Quarta, 16 de Maio de 2012

Colunistas

Bem-vinda ao mundo real, Dilma

“É preciso que haja um pepino de tamanho razoável que precisa ser descascado em troca das verbas, das emendas, dos cargos etc. Essa é a lógica da relação do governo com sua base”

De acordo com o que dizem alguns que têm alguma convivência com a presidenta Dilma, ultimamente, nas suas conhecidas explosões de mau humor, ela anda se queixando que está cansada de ter que negociar tudo com o Congresso Nacional. Nada sai sem um preço alto, geralmente contabilizado em cargos e emendas. Dilma está com medo da crise mundial, não quer gastar, e tem uma delicada agenda a pressioná-la neste final de ano, com a necessidade de prorrogar a DRU (Desvinculação das Receitas da União) e de mandar para o espaço o aumento dos gastos com a saúde na hipótese da aprovação da Emenda 29, o desafio de ontem (7) à noite.

É o cenário ideal para alguns dos parceiros que Dilma arrumou no ano passado para se eleger, uma turma que adora criar dificuldade para vender facilidade. Quando o mordomo lhe apresenta a conta, Dilma explode.

Bem, presidenta, bem-vinda ao mundo real. Assim é o modelo de governança que ela e seus antecessores nesta atual experiência democrática brasileira escolheram. Como não há absolutamente nada nesta base aliada – do ponto de vista programático e ideológico – que consiga unir pessoas de pensamento tão díspares como, digamos, Jair Bolsonaro, do PP, e Marta Suplicy, do PT, para ficar só em dois exemplos, a costura se dá pelo loteamento do poder.

O governo central dispõe das benesses que a Constituição lhe garante, e a base, em troca, lhe concede os votos. Como a caixinha do governo é bem mais limitada que a fome dos seus aliados – e como os interesses partidários nem sempre são lá muito limpos e defensáveis –, a lógica que move essa relação é de crise permanente. É preciso que haja sempre um pepino de tamanho razoável que precisa ser descascado em troca das verbas, das emendas, dos cargos etc. Exige um saco de filó. De vez em quando, o saco, naturalmente, enche. E Dilma explode.

O que aconteceu no Senado nos últimos dias é um exemplo clássico, de almanaque, de como se dá essa relação. Uma semana antes de perder a paciência e meter o dedo na cara do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) tinha feito um comentário que mostrava claramente que ele tinha compreendido a parada. Surpreendendo a todos, Sarney colocou em discussão a Emenda 29, gerando um barata-voa na base de sustentação do governo e atiçando a oposição. Depois, jurou que tinha sido um “engano”. Demóstenes resumiu: engano não, porque “de ingênuo, o senhor não tem nada”.

Na verdade, o “engano” de Sarney era já o segundo ato da pantomima ensaiada pelos peemedebistas. Alguns dias antes, sem combinar com o Palácio do Planalto, o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), negociara com a oposição colocar em votação a Emenda 29 em troca do fim da tática de obstrução que os oposicionistas faziam contra a emenda que prorroga a DRU. O que Sarney fazia era seguir nessa toada. Ora, trocar a DRU pela Emenda 29, para um governo que quer economizar dinheiro, é trocar seis por meia dúzia. Em troca de desvincular bilhões em recursos que poderia usar livremente – ou não usar –, o governo aceitaria votar uma emenda que tem por propósito justamente vincular bilhões em recursos para um setor, no caso a saúde.

Ao final, dado o susto, criada a dificuldade, tratou o PMDB de vender a facilidade. Votou-se a Emenda 29, ficou parecendo que o governo ia perder e, no final, o PMDB arrumou os votos para aprovar o substitutivo do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT), que mantém o atual patamar de destinação de recursos federais para a saúde. A desenvoltura do PMDB na votação de ontem era tanta que, em determinado momento, Humberto desabafou: “Me sinto aqui apenas líder de mim mesmo”. Eram os peemedebistas que encaminhavam, apontavam os caminhos, faziam as negociações e estratégias.

Foi criado o embrulho, ele foi desembrulhado, e o recado do PMDB foi dado. Um recado que serve para os futuros propósitos da presidenta: ela quer no início do ano enxugar o número de ministérios e torná-los mais técnicos? Primeiro, precisa conversar com a turma que tem votos no Congresso. Ao final, é possível que prevaleça tudo como está: cargos à vontade para que os aliados, como o PMDB, pendurem seus políticos, que nada entendem das áreas que irão comandar. E a manutenção da usina de escândalos vai ser culpa dessa imprensa golpista, que insiste em continuar fazendo seu trabalho.

Sobre o autor

Rudolfo Lago

Rudolfo Lago

* É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultou na cassação do senador Luiz Estevão.

Outros textos de Rudolfo Lago.

12 Comentários

  1. Wanderley Sucigan disse:

    Não sou eleitor do PT,pois sou Brasileiro-Patriota e inteligente.
    Mas já que a Sra.Dilma se tornou Presidenta a ela devemos todo o Respeito que o Cargo merece.
    Sra.Dima tem 2 saidas para tornar este País o país das maravilhas e ela se perpetuar como A PRESIDENTA DO SÉCULO.
    1= CORTAR TODO E QUALQUER LAÇO COM O PT.
    2=USAR A RECEITA DO GOVERNO DE SINGAPURA PARA SEU DIA A DIA.

    Mas entendo que seria pedir demais a quem é de menos.

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  2. Raymundo disse:

    O que a presidente Dilma Roussef está passando, é a herança do modo de fazer política que o ex-presidente Lula deixou-lhe. Ele e sua turma do PT, ávidos pelo pode a qualquer preço. Veja por exemplo, o caso do Mensalão que envolveu vários partidos e, o alto escalão do PT. Lula, não só foi conivente, como em sua gestão, foi em defesa do Renan Calheiros quando este era presidente do senado e ficou envolvido em escândalos e, em seguida, fez o mesmo em favor do José Sarney. Ambos, caciques do PMDB.
    Portanto, Lula conseguiu eleger a sua sucessora. Agora, a nação paga o preço, através dos sucessivos atos de corrupção dos ministros de Lula e, das negociatas no senado e na câmara
    .

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  3. Raymundo disse:

    O que a presidente Dilma Roussef está passando, é a herança do modo de fazer política que o ex-presidente Lula deixou-lhe. Ele e sua turma do PT, ávidos pelo poder a qualquer preço. Veja por exemplo, o caso do Mensalão que envolveu vários partidos e, o alto escalão do PT. Lula, não só foi conivente, como em sua gestão, foi em defesa do Renan Calheiros quando este era presidente do senado e ficou envolvido em escândalos e, em seguida, fez o mesmo em favor do José Sarney. Ambos, caciques do PMDB.
    Portanto, Lula conseguiu eleger a sua sucessora. Agora, a nação paga o preço, através dos sucessivos atos de corrupção dos ministros de Lula e, das negociatas no senado e na câmara

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  4. Lauro Ferreira Melo disse:

    Rudolfo. Todos os politicos e seus respectivos partidos, querem desesperadamente, cargos e verbas. Em nosso país este é um costume ancestral. Sempre foi este, o caminho pelo qual eles se locupletam e financiam suas campanhas. No curto prazo nada mudará, portanto, a Presidente Dilma terá que conviver com esta miséria, durante todo o seu, ou seus mandatos. Mas nem tudo está perdido, existe meios de contornar este monstruoso problema. Basta que ela tenha coragem de retaliar de forma dura e rápida. Como? Quem criar problemas perde os cargos e as verbas. Ou seja, para os amigos os favores da lei, para os inimigos os rigores da lei. Os politicos sabem muito bem quem comanda a PF e a Receita Federal. LAURO MELO.

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  5. correa disse:

    Quando li a serie Harry Porter, fiquei admirado com a imaginação da autora. Tem uma que nos remete aos nossos políticos, e acredito
    que os mesmos serviram de base para o seu escrito. Quem leu sabe das estorias dos mortos que “viviam” nos quadros pendurados nas paredes da escola. Eles estavam mortos mas conseguiam se transportar de um quadro para outro, falavam e até podiam prejudicar alguem. Vejam a semelhança com o nosso Congresso. Temos; ,Sarney,Renan,Inocêncio,Suplicy, o ex ministro do turismo,( nem sei o nome), Lupi, um que andava numa cadeira de rodas no senado, Simon, e tantos outros. Eu sempre achei que estes caras nunca morriam, hoje sei que já morreram mas foram para os “quadros” e lá vão ficar ate que o Valdemort seja vencido.

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  6. João Luís disse:

    Bom artigo.

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  7. Fabrício Marques disse:

    De Rudolfo Lago, de quem sou, orgulhosamente, amigo: “Um recado que serve para os futuros propósitos da presidenta: ela quer no início do ano enxugar o número de ministérios e torná-los mais técnicos? Primeiro, precisa conversar com a turma que tem votos no Congresso. Ao final, é possível que prevaleça tudo como está: cargos à vontade para que os aliados, como o PMDB, pendurem seus políticos, que nada entendem das áreas que irão comandar. E a manutenção da usina de escândalos vai ser culpa dessa imprensa golpista, que insiste em continuar fazendo seu trabalho.”

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  8. Helso Brasil disse:

    Não adianta mudar de presidente, temos que mudar é de congresso. Que tal o congresso cubano? Em Brasilândia tudo é fantasia, nada é real mais tudo é possível, bandido em comissão de justiça e palhaço na comissão de educação.
    Revolução é a solução, prisão e paredão prá todos os políticos. Vamos exterminar essa raça.

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  9. Rl disse:

    Ótimo artigo. Claro e imparcial. Digno de um cidadão mais preocupado com o andamento do país do que em apontar culpados. há poucos assim…

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  10. Depois de ler todas às matérias a respeito do tema: “Legislativo submisso do Excutivo e suas controvércias”, posso afirmar com convicção: O mensalão, era,foi e continuará cendo à razão pela qual se explica à submissão de parte do congresso ao executivo. Chorei Largado !!!
    ACORDA BRASIL !!!

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  11. Depois de ler todas às matérias a respeito do tema: “legislativo submisso do executivo e suas controvérsias”, posso afirmar com convicção: o mensalão,era, foi e continuará sendo à razão pela qual se explica à submissão de parte do congresso ao executivo. Mas, também, eles só representam a eles mesmos, não é?
    [Velho não pode escrever sem óculos]. Tá bom!! Mas eu corrigi o texto acima a tempo!!! CHOREI LARGADO !!! ACORDA BRASIL !!!

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