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Brasília de A a Z: o que dizem o J e o K

Do "J", do jeitinho, do João-de-barro e dos ratinhos Juscelinomys candango, ao "K", do delicioso Kibeirute, prato dos mais famosos da capital, Nicolas Behr desvenda a capital brasileira pelas inciais do fundador da cidade

Jeitinho Apesar de toda racional e lógica, Brasília, obviamente, não escapou (nem tinha como) do jeitinho brasileiro, esse modo de agir informal, culturalmente aceito. Mesmo com toda a rigidez, as normas, as regras, o tombamento, a setorização, o jeitinho aparece nos puxadinhos, no sétimo andar de alguns blocos, disfarçados de coberturas. Burlando o paisagismo oficial, se veem muito, nas entrequadras e na Esplanada, pés de mangueiras, jaqueiras, abacateiros e outras frutíferas, plantadas principalmente pelos vigias e porteiros. Deram um jeitinho também nos endereços de algumas quadras comerciais, transformando-as em ruas, sendo a primeira e mais célebre a da Igrejinha. Aí vieram a Rua das Farmácias, das Elétricas, das Noivas e dos Restaurantes… Temos uma relação de amor e ódio com o jeitinho, condenando-o quando conveniente e usando-o, descaradamente, quando nos beneficia. Na verdade, o jeitinho brasileiro tem um lado positivo: ajuda a abrasileirar Brasília.

João Cabral Um dos poetas mais precisos e preciosos da nossa literatura, João Cabral de Melo Neto escreveu vários poemas para Brasília, onde viveu entre 1961 e 1962. À Brasília de Oscar Niemeyer “Eis casas-grandes de engenho, / horizontais, escancaradas, onde se existe em extensão / e a alma todoaberta se espraia. // Não se sabe é se o arquiteto as quis símbolos ou ginástica: / símbolos do que chamou Vinícius / “imensos limites da pátria” // ou ginástica, pra ensinar / quem for viver naquelas salas / um deixar-se, um deixar viver / de alma arejada, não fanática”.

João-de-barro Para chegar à origem do nome da cidade de Sobradinho, temos que voar para o ninho desse passarinho tão comum na nossa região. Diz a tradição que na frente da sede de uma fazenda, perto da atual cidade, havia um antigo cruzeiro de madeira e lá um casal de joões-de-barro (trabalham sempre em dupla, um amor) construiu uma casa, e sobre esta, uma outra, formando um sobrado, ou melhor, um sobradinho. Gostoso é ficar imaginando como esse nome atravessou os séculos, chegando até 1960, quando foi fundada a cidade de Sobradinho. Deve ter passado de boca em boca. “Por onde vosmecê vai? Vou ali pelo sobradinho do cruzeiro, ver se chego ainda hoje em Santa Luzia” ou “Tem visto o dono da fazenda Sobradinho? Finado Juca? Não. Depois que o Juca morreu nunca mais vi ele, sô”. Delícia de história.

Joaquim Cardozo Toda vez que você ler o nome Oscar Niemeyer imagine que ao lado está escrito: Joaquim Cardozo. Toda vez que o nome do arquiteto for pronunciado, fale baixinho: Joaquim Cardozo. Se não existissem os cálculos de Joaquim Cardozo não haveria as curvas de Niemeyer. Adeus Catedral. Nada de duas cúpulas no Congresso Nacional. Nunca as colunas do Alvorada. Joaquim Cardozo foi poeta.

Juscelinomys candango Era uma vez uma família de oito ratinhos, que vivia tranquilamente onde hoje está o zoológico de Brasília. Eram roedores bem diferentes, únicos, pois ainda não haviam sido descritos pela ciência. Receberam o nome de Juscelinomys candango, literalmente o “rato de JK”, pois mys é rato em grego. JK, com certeza, não gostou da “homenagem”. Nem os ratinhos, pois foram todos capturados e mortos, sendo suas peles enviadas para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Nossa história não tem um final feliz. É que nunca mais se encontrou outra família dos tais ratinhos diferentes, de cor castanho -alaranjado, listrinhas pretas e uma cauda curta e peluda. Sua descoberta representou sua extinção. Fim.

Vai um Kibeirute aí? Iguaria é o carro-chefe de um dos bares mais tradicionais da capital

K As superquadras iniciais de Brasília tinham 11 blocos para que os edifícios finais fossem sempre J e K.

 

Kibeirute Ou peça um Kiberovo. Um é quibe com queijo e outro quibe com um ovo estrelado em cima. Beirute, ah, Beirute… Só a pronúncia do nome já acende no brasiliense uma fogueira de significados: boemia, gente, descontração, comida árabe, alegria, encontro. É o nosso mítico-bar, na 109 Sul, onde, no início dos anos 80, vi Lula, barbudo, bebendo cerveja. Onde vendi muitos livros de poesia de mão em mão. Lá tomei vários porres de vodca com soda. Naqueles tempos tudo desaguava no Beirute. Tinha show na cidade? Depois todo mundo ia pro Beirute! E de lá partíamos para outros lugares, outras festas. Beirute é patrimônio material e imaterial. E olha que maravilha: o garçom Cícero Rodrigues dos Santos é cidadão honorário de Brasília e foi estrategicamente transferido para o novo Beirute da Asa Norte. O bonde do desejo, o ônibus do amor, a caravana da paixão… todos passam pelo Beirute.

Outros verbetes de BRASÍLIA-Z – Cidade-palavra, de Nicolas Behr:

Brasília de A a Z: o que diz o A

Brasília de A a Z: o que diz o B

Brasília de A a Z: o que diz o C

Brasília de A a Z: o que diz o D

Brasília de A a Z: o que diz o E

Brasília de A a Z: o que diz o F

Brasília de A a Z: o que dizem o G e o H

Brasília de A a Z: o que diz o I


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Sobre o autor

Nicolas Behr

Nicolas Behr

* Nicolas Behr é poeta e dono da Pau-Brasilia viveiro eco.loja. Nasceu em Cuiabá em 1958, e vive em Brasilia desde 1974. Três anos depois, publicou seu primeiro livro mimeografado e nao parou mais. Foi redator publicitário. Fundou e trabalhou em ONGs ambientalistas. Casado, três filhos. Adora Brasília. Site: www.nicolasbehr.com.br.

Outros textos de Nicolas Behr.

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