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Antártica, o continente que é um achado!

Clique abaixo para ouvir o comentário de Beth Veloso veiculado originalmente no programa “Com a palavra”, apresentado por Elisabel Ferriche e Lincoln Macário na Rádio Câmara:

Responda rápido: Antártica ou Antártida? Juro que embarquei nesta enorme aventura com uma dúvida dos deuses. Quem quiser saber a resposta terá que esperar até o final deste programa. Cruzar o cabo Horns, um dos canais de mar mais agitado do planeta, em direção à Antártica estava nos meus sonhos, mas confesso que não fazia parte dos meus planos de curto prazo. Embarquei nesta aventura, e faço aqui um relato personalíssimo, acreditando que nem de longe viveria a tragédia da Lendária Expedição de Shackleton à Antártica, o navegador irlandês que, no início do século, viu seu navio ser esmagado como folha de papel por blocos de gelo, deixando 28 homens presos no fim do mundo, numa epopeia contada no livro que fazia parte da minha bagagem nesta trigésima quinta expedição Antártica realizada pela Marinha, com apoio do Exército e da Aeronáutica.

Há 30 anos o Brasil faz parte do clube de nações que enxergam nestes 10% da superfície da terra mais do que um grande bloco de gelo! A Antártica será, um dia, disputada a tapas por nações do mundo, que hoje pactuam a paz e fazem daquelas enormes montanhas de gelo – com altitude média de 2,3 mil metros, é três vezes mais alta que qualquer continente – um laboratório a céu aberto.

Nossa missão era alcançar a base brasileira Comandante Ferraz, cujas instalações originais foram consumidas pelo fogo em 2012 num acidente sem vítimas, e desde então o programa mantém suas pesquisas sem prejuízo, enquanto a Marinha negocia com os chineses a entrega da nova, confortável e moderna estação, cujos módulos estão sendo construídos na China, com inauguração prevista para 2018. O governo brasileiro acredita e investe – pouco, por sinal – no Projeto Antártico, e cada centavo colocado ali vale a visibilidade, inclusive internacional, que se agrega à imagem de um Brasil que não é apenas amazônico! A previsão orçamentária para 2017 é de R$ 150 milhões, incluindo os recursos para pagar os módulos da nova estação em construção em Xangai, na China. As pesquisas de clima na Antártica não se comparam àquelas comandadas na floresta tropical, porque em nenhum outro continente você pode ter temperaturas médias de -60ºC e uma biodiversidade inusitada numa região que abriga 80% da água doce do planeta.

Nossa missão era cruzar os céus da Patagônia, a chamada Terra do Fogo, para atingir a base chilena apelidada de Frei, numa aeronave c-130, um Hércules turbo hélice, da Força Aérea Brasileira, onde viajávamos como se fôssemos combatentes de guerra, no caso, uma guerra pela sobrevivência humana na área mais inóspita do planeta.

Pousamos na Antártica certos de que nossa missão era séria, porém breve: a Antártica, com seu clima nada amigável, nos permitiu ficar apenas algumas horas em seu solo. Caso insistíssemos em navegar no navio polar brasileiro Comandante Maximiano, não saberíamos quando haveria outra janela com teto bom para decolar do continente antártico de volta para casa.

Pedro, cinegrafista carioca que retornava da filmagem de um documentário sobre a vida dos oficiais que habitam há um ano aquele continente gelado, naquele imenso iceberg continental, nos avisava: a Antártica escolhe seus visitantes. Não há nada de diferente na neve da Antártica, nem vimos pinguins ou focas dançantes, mas é indescritível a emoção de sabermos que ali os ventos atingem 300 km por hora, que a temperatura oscila dois dígitos em questão de horas e que você pode atolar e até ver seu transporte polar tombar num rio de degelo, como ocorreu com parte da delegação – dando-nos uma remota sensação do que deve ter vivido Sir Shackleton, em 1914, que conseguiu salvar sua tripulação na base da coragem e de ração de carne de cachorro e alguns biscoitos. Pelos relatos do comandante irlandês, os blocos de gelo pareciam um mar revolto e a luminosidade do luar sobre o mar de gelo criava um ar místico.

Pisar numa Antártica com apenas 0ºC foi um privilégio. Participar do seleto grupo de países que marcam presença na Antártica em nome da paz e da pesquisa científica, com base nos princípios sacramentados pelo Protocolo de Madri, em 1991, é um privilégio para o Brasil.

Os países que ocupam o continente gelado sabem que aquele é um espaço estratégico na rodada de decisões sobre o futuro do clima no planeta. Veterana no continente, onde pisou por mais de dez vezes, a bióloga e pesquisadora paranaense Franciene Pellizzari, conta por que o brasil está na Antártica e quem governa aquele continente místico e quase imaginário, de tão desconhecido: “o desafio em estudar que conta a história do clima da terra e é a previsão do que pode acontecer em outras áreas do globo. É a predominância dos extremos, onde o mar alto, os ventos fortes, o gelo e as temperaturas baixíssimas governam e te autorizam ou não a prosseguir com as suas pesquisas. ”

Com apoio incondicional de vários setores do país, inclusive da Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar), que tenta garantir os proventos financeiros necessários para o programa, como o pagamento aos chineses da conta pela construção da futura sede da base brasileira na Antártica, em que pese as críticas de que a pesquisa feita ali não se move por uma política de ciência e tecnologia inserida num projeto de nação, mas pela motivação pessoal de cada cientista, é louvável admirar o vigor da pesquisa movida pela paixão de alguns brasileiros.

“Mais do que lembranças e uma prova de resistência, o desafio antártico é saber que para tudo tem jeito, há sempre uma alternativa”, diz a pesquisadora Franciene Pellizzari, que estuda as diferentes espécies de algas marinhas na Antártica.

Como marca de nossa breve passagem pelo mar austral, não recebemos ali cartinhas para serem respondidas de alunos de escolas públicas, como acontece com os pesquisadores, nem testemunhamos a precária internet da Oi, conforme relato dos pesquisadores, mas a superação é saber que a Antártica é um grande ponto de interrogação para o resto do mundo, mas também motivo de grande orgulho e patriotismo para um país machucado pelas vicissitudes da governança de uma jovem democracia.

Respondendo à nossa pergunta de início, o nome correto do continente é Antártica, porque vem de anti-ártico, originário da palavra grega árktos (ursa), que quer dizer urso.

Assustador, mas fascinante ao mesmo tempo. Enquanto a Amazônia é o pulmão do mundo, a Antártica é o ar-condicionado. E depósito de muitas de novas esperanças sobre o futuro da vida no planeta.

Durante a visita à Antártica, conversei com a bióloga e pesquisadora Franciene Pellizzari, que tem muito a nos ensinar sobre o clima, a ciência e a humanidade:

Se você quiser comentar, escreva para nós: papodefuturo@camara.leg.br.

Coluna produzida originalmente para o programa Papo de Futuro, da Rádio Câmara. Pode haver diferença entre o áudio e o texto.

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Sobre o autor

Beth Veloso

Beth Veloso

* Jornalista e consultora legislativa da Câmara dos Deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia. Apresenta a coluna "Papo de Futuro" todas as terças-feiras, às 9h, no programa Com a Palavra, da Rádio Câmara FM.

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