Terça, 28 de Fevereiro de 2017

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Adalberto Piotto: meu pai e o pai da Constituição de 88

Jornalista relembra o dia em que, aos 14 anos, levado pelas mãos do pai, conheceu Ulysses Guimarães no interior de São Paulo: “Me agradeceu de forma única por um jovem como eu ter ido até lá”

Era 1986 e o doutor Ulysses Guimarães iria a Piracicaba fazer campanha para eleger seu amigo Pacheco Chaves um deputado constituinte.  Eram tempos ainda delicados no Brasil, depois de um longo período de exceção. Muito por fazer, refazer e solidificar na sociedade.

Numa manhã de sábado, leio no Jornal de Piracicaba acerca do comício. À época, eu, com 14 anos, peço ao meu pai para me levar até lá. Eu tinha lido sobre a importância de uma nova Constituição, estudado sobre a luta contra a ditadura, o levante democrático, estávamos vivendo a Nova República.

O evento seria à noite. Morávamos em Rio das Pedras, cidade onde nasci e vizinha a Piracicaba.

José Cruz/Agência Brasil

O “Senhor Democracia” e a Carta Magna

Antes, um esclarecimento: meu pai, Pedro Piotto, é um sujeito moldado pela vida com imensa cultura proveniente, na maior parte, do autodidatismo e de intensa participação política como cidadão. Anos antes, nos 70, começo dos 80, havia sofrido represálias do PIB usineiro local e seus aliados, todos da Arena/PDS, porque tinha escrito MDB no próprio capacete que usava como eletricista (sim, eletricista de alta tensão e dono do pequeno e próprio negócio). E tendo minha mãe funcionária de uma usina de açúcar local. Quem vive hoje, raramente compreende os desafios do passado.

Bem, diante de meu pedido, meu pai liga para o então prefeito de Piracicaba, Adilson Maluf, do PMDB, um engenheiro que conhecera na construção de um prédio e do qual se tornara amigo, para dizer que iríamos ao comício e que o filho queria conhecer o doutor Ulysses.

Naquela noite, depois de todos os discursos, subimos ao palanque, a convite de Adilson, e me apresentam ao doutor Ulysses.

Em detrimento daquele monte de políticos e autoridades, partidários locais, que queriam estar ao lado dele, Ulysses Guimarāes me dedica longos minutos de completa exclusividade sobre assuntos de extrema importância para mim, como minha vida escolar, o que mais eu gostava de estudar, fazer. E, sim, me agradeceu de forma única por um jovem como eu ter ido até lá. Que ele se sentia privilegiado (como era elegante o doutor Ulysses), de gente jovem ir vê-lo falar. E que iríamos construir uma Constituição para dar suporte à jovem democracia que renascera no país.

Anos depois, eu já votava aos 16 anos para presidente do Brasil, uma alteração consagrada do voto do mais jovem em 1988, na Constituição cidadã.

Feliz aniversário, doutor Ulysses!

Obrigado, pai.

Notas:

Ulysses Guimarães, o doutor Constituinte, completaria 100 anos no último dia 6 de outubro.

Adalberto Piotto se tornou jornalista e diretor de documentários, vive em São Paulo e discute o Brasil em seus filmes e reportagens.

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Sobre o autor

Adalberto Piotto

Adalberto Piotto

* Adalberto Piotto é jornalista, âncora de notícias, documentarista, diretor e produtor independente de cinema e TV.

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