os recursos públicos, são mais facínoras do que os traficantes, pois os prejudicados com seus crimes são em maior número e mais necessitados, visto que os usam os tóxicos, em sua maioria são de classe média pra cima…

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  5. Francisco José Evandro de Melo disse:

    Até o sr seu Rodolfo Lago ja esta julgando e condenando as pessoas sem prova? O congresso em foco participa dessa condenação? Se participa este espaço esta sendo anti-democrático. Se o sr e o congresso em foco tem alguma prova que vá até ao STF e apresente para o bem da justiça. Falo assim porque voces ja condenaram aa todos do mensalão, que até hoje não se provou!

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  6. Francisco José Evandro de Melo disse:

    Haaaaaaaa! ta explicado foi editor daquele “detrito de maré baixa”!

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  7. Luís Carlos Secco disse:

    Mais um belo artigo, que nos ajuda a esclarecer aspectos importantes desse documento histórico.
    Temo, pelos interesses imensos envolvidos, que encontrem uma forma de amenizar os danos causados pelo mensalão.
    Vamos esperar, porque todo o País está de olho em cada um dos participantes.

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  8. Hilton disse:

    O Judiciário esta com a corda no pescoço, o povo vai empurrar o banquinho desta vez.
    Se inocentarem os cabeças da organização criminosa estarão sendo coniventes com a criminalidade e não terão moral nenhuma para jugar nem briga de cachorros. Se derem penas simbólicas e ninguém for preso (exemplarmente) vão dizer com todas as letras que o crime compensa porque não ha justiça. Se forem os algozes dos seus padrinhos ficarão sugeitos a romperem com todo o sistema político que sustenta o status quo dos partidos e dos donos dos mesmos.
    A sociedade será o juiz de todos. NÃO VOTEM EM NENHUM POLÍTICO LIGADO AO PT/PMDB/PR ou nos que a estes se ajuntarem.

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