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Feras e gladiadores – o dia em que o Atletiba enfrentou a TV Globo

No momento em que tomei conhecimento de que o jogo Atlético x Coritiba (Atletiba) de domingo passado (19 de fevereiro) não se realizou, lembrei-me imediatamente do Wilson Simonal. Não porque ele torcesse por um desses dois times, mas sim porque por meio dele conheci a música “Aqui é o país do futebol”.

Junto à imagem dele me veio uma leve lembrança da letra e da música: “Brasil está vazio na tarde de domingo, né? Olha o sambão, aqui é o país do futebol”…

Talvez não só pelo clássico da capital paranaense, mas também pela tarde quente e de céu de poucas nuvens, muitos dos torcedores, de ambos os times, estavam na praia, portanto Curitiba estava vazia nesta tarde de domingo.

“Aqui é o país do futebol” ficou conhecida na voz de Wilson Simonal e Elis Regina. Foi composta por Milton Nascimento e Fernando Brant para o filme “Tostão: a Fera de Ouro”, lançado em 1970, quando o futebol tinha ainda muito o jogar com garra e por amor à camisa, e os times eram clubes e não empresas. Ou seja, dá para dizer que o futebol era mais puro.

Os dirigentes eram mais diligentes (ativos, aplicados, zelosos, cuidadosos) em relação ao (clube) coletivo que ao mercado. Hoje, quando não, alguns dirigentes são mercenários. Hoje, inclusive, não sei como devem ser tratadas as equipes de futebol, se por clubes ou por empresas. Tudo é vendido, dos espaços nos estádios, que agora se chamam arenas, aos espaços dos corpos dos jogadores, quando não os próprios jogadores se vendem a alguns empresários.

Curitiba estava vazia nesta tarde de domingo (19): milhares foram para a praia e milhares de pessoas, ao estádio, muitos agora chamados de arena.

Reprodução

Colunista reclama de “monopólio” de transmissão no futebol: “Ditadura da TV Globo já dura décadas”

Os torcedores esperavam o primeiro clássico entre as duas principais equipes (me desculpem os paranistas) de futebol da capital paranaense.

Outros milhares esperavam a transmissão pela internet. Como sempre se esperava que mais um Atletiba – agora transmitido pela internet – entraria para a história. E entrou, não pela glória do bom futebol e da paz no campo e entre as torcidas, mas pela vergonha. Não houve futebol, não houve jogo e, fora da arena, houve violência.

Foram muitos os fatos, porém registro dois, não por ordem de prioridade ou de importância, mas sim pelo significado: torcedores do Atlético e do Coritiba se juntaram nas arquibancadas e, juntos, xingaram a Federação Paranaense de Futebol (FPF) e a TV Globo; de mãos dadas os jogadores das duas equipes entraram em campo.

Esses dois fatos contrariam o significado da razão inicial da criação das arenas. A palavra arena, que vem do latim (h)arena, significa “areia”. A palavra arena tem vários significados, e um deles é a “parte central dos anfiteatros romanos, coberta de areia, onde se realizavam combates entre gladiadores e feras” (Houaiss). No caso atual, dentro da arena, os “gladiadores e as feras” se deram as mãos.

Os gritos contra a Globo e a FPF foram um protesto contra a ditadura imposta pelos dirigentes das federações, inclusive a CBF, e a Rede Globo. Há um monopólio, o da Globo, que dita os dias e os horários dos jogos. A TV Globo compra o direito de transmissão, não transmite e não deixa ninguém transmitir – nem pelo YouTube, como era a vontade dos dirigentes do Atlético e do Coritiba.

A Rede Globo construiu, assim como em 1964, o golpe de Estado de 2016 e, junto, a maior recessão da história recente do nosso país. Recessão essa que, entre tantas mazelas, tirou suas concorrentes, como a TV Bandeirantes, das transmissões de jogos. Agora, ela oferece o quanto quer e, se não aceitar, com o apoio das federações, não permite sequer a transmissão pela internet.

Essa ditadura da TV Globo já dura décadas. Este 19 de fevereiro entrou para a história: dentro da arena não houve futebol e os “gladiadores e as feras” se deram as mãos. Fora, as torcidas continuaram a se digladiar. E um sargento da Policia Militar atirou e matou um torcedor, adolescente. Tiro fatal, no peito. E, como sempre, “sem querer”.

“Sem querer”, a Globo e a FPF impedem o jogo. Vai que a transmissão pelo YouTube desse certo! Seria o adeus da (Globo) fera nas transmissões do futebol?

No final, um corpo ficou estendido no chão nessa tarde vazia de domingo.

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Sobre o autor

Dr. Rosinha

Dr. Rosinha

* Médico, com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, destacou-se como líder sindical antes de se eleger vereador, deputado estadual e deputado federal. Também foi presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Exerce o quarto mandato na Câmara dos Deputados, pelo PT do Paraná.

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