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Educação básica

Dia desses, lendo um jornal norte-americano, deparei-me com um singular título: “A habilidade mais importante para os trabalhadores de classe média não está sendo ensinada nas escolas”. Fiquei curioso: a que se referiria a matéria?

Transcrevo, a seguir, seu primeiro parágrafo: “Os estudantes norte-americanos são julgados por seu desempenho em matemática, leitura e ciências. O mercado de trabalho, porém, está cada vez mais premiando de forma especial os profissionais sociáveis. Assim, as escolas que focam unicamente nas habilidades cognitivas, negligenciando as sociais, podem estar deixando de considerar um componente essencial para o sucesso no mercado de trabalho”.

Vamos a alguns números: entre 1980 e 2012, a proporção de empregos que exigem conhecimentos teóricos aumentou 5% e a oferta de funções meramente repetitivas caiu 10% – em contraste com a quantidade de empregos que demandam sociabilidade, que subiu 15%.

Atento a este fenômeno, um instituto de pesquisas norte-americano constatou que pessoas atualmente com 60 anos de idade teriam apenas 0,5% a mais de chances de obter emprego se forem sociáveis. Enquanto isso, para as que contam 30 anos, as perspectivas são 2,6% melhores. Para a próxima geração, que começa a chegar em um mercado a cada dia mais focado na prestação de serviços, este número deve subir substancialmente. Ou, invertendo-se a frase, neste novo milênio serão cada vez piores as perspectivas daquelas pessoas pouco sociáveis.

Fiquei a meditar sobre as escolas brasileiras, nas quais 68% dos professores – dentre mais de 500 pesquisados nas redes pública e privada – dizem ter sérias dificuldades de vínculo com seus alunos.

Seja símbolo desta triste realidade o professor baiano que, já no dia de sua primeira aula em uma escola particular de Salvador, foi atingido por um azulejo arremessado por um aluno da Terceira Série – perdeu bastante sangue e quase ficou cego. Em São Paulo, eis um não menos chocante retrato da realidade, pelas palavras de outro professor: “Em minha escola há toque de recolher”.

Finalizo com uma pesquisa da OCDE que coloca o Brasil como “campeão” mundial de violência contra professores – uma vergonha para nossa bandeira, na qual lê-se “Ordem e Progresso”. Temo que em breve seja nossa nova divisa “Desordem e Retrocesso”.

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Sobre o autor

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

* Pedro Valls Feu Rosa, desembargador desde 1994, foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no biênio 2012/2013.

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