Quinta, 23 de Março de 2017

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Igualdade de gênero em favor da retomada do crescimento

“Ao excluir ou reduzir o acesso de metade da população brasileira à participação na economia, deixamos de aproveitar metade do talento humano disponível. Perdemos em ideias inovadoras, em empreendedorismo, em competitividade, e produtividade”

O IBGE publicou, nessa terça-feira (7), os dados do PIB brasileiro de 2016. Não apenas o país deixou de crescer mas também a capacidade de produzir e gerar renda diminuiu 3,6%. É o segundo ano consecutivo de queda – entre 2015 e 2016 a queda acumulada chega a 7,3%, e se reflete em menor capacidade de produzir e gerar emprego e renda, redução de arrecadação e dificuldade de investimento.

No debate acerca de qual o “modelo” de reformas necessário para sairmos da crise, porém, o Brasil está ignorando um elemento que pode dar à nossa economia o diferencial necessário e que devemos lembrar nesse Dia Internacional da Mulher: a paridade de gênero.

Claro que o principal motivo para promover a igualdade entre homens e mulheres em nossa sociedade é o valor humano da justiça: elas são metade da população mundial e obviamente merecem igualdade de acesso à saúde, à educação, à participação na economia, a um potencial de obtenção de renda e ao poder de decisão política. No entanto, é pertinente notar que a paridade de gênero é igualmente fundamental para a prosperidade das sociedades.

Há uma forte correlação entre o Índice de Gap (Lacuna) de Gênero do Fórum Econômico Mundial e o Índice de Capital Humano, em países do mundo inteiro. O Brasil encontra-se em 79º lugar no ranking de Gap de Gênero das Nações Unidas, com um índice de 0,687 (índice com variação de 0 a 1, onde 1 é igualdade perfeita, e 0, desigualdade total entre homens e mulheres). O Gap de Gênero compara o acesso de mulheres e homens a quatro aspectos – educação, saúde, economia e política.

Não à toa, com um gap expressivo de gênero, o Brasil é lanterna no ranking de capital humano: 83º lugar entre 130 países – abaixo, até, da média da América Latina. E isso impacta negativamente sobre o nosso crescimento econômico potencial.

Segundo o World Development Report 2012, atualmente as mulheres representam mais de 40% da força de trabalho global, 43% da força de trabalho na agricultura e mais da metade dos estudantes universitários. Mas, segundo nosso índice, mulheres brasileiras tem pouco acesso à economia (empregos, renda, oportunidades de crescimento na carreira) e à política (parlamento, ministérios, presidência). Isto é, o investimento nas meninas em termos de educação e saúde não se transforma em aumentos de produtividade da força de trabalho feminina. Uma maior abertura para as mulheres permitiria o crescimento da economia via aumento de produtividade.

Ao excluir ou reduzir o acesso de metade da população brasileira à participação na economia, estamos deixando de aproveitar metade do talento humano disponível. Perdemos em ideias inovadoras, em empreendedorismo, em competitividade, e produtividade – e com enorme impacto no crescimento econômico e na capacidade de geração de renda e riqueza do país.

Estimativas recentes sugerem que elevar a paridade econômica de gênero poderia acrescentar US$ 240 bilhões ao PIB do Reino Unido, US$ 1,2 trilhão ao dos Estados Unidos, US$ 526 bilhões ao Japão, US$ 285 bilhões ao PIB da Alemanha e a, impressionantes, US$ 2,5 trilhões ao PIB da China, até 2020.  América do Norte e Oceania poderiam ganhar US $ 3,1 trilhões adicionais no mesmo período se fechassem suas brechas de gênero.  No Brasil, não há sequer estimativa desse impacto.

Essa participação feminina precisa ser, urgentemente, incentivada, pois independentemente de qualquer outra abordagem que se possa dar à questão da igualdade de gênero, não há argumento mais contundente do que o potencial econômico que estamos desperdiçando ao deixar de valorizar a participação da mulher seja na política, seja na economia. O País estaria se posicionando como economia forte e dinâmica, em franco crescimento, se investisse mais no reconhecimento da importância das políticas públicas para a promoção da igualdade de gênero e para o empoderamento das mulheres, principalmente, na economia. Esse poder é evidenciado quando o analisamos em números que, de frios não possuem nada.

É hora de agir ativamente para reduzir a desigualdade de gênero e dar às mulheres o lugar que sempre deveria ser seu, de grandes potencializadoras do verdadeiro desenvolvimento sustentável.

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Sobre o autor

Chico Leite

Chico Leite

Chico Leite é procurador de Justiça (licenciado), professor de Direito e atualmente exerce o quarto mandato de deputado distrital. É líder da Rede Sustentabilidade no Distrito Federal

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