Quarta, 16 de Maio de 2012

Colunistas

Férias no cabo

“O catastrofismo é tanto, não só na ficção como no documentário, que os americanos devem achar uma merda este mundo no qual eles mandam”

Férias na tevê a cabo virou show de horror para débeis metais. Literalmente. Só tem filme de humor ou terror adolescente de quinta categoria e todos os harrys porters possíveis, reprisados pela 125ª vez. E com destaque!!!!Como se fosse um privilégio INIMAGINÁVEL o idiota do assinante poder assistir este lixo again and again and again. Ad nauseummmmmmmm.

Será que acabaram os adultos do planeta? Ora habitado única e exclusivamente por débeis mentais de 8 a 80 anos? É isso que imaginam (ou têm absoluta certeza) os magnatas das telecomunicações & associados provedores da América Latina via Satélite?

E tome “american way of life” – que nunca foi nem será nosso estilo – por todos os motivos óbvios, salvo para os ricos, idiotas e débeis mentais ou só os muito ricos, os muito idiotas e respectivos filhotes muitíssimo débeis mentais. Dentro destas categorias – ricos, idiotas e débeis mentais – eles são legião, ergo, suas combinações serem infinitas.

Aí acrescente-se a sessão da tarde que só joga basebol, hóquei no gelo, golfe, futebol americano – e todo o folclore em torno desses esportes alienígenas para nós, brasileiros (salvo ricos, idiotas e débeis mentais, é claro). Ah, sim, e as “team-leaders”, of course, esta uma categoria à parte, muito em moda entre nossas adolescentes ricas ou idiotas ou débeis mentais, ou os três.

E tudo por quê? Porque os americanos magnatas das telecomunicações resolveram, quanto às suas targets para o cone sul, “que não existem adultos na América Latina”. Não existem seres racionais abaixo da linha do Equador? Que humor/terror adolescente com efeitos especiais são a NOSSA PRAIA! Que hóquei no gelo, golfe, basebol e futebol americano – também com efeitos especiais, folclore específico, sem contar as “team-leaders” – são A PROGRAMAÇÃO IDEAL DE FÉRIAS para as crianças, adolescentes, jovens, pais, tios, primos, avós brasileiros/peruanos/argentinos/chilenos/ venezuelanos/bolivianos/equatorianos, e por aí vai”.

Bom. Pode ser a PRAIA DELES (unanimemente ricos, idiotas e débeis mentais), a nossa é que não é.

Quer dizer, de toda essa “gentinha, essas trezentas e tantas milhões de criaturas, este Third World sem remédio nem conserto, aliás, onde já se viu NASCER já falando português ou espanhol? A incivilização vem do berço (que berço? Essa gente nem sabe o que é isso! God damn it!). Nem parecem pertencer ao mesmo continente – a América – não têm nem estatura nem cabeça para incorporar nosso estilo. Sem contar a cor da pele, resultado desta horrenda miscigenação! Verdadeiro Third Horror! A cura pra isso? Extermínio em massa, of course. E estamos conversados.

Voltando à tevê e deixando o extermínio de lado: se salvam os desenhos animados, aliás ótimos, tipo A Era do Gelo 3 – cujo diretor é um brasileiro – Madagascar, Shrek 1,2,3,4, etc. Mas, de qualquer forma, prevalece o conteúdo alienado – avatares, magia, terror, efeitos especiais, ficção científica, fantasias calhordas, fadas, bruxos, castelos “encantados” com regras dos colégios ingleses, vida depois da morte, paranormalidade, espiritismo, vampirismo, monstrismo,  satanismo, angelismo – QUALQUER COISA, desde que se fuja completamente da realidade.

Hollywood só existe a anos luz da realidade: ou existe no passado (inglês ou norte-americano, entenda-se, “uma vez que não existem outros”, tipo O Patriota, A Outra, A Duquesa, A Rainha) ou no futuro (Avatar, 2012, O dia depois de amanhã, Extinção) ou no fantástico (Harry Porter, A Saga do Anel, As Crônicas de Nárnia).

E quando falam do aqui-agora, dá-lhe hóquei no gelo ou basebol ou futebol americano ou golfe ou humor e sexo grosseiro e aborrecente do Alabama ou Ohio ou Massachussets ou Kansas ou Colorado ou Texas ou LA ou NYC. É foda.

Romance “clássico”? Experimente Amor sem escalas com George Clooney cuja festejada ocupação é demitir numa boa, “sem escalas”, pessoas de norte a sul do país. De abaixar o pau até do capeta.

Pintando em todos há décadas: soltar gazes e vomitar. Dum realismo nauseante.

O catastrofismo é tanto, vide Discovery e National Geografic, não só na ficção como no documentário, que os americanos devem achar uma merda este mundo no qual eles mandam.

Divirtam-se!

 

Sobre o autor

Márcia Denser

Márcia Denser

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos de Márcia Denser.

10 Comentários

  1. Jeferson disse:

    Pois é, Márcia: neste nosso sub-neoliberalismo, a indústria cultural vira indústria do curral, que nos perdoem as vacas…
    Ou, não?

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  2. Isadora disse:

    Eu gostaria mais do texto se você não usasse tanto (ou nenhuma vez) a palavra débil mental e se você não tivesse incluído crenças reais, como o espiritismo e a vida após a morte na lista de “conteúdo alienado”.

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  3. marcia denser disse:

    felipe aguiar,
    Sobre o novo visual, eu continuo achando: 1) que a foto do colunista DEVE ficar no alto da coluna, 2) na primeira página, os NOMES dos colunistas, ao lado da foto dos respectivos, precisam ter uma tipologia maior, letras mais grossas: tem gente que não consegue ler! 3)Os comentários DEVERiAM ser publicados logo abaixo do texto da coluna e os Post Recionados a seguir, isto é, inverter a ordem; 4) Não é pedir muito, meu querido,
    beijos desta la denser

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  4. Nino Dovanni disse:

    Cara Marcia Denser, A long long time a go, achei que o que era bom para os EUA deixaria de ser bom para o Brasil, infelizmente, conforme o príncipio de Pareto, a mídia continua atendendo aos 20% que voce citou em sua coluna, e por conseguinte despejando a mediocridáride produzida para a sociedade alienada americana aos 75% dos incautos e crédulos brasileiros, entretanto os demais 5% que pensam como voce e eu vociferam entre moucos, loucos e subdesenvolvidos…

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  5. tania faillace disse:

    Suponho que as férias forçadas em casa estejam na origem do desabafo abaixo. Que mais você poderia querer da TV a cabo?
    O melhor é mesmo recorrer ao National Geography, ou se restringir ao You Tube e filmes baixáveis pela Internet.
    E não fale mal dos débeis mentais, ou você será processada por preconceito através dos conceitos do “politicamente correto”.
    A infantilização das mentes faz parte daquilo mesmo que você já abordou em suas crônicas: a estratégia de redução das mentes.
    Inteligência e informação correta são perigosas para o Poder. E ainda mais dentro de uma Geopolítica que pretende seduzir as pessoas pelo libertarian neoliberalism e acabar com a oposição mesmo de consciência.
    Quem sabe você manda alguém lhe comprar algum dos alentados volumes da Ayn Rand, que o Instituto Millenium está publicando, e depois me conta?
    Ayn Rand é um dos gurus deles, junto com o Ludwig von Mises e o Milton Friedman. Não é brincadeira, bobagem ou incompetência: é muito maquiavelismo, isso sim, assim como o boato de que peido de gado provoca aquecimento terrestre.
    É… e tem gente que acredita!

    Abrs e melhoras

    Tania Jamardo Faillace

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  6. marcia denser disse:

    Ah, Tania, estou superdentro das sandices publicadas pela Ayn Rand há muitos anos, mas achei importante vc alertar quanto “a autora e ideóloga dos ricos” que o Instituto Millenium anda duplicando. Já Milton Friedman, que o diabo o tenha, e este Ludwig (e pro Ayek não vai nada?) já foram devidamente reportados em minhas colunas, é preciso um estômago forte pra falar dessas criaturas, beijos

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  7. dalila teles veras disse:

    Esta é a Márcia que leio e admiro há tanto tempo: irada, nua e crua, descarnada, inteligentemente debochada e agudamente lúcida, tão aguda e tão lúcida que chega a doer o estômago. Seus textos são armas certeiramente apontadas em direção à mesmice, à idiotice, à infantilização da sociedade de consumo. Este texto, em especial, merece toda a honra e glória.
    dalila teles veras

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  8. luis roberto guedes disse:

    Dear Marcia,

    “infantilizar” o freguês é uma ESTRATÉGIA definida, operante.

    Há dias, me ligou uma mocinha do Bradesco pra me oferecer cartão de crédito AMERICAN EXPRESS.

    Deixei que falasse. Ela ficou lá engrolando um texto com “vantagens”, atropelando as palavras, puro decoreba. Aí ela disse:

    “Com “ele” (“ele” é o cartão) o senhor pode estar tendo desconto no cinema, na pipoca e no refrigerante”.

    Eu soltei uma risada, ela quis saber por que eu tinha rido.

    Expliquei que só idiotas vão ao cinema pra comer pipoca.

    Beijico,
    LRG

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  9. juliosaraiva disse:

    contunuas cpm um puta texto, parabéns

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  10. Afonso disse:

    O pior é que em cinemas (no interior do Estado) não é diferente – somente os últimos (idiotas) lançamentos… para um público ‘eternamente’ infantil…

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