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Então, fica combinado assim – noções de realidade à brasileira

“Todo mundo diz que fica indignado mas fura fila, consegue emprego pro sobrinho por baixo dos panos, molha a mão do guarda de trânsito e... segue o baile”

Eu digo que o Lula é inocente e o Aécio é corrupto. Que tudo não passa de um complô contra o maior líder popular do Brasil e tal, tal, tal. Aquelas coisas.

Aí eu digo o contrário. Pronto.

Ok. E de cá eu digo que o Aécio é corrupto e o Lula é um santo que só ajudou os pobres. Desço o sarrafo no Aécio, falo naquela gravação em que ele pede dois milhões praquele ricão que fala tudo errado, aquele que tem nome de cantora de banda brega, como é mesmo? Isso: Joesley.

Perfeito. Aí quando eu disser que o Lula é corrupto tu vai lá e diz que o Cunha, o Henrique e o Pedro Correia estão presos mas o Lula está solto. Prova de que o Lula é um santo homem.

Exatamente. Mas aí eu digo que o Lula só não está em cana porque o Moro foi porreta com ele. Tu não deixa nem eu terminar e diz que a mídia está assim – tu junta os dois indicadores – tá assim com o Moro e o Ministério Público para destruir o maior projeto de inserção social e distribuição de renda do país e aquela coisa toda.

Bacana. Agora, quando eu defender o Lula e os governos do PT e falar que o Temer alargou o desemprego, empurrou a aposentadoria da gente pro Dia de São Nunca de tarde, tu reage. E diz, com cara de irônico, que nunca antes na história deste país se mentiu tanto, e coisa e lousa.

Legal. Mas, eu vou dizer que a Dilma não tinha xongas de gerentona (é sempre bom lembrar que ela faliu uma lojinha de 1,99, essa história pega bem pra caramba). Que ela arruinou o país. Não esquece de me apartear gritando que isso tudo é culpa da Rede Golpe, do Moro, desse Fachin, dos tucanos, dessa gente.

Perfeito. Não esquece de dizer que esse Moro é um agente dos americanos, infiltrado para impedir a volta dos governos populares e tudo o mais. E que a Polícia Federal tá vendida aos gringos.

 

 

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Colunista ironiza situação do país: “O povo é apenas um detalhe, como dizia a Zélia, aquela ministra do Collor”

 

Bem. Aí, pra rebater, eu digo que essa história do Moro ser agente infiltrado é um delírio das esquerdas, que a queda do avião daquele ministro – como era mesmo o nome dele? Isso, Zavaski, a queda daquele avião, sei não mas ali, sim, ali tem… Aí eu faço aquele jeitão de quem sabe mais do que está dizendo, e tal, deixa comigo.

Pois é. Aí eu digo que a prova de que a Dilma foi vítima de um golpe é que o Eduardo Cunha, que aceitou o pedido de abertura de processo contra ela, está em cana. E que não tarda e a zoiúda vai estar fazendo companhia a ele. Falar mal da zoiúda é bom, o mulherio gosta. E enquanto isso – vou dizer com muita ênfase – Dilma está é muito bem, obrigado!

Mas como bem obrigado, se bloquearam os bens dela por causa da venda da usina de Pasadena? É a prova de que aí é que tem. Ah, tem…

Nesse ponto eu faço um ar de indignação e parto pra cima, dizendo que o Aécio transformou o Congresso em pó e agora respira aliviado.

Ah, mas aí eu viro uma arara e rebato gritando que não aceito ironias com essa história de pó e coisa. Que Aécio é neto do grande Tancredo Neves, um dos maiores líderes do país e mais isto e mais aquilo…

Mas traiu a memória do avô!, vou gritar daqui.

Então, é isso. Acho que tá bom, né?

Tá, sim. Qualquer coisa a gente se telefona e acerta algum detalhe que tenha faltado. E a votação do Temer?

Ah, isso já tá resolvido.

Combinado. Mas fiquei aqui pensando: e o povo? O que a gente vai dizer ao povo?

Que povo? O povo não tá nem aí, cara. Fica frio. Todo mundo diz que fica indignado mas fura fila, consegue emprego pro sobrinho por baixo dos panos, molha a mão do guarda de trânsito e… segue o baile.

E segue o baile! Isso mesmo, tinha esquecido: o povo é apenas um detalhe, como dizia a Zélia, aquela ministra do Collor.

 

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Sobre o autor

Paulo José Cunha

Paulo José Cunha

* Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor.

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