Colunistas

Brasília de A a Z: o que diz o C

"Antes do fechamento da barragem do Paranoá, diziam que o lago nunca se formaria. Ou não havia água suficiente para tanto ou o terreno era poroso demais. JK, um homem de boa lábia, reagiu: 'Enche sim, nem que seja no cuspe!'"

Cabeça, tronco e… duas rodas Temos tudo para ser, também, a Capital do Pedal. E por que ainda não somos? Precisamos de muito mais ciclovias, mais bem sinalizadas, e algumas campanhas educativas, tanto para ciclistas quanto para motoristas. Se o respeito à faixa de pedestres virou um produto exportação made in Brasília, por que o uso generalizado de bicicletas não pode também se disseminar?

Cabeças Seria o que hoje chamamos de “ocupação”. Como os Concertos Cabeças aconteceram na passagem dos anos 1970 para os 80, em plena ditadura militar, ganharam (merecida) notoriedade. Tudo muito simples: ao fundo da Galeria Cabeças, dirigida por Néio Lúcio, na comercial da 311 Sul, montava-se um pequeno palco e todo último domingo do mês a rapaziada ia lá pra ouvir música, ler poesia, se encontrar. Pela primeira vez uma geração de brasilienses, aqui nascidos ou não, desceu dos blocos e ocupou o quintal coletivo que são os gramados das superquadras. Depois os concertos foram transferidos para o Parque da Cidade, naquele auditório a céu aberto que não existe mais. Assim como começaram, espontaneamente terminaram. Palco de Oswaldo Montenegro antes da fama, do Mel da Terra, de Renato Matos e de Cássia Eller. E atenção: Renato Russo nunca tocou no Cabeças!

Cafés São poucos mas já fazem uma charmosa diferença. Dão um ar cosmopolita e descontraído à rigidez da setorização do traçado de Brasília. Ainda bem que não existe um Setor de Cafés.

Calçadão da Asa Norte Bom pra namorar, flertar, paquerar, caminhar, pescar, brincar no parquinho… bom também pra não fazer nada. Ótimo para ver o pôr do sol. Fica perto da Ponte do Bragueto, onde a L2 encontra a L4, no final da Asa Norte, com um deque de madeira com 700 m de extensão ao longo do lago. Bom pra namorar. O pôr do sol pode esperar.

Caliandra As raízes da mais bela flor do cerrado são como um amor verdadeiro: profundas. E no meio do cerrado seco protestam. Protestam contra a indiferença de quem passa e não vê o vermelho-sangue, vermelho-coração, vermelhoterra. É a flor preferida da romancista Ana Miranda. Sabendo disso, antes de uma palestra, coloquei caliandras num jarro sobre sua mesa. Até hoje ela não sabe quem as deixou ali. Mas desconfia.

Camiseta Sempre que eu saio da cidade para participar de algum evento, uma feira do livro, por exemplo, começo assim a minha fala: “Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”. No imaginário do brasileiro, todos os que vivem em Brasília ou são ligados ao poder ou estão metidos em algum escândalo. Para nós brasilienses isso é extremamente constrangedor e injusto. Aí criei uma camiseta com os dizeres acima.

Candango Hoje, chamar alguém de candango é um ato amoroso. Mas não era assim durante as obras de Brasília. Candango era o peão, o sofredor operário da construção civil. Termo de origem africana, era como os nativos chamavam os portugueses. Ninguém sabe ao certo como esse nome chegou a Brasília. Pouco importa. O certo é que naqueles tempos heroicos ser chamado de candango era pejorativo. Criou-se aí a primeira distinção social na cidadeutopia: de um lado, candangos, os trabalhadores braçais, (que colocavam, literalmente, a mão na massa) e, do outro lado, os pioneiros, letrados e doutores, muitos faturando alto com a transferência da Capital. Os candangos surpreenderam o mundo: em três anos e alguns meses construíram Brasília. Após a inauguração, sem lugar no Plano Piloto, restou a esses verdadeiros heróis anônimos serem deslocados para as então nascentes cidades-satélites, evidenciando claramente a setorização social e a maior importância dada ao funcionamento administrativo da cidade do que à integração dos operários ao projeto na nova capital. Atualmente o nome candango já não carrega o viés negativo. O troféu concedido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o Candango, uma estatueta estilizada do trabalhador. A escultura Os Guerreiros, de Bruno Giorgi, na Praça dos Três Poderes, foi rebatizada como Os Candangos, talvez pelo aspecto esquálido que têm as figuras. Na UnB um auditório leva o nome de Dois Candangos, em homenagem a dois operários que morreram no local. O filme Conterrâneos velhos de guerra, do cineasta paraibano-brasiliense Vladimir Carvalho, é uma homenagem aos candangos massacrados pela Guarda Especial de Brasília, a polícia da época da construção, num episódio até hoje não esclarecido. O primeiro hospital de Brasília, o HJKO, onde muitos recusavam a se tratar, pois era todo de madeira, hoje abriga o Museu Vivo da Memória Candanga, próximo ao Núcleo Bandeirante. O gentílico do morador de Brasília é brasiliense, mas muitos hoje preferem ser chamados de candangos, pelo simples fato de aqui terem nascido ou terem adotado a cidade, como é o caso deste escriba.

Carne de papel Era uma vez um engraxate que foi trabalhar num açougue na 312 Norte e muitos anos depois o comprou. E o encheu de livros. Os leitores só não foram felizes para sempre porque a história ainda não terminou. Continua diariamente para aqueles que vão ali comprar peças de picanha, costela, fraldinha… e encontram também obras de grandes e pequenos autores, que podem levar pra casa e devolver quando quiser. Alfabetizado aos 16 anos, o simpático baiano Luiz Amorim dos Santos é desses que acreditam que a leitura pode mudar o mundo. O seu mudou. E muito. Do açougue, os livros ganharam as paradas de ônibus da W3 Norte e Luiz, por causa do amor pelos livros e suas iniciativas ousadas ou mesmo revolucionárias, virou notícia no Brasil e no mundo. Hoje o Açougue Cultural T-Bone é palco de encontros musicais, performances, debates, eventos literários… Fique de olho na programação. Se tiver Noite Cultural T-Bone, vai lá que a gente se encontra.

Paulo Negreiros/Congresso em Foco

"Uma vez lá dentro, encoste seu ouvido em uma das paredes côncavas. Fale baixinho que a outra pessoa, na outra extremidade, escutará tudo"

Catedral Meu monumento preferido. O único em Brasília que não é municipal, estadual ou federal. Universal. Transborda em simbolismos: para entrar, desce-se um túnel escuro, passagem desta vida para outra. Interior iluminado, em contraste com as austeras e escuras catedrais medievais. Lá dentro, o espanto, como sempre desejou Niemeyer, comunista, ateu. O batistério ao lado, em formato de ovo, semente, de onde viemos. Quatro evangelistas vezes quatro sinos são as 16 pontas da coroa de espinhos que feriu Cristo. Ou são dedos em prece. Uma vez lá dentro (proibida a entrada de bermuda ou short), encoste seu ouvido em uma das paredes côncavas. Fale baixinho que a outra pessoa, na outra extremidade, escutará tudo. Deus também.

Catetinho Nosso Palácio de Tábuas, a primeira construção, mesmo de madeira, de cunho modernista, que Niemeyer traçou no cerrado. Ali, antes da inauguração da cidade, Tom Jobim e Vinicius de Moraes compuseram a Sinfonia da Alvorada e, de quebra, um sucesso: Água de beber. É que nos fundos do Catetinho tinha (ainda tem) uma mata ciliar, com uma nascente, razão maior da escolha do local, onde certa vez o guarda Luciano Pereira levou os músicos e disse: é água de beber! Lenda urbana: reunidos à noite para uma seresta, queriam tomar uísque, mas não tinha gelo. Caiu então uma forte chuva de granizo que encheu os copos. Outra: domingo é dia de churrasco. O presidente reuniu os amigos e tudo ia bem até que uma matilha avançou sobre a carne assada. Um grupo saiu correndo atrás dos cães pelo cerrado para tentar recuperar os preciosos espetos. Vale uma visita ao Catetinho, com certeza. Mas vá com sede. É água de beber.

Ceilândia Tem muita gente no Distrito Federal que não sabe nem pra que lado fica a nossa maior cidade. É preciso ir a Ceilândia para mudar a imagem de cidade violenta, tão estigmatizada pelo brasiliense. Aos domingos, um programa é ir almoçar na Feira Permanente, perto da caixa d’água, na banca da Galega, que serve o melhor da comida nordestina nessa verdadeira filial de Caruaru. Buchada de bode, mocotó, rabada, sarapatel, paçoca, baião de dois, de três… Foi em Ceilândia que Niemeyer criou a única obra fora do Plano Piloto – a Casa do Cantador – e  por isso, dizem os ceilandenses, o arquiteto viveu tanto. Quem sabe tudo sobre Ceilândia é o Manoel Jevan Gomes de Olinda, professor de História, cearense de São Gonçalo dos Inhamuns, em Brasília desde 1979. O meu guia quando levo visitantes àquela cidade é também Secretário-Geral da ACLAP – Academia Ceilandense de Letras e Artes Populares, a única agremiação literária da qual faço parte. O dedicado pesquisador mantém ainda o Museu Vivo dos Candangos Incansáveis na sua casa, no Setor P Sul, onde expõe a saga dos fundadores da cidade.

Cerrado Cresci numa região de cerrado no norte de Mato Grosso. Lá quase tudo virou soja, aquele mar verde, aquele mar morto. Abra qualquer publicação sobre o começo de Brasília que lá vai estar: isso aqui era um deserto; a cidade chegou e não havia nada; era um vazio sem fim; um cerrado sem vida… Outra pérola: depois de construída, a cidade tem mais árvores do que antes. O cerrado é a vegetação de savana mais rica do mundo em termos de biodiversidade. Se você observar bem as fotos iniciais da construção de Brasília vai perceber que enormes áreas de cerrado foram desmatadas, muitas vezes sem necessidade. É que o cerrado, naqueles tempos, era (e para muitos ainda é) o patinho feio da vegetação brasileira, um bioma de segunda classe: aquelas árvores tortas, “feias”, sofridas… É mais fácil se identificar com árvores retilíneas, de caules retos, enormes. A chegada de Brasília foi um duro golpe para o cerrado, abrindo caminho para a ocupação de grandes áreas para produção de grãos e de capim. E hoje o que restam são pequenas manchas verdes, isoladas umas das outras e sem troca genética entre elas. Infelizmente muitos ainda veem o cerrado apenas como chão a ser plantado. Vão sobrar apenas as poucas áreas protegidas e os morros, onde não chega o trator. “Nem tudo que é torto / é errado / veja as pernas do Garrincha / e as árvores do cerrado”, diz um poema meu.

Cerratense É o habitante do cerrado, termo criado pelo historiador, poeta e amigo Paulo Bertran, falecido em 2005. Ele provou que havia história no Planalto Central bem antes de Brasília. Antes da chegada dos engenheiros e tratores, por aqui já haviam passado índios, escravos, colonos, bandeirantes, faiscadores de ouro e diamantes, bois e boiadas. Enfim, provou que havia uma cultura sertaneja, pré-jusceliniana, nestas paragens e paisagens. Brasília não inventou o cerrado.

“Céu de Brasília, traço do arquiteto / gosto tanto dela assim”, cantou Djavan. Impossível não se deixar impressionar pelo nosso céu. Aqui ele está mais próximo, palpável, ao alcance da mão. Aqui o céu não passa em brancas nuvens. É o nosso maior patrimônio natural, o atrativo mais visível, inteiramente grátis, todo para você. Horizontal, vertical, amplo e irrestrito. E para fechar o dia e abrir a noite, um inesquecível pôr do sol, que você pode curtir de qualquer lugar, mas da Ermida Dom Bosco é bem mais especial. E espacial.

Chico Francisco Alvim é o meu mais importante poeta de Brasília. Mineiro de Araxá, diplomata aposentado. Não mostra sua poesia. Se deixa ver.

Chifrudo Quem vem de Belo Horizonte ou do Rio de Janeiro quando chega ao Chifrudo já sabe: Brasília está próxima. Não se sabe bem se o nome é Solarius, Solaris ou Solarium, mas todos o conhecem pelo apelido. Às margens da BR-040, entre Santa Maria e Valparaiso de Goiás, a escultura foi doação do governo francês. Criação do escultor Ange Falchi, a obra de arte, com cerca de dezesseis metros de altura, tirou o primeiro lugar no Concurso Internacional de

Esculturas, em Paris, em 1963. Simbolizando a ocupação do Planalto Central, conta-se que o artista queria a escultura exposta na entrada da cidade, mas não imaginava que ficasse tão longe do centro. Foi ali colocada em 1967. Segundo Maria Elisa Costa (informação pessoal), foi o próprio pai, Lucio Costa, quem indicou o lugar onde a escultura está.

Chorinho Como o primeiro estilo musical brasileiro tipicamente urbano foi se enraizar na cidade modernista? Pergunte ao Hamilton de Holanda, nosso menino prodígio, o maior talento do choro brasiliense, referência nacional. Em Brasília o chorinho tem clube, tem escola, tem uma legião (ops!) de fãs… E talvez por isso o nosso chorinho tem uma pegada mais pesada, quase um rock.

Chuva As primeiras gotas no chão do cerrado são como saliva nos nossos lábios ressequidos. O ar se umedece, a grama reverdece, a cidade troca de pele. Em Brasília só chove nos meses que têm a letra “r” no nome, de setembro a abril. Os jornais anunciam: 110 dias sem chuva! A umidade do ar em níveis saarianos, a garganta desértica. O que a chuva faz com a cidade, a primavera faz com as flores.

Cigarras Todos já sabem: quando as cigarras começam a cantar é sinal que a chuva vem chegando no sertão… aliás, no cerrado. O que muitos não sabem é que esses insetos fazem um barulho mais intenso que um liquidificador ligado ou uma rua de trânsito pesado. Não, as cigarras não cantam até explodir. Também não mordem nem transmitem doenças. Da próxima vez que você ouvir o som estridente e monocórdico pelas superquadras, não se irrite. Se maravilhe com um artifício que a natureza criou para elas: o ouvido do macho, que canta desesperadamente para atrair a fêmea, tem uma membrana que o protege do próprio barulho. E lá vem a chuva…

Clarice Lispector “Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado”. Assim começa o melhor texto sobre a cidade. Escrito por alguém que ficou aqui apenas por alguns dias, insone, fumando e bebendo no Hotel Nacional, em 1962. E dando umas voltas pela cidade das ruínas precoces. Como um convite de boas-vindas, tive a felicidade de lê-lo (e ser influenciado por ele, é claro!) ainda jovem. Com seu estilo misterioso, o timbre seco, Clarice vai na contramão, desencantada com o projeto da cidade modernista. Na verdade, vai além: ninguém como Clarice traduziu o espanto que o artificialismo de Brasília então causava.

Clarinda Quem disse que nenhuma mulher participou da Missão Cruls? Clarinda de Moura é o seu nome e aqui vai um pouco da sua história. Aliás, uma bela história de amor. Hastimphilo de Moura, engenheiro da Missão Cruls, morria de saudades da esposa, que ficara no Rio de Janeiro. Escrevia dezenas de cartas para ela e aguardava ansioso pelas respostas, sempre com pressa de chegar às poucas cidades goianas com serviço postal. Colhia flores do cerrado e comprava pequenos diamantes brutos para lhe dar de presente. Carinhosamente chamada de Lilinda nas cartas, Hastimphilo ameaçou abandonar o trabalho para encontrá-la. Ela então decidiu vir ao seu encontro. O engenheiro foi esperá-la na estação de trem de Uberaba. Ela chegou com a filha recém-nascida, que Hastimphilo ainda não conhecia, e seguiram os três em lombo de burro para a área do futuro Distrito Federal. Clarinda acompanhou o marido, dormindo em barracas e passando por todos os sacrifícios. E com a filha pequena no colo. Imagine. Isso em 1892. Hastimphilo faleceu em 1957 e Clarinda, dois anos depois. Tiveram seis filhos. (Quem quiser saber mais leia a publicação A Fazenda Velha nos caminhos da Missão Cruls, de autoria dos historiadores Wilson Vieira Júnior e Deusdedith Júnior. FAC, 2007).

Clichês “Brasília é uma cidade fria. / A cidade não tem esquinas. / Ilha da fantasia. / Capital da corrupção. / Em Brasília é tudo igual, monótono. / As satélites são violentas. Brasília não tem vida noturna. / O que você vai fazer em Brasília? Lá não tem nada pra ver. / Brasília não tem gente, nem calçadas nem bares. / As pessoas em Brasília são frias e secas com os estranhos.”

Clodo, Climério e Clésio Não formavam um trio, apenas tocavam juntos, diziam. Irmãos piauienses, aqui radicados nos anos 1960, autores de grandes sucessos nas vozes de Fagner, Ednardo, Amelinha, Belchior e Dominguinhos, entre outros. Climério continua poeta, na ativa, mas não canta mais em público. Clésio faleceu em 2010. Clodo foi o único a seguir carreira solo. Sorte nossa. O Clodo está na história da minha vida porque devo a ele o meu primeiro emprego numa agência de publicidade, em 1980. Fiquei seis anos nessa vida de redator publicitário. Obrigado, Clodo.

Completo Amor Dia 12 de junho de 1983, Dia dos Namorados, noite de lua cheia. Era esse o nome do show no teatro da Escola Parque. Caio e Graco (Coração Alado, na voz de Fagner). Nessa noite tudo conspirava a favor e consegui dar o primeiro beijo em Alcina Ramalho, na época com 17 anos. Três anos depois nos casamos.

Conceição Freitas Sim, um verbete para ela sim. A jornalista Conceição Freitas tem sido a porta-voz dos brasilienses preocupados com a descaracterização deste símbolo maior da nacionalidade que é Brasília. Coloca o dedo na ferida, instiga, investiga, pergunta, cobra. E escreve muito bem, com graça. Por meio das suas crônicas e reportagens no Correio Braziliense ela consegue captar o inconsciente coletivo da Grande Brasília, essa que vai de Brazlândia a São Sebastião, do Gama a Planaltina. Grande Conceição.

Conic É o nome popular do SDS (Setor de Diversões Sul), o lugar “maldito” de Brasília, mesmo que não mais o seja. Nos anos 1970/80, sim: chegou a ter oito boates. A primeira casa noturna gay da cidade, New Aquarius, ali funcionou de 1974 a 1996. No conic, onde pulsa a cultura alternativa da cidade, tem de tudo: cinemas pornôs, templos evangélicos, salas de teatro, lojas variadas, local de reunião de skatistas, sede de partidos políticos, ongs, sindicatos… Várias campanhas já foram feitas para mudar o nome, sem sucesso. Conic será sempre conic. Maldito ou não, é interessante de dia e perigoso à noite. É anti-Brasília por excelência, sem excelências.

Contorno A DF-01, também conhecida como Estrada-Parque Contorno (EPCT), é a maior rodovia do DF. Circunda toda a bacia que dá nome ao lago e quando passa por Taguatinga recebe os nomes de Pistão Norte e Sul. Em 135 km de extensão não atravessa nenhuma ponte, só a barragem do Paranoá. Isso é incrível!

Coruja-buraqueira Sinal de sorte ter uma perto da sua casa, não de mau agouro. Elas gostam das pessoas, mas longe. Adaptaram-se muito bem ao ambiente urbano de Brasília. Mas não chegue muito perto, deixe-as em paz. Pai coruja e mãe coruja protegem com unhas e bicos qualquer intruso. Única coruja do mundo ativa durante o dia, é importantíssima na manutenção do equilíbrio ecológico, pois é predadora de ratos e insetos. Se vir uma corujaburaqueira por aí, peça um pouco de sabedoria.

Costura Pegue a agulhinha, caia na tesourinha e com as linhas do Eixão comece a costurar a cidade. E depois descosture. Brasília é desdobrável.

Crachá Objeto do desejo, sonho de consumo. Vale todos os sacrifícios. Para muitos, uma verdadeira condecoração.

Crianças Três histórias. Primeira: indo visitar a tia no interior de Minas, uma criança se depara com aqueles endereços tradicionais de ruas e números: “Ué, como vocês fazem pra encontrar as casas das pessoas aqui?” Segunda: a mãe, visitando Brasília pela primeira vez, com a filha.A criança, ao passar em frente ao Congresso Nacional, exclama: “Mamãe, olha lá, olha lá, o Jornal Nacional!”. Última história: nascida em Brasília, a criança viaja para São Paulo e fica num apartamento muito alto, em frente a uma grande avenida. Olha pra baixo e pergunta: “Mãe, qual o nome desse eixo?”.

Cupim O maior inimigo do patrimônio histórico inicial de Brasília tem nome. Quando aqui quase tudo era provisório e construído de madeira, madeira mole, pinheiro-do-paraná principalmente, alimento preferido de algumas espécies desse inseto. Essa praga infestou o madeiramento da então Cidade Livre, da Vila Planalto e dos acampamentos. Não houve nenhum tratamento químico preventivo na época, já que a pressa e os prazos não permitiam tal luxo. Em 1997 o Catetinho teve parte de sua estrutura trocada e a outra tratada com gás carbônico, pois os cupins simplesmente ameaçavam fazer desabar o Palácio de Tábuas. Quem ficou morando em casas de madeira não recebeu do governo nenhuma assistência para combatê-los. Nenhuma compensação também era dada àqueles que preservassem suas casas de madeira. Preservar pra quê? E assim restam pouquíssimos exemplares da época. Talvez o mais belo conjunto seja o do Museu Vivo da Memória Candanga, mesmo com madeiramento todo novo.

Curau Quem vive nas imediações do Parque Nacional de Brasília (que erroneamente muitos chamam de Água Mineral) já deve ter avistado um psitacídeo um pouco menor que o papagaio verdadeiro, da cara amarela (Alipiopsitta xanthops), que anda em bando, emitindo um som curau, curau, curau. É endêmico do cerrado, isto é, não ocorre em nenhum outro bioma brasileiro. Durante o dia passeiam pelos quintais das chácaras vizinhas ao Parque e, ao entardecer, um belíssimo espetáculo é ver os bandos de papagaios voltando para um dos seus refúgios ecológicos.

Cuspe Antes do fechamento da barragem do Paranoá, diziam que o lago nunca se formaria. Ou não havia água suficiente para tanto ou o terreno era poroso demais. JK, um homem de boa lábia, reagiu: “Enche sim, nem que seja no cuspe!”.
Outros verbetes de BRASÍLIA-Z – Cidade-palavra, de Nicolas Behr:

Brasília de A a Z: o que diz o A

Brasília de A a Z: o que diz o B

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Sobre o autor

Nicolas Behr

Nicolas Behr

* Nicolas Behr é poeta e dono da Pau-Brasilia viveiro eco.loja. Nasceu em Cuiabá em 1958, e vive em Brasilia desde 1974. Três anos depois, publicou seu primeiro livro mimeografado e nao parou mais. Foi redator publicitário. Fundou e trabalhou em ONGs ambientalistas. Casado, três filhos. Adora Brasília. Site: www.nicolasbehr.com.br.

Outros textos de Nicolas Behr.

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