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Abriram a Caixa de Pandora no Congresso

Parlamentares com problemas na Justiça e que resistem à aprovação de uma agenda progressista dominam a Mesa Diretora da Câmara e prenunciam pelo menos dois anos de “toma-lá-dá” e de dias difíceis para minorias sociais

Reclamar da composição do Congresso Nacional, especialmente da Câmara dos Deputados, se tornou lugar comum em conversas de gente “cool” nos últimos dois meses. Mesmo antes do Diap divulgar as primeiras análises que mostravam o Congresso atual com o perfil mais conservador do pós 1964, muita gente já chiava olhando o cenário de votação ascendente no qual despontavam figuras tão pitorescas quanto Marco Feliciano com sua chapinha cafona e Jair Bolsonaro. Nenhuma tragédia grega chegou a criar figuras próximas desses aí.

Não era possível, contudo, ter uma visão do “todo”. Cenas esparsas aqui e ali. Mas o que dava pra ver, já desagradava aos olhos. Mesmo dos espectadores mais desatentos.

Ainda com alertas constantes de que aquilo era o princípio do caos, muita gente fez cara de paisagem. O anúncio da candidatura Eduardo Cunha não foi propalado pela grande (cada vez menor, segundo os índices de audiência) imprensa. As diversas suspeitas que recaem sobre ele foram solenemente ignoradas. Eduardo Cunha é uma figura no mínimo polêmica, é o que me permito dizer.

Mais polêmico ainda, contudo, é o que veio no pacote. Seja por inabilidade do governo – uma amiga disse em um almoço que bastava dar o “mapa” para um dirigente estudantil secundarista que era mais fácil – seja pela incapacidade em analisar o cenário consolidado, o fato é que a composição da Mesa Diretora denota algo entre um caos aéreo e um desastre ferroviário, ambos de graves proporções.

De secretário a suplente, com a exceção honrosa da deputada Luiza Erundina, uma ampla lista de colecionadores de partidos políticos, alguns com quatro siglas ou mais em seu histórico partidário. Uma crescente representação de empresários na condução da Câmara, bem maior do que o aumento proporcional na base dos deputados – o Diap deve confirmar isso – e perfis extremamente conservadores, onde nem o voto feminino passaria pra pauta hoje. Inclusive porque nem Getúlio nós temos.

Seja pelo problema da inabilidade ou da incapacidade, como apontado acima, o cenário concreto é que o campo progressista da Câmara não conseguiu construir alternativas viáveis para a disputa da presidência e abriu mão dos principais postos na direção da Casa nessa aventura. Ok, não abriu mão, levou rasteira em algumas vagas e apresentou perfis mais para lá do que pra cá em outras. O desfecho é o mesmo.

Para além da composição efetiva dos cargos da Mesa Diretora, a composição dos blocos traz no bojo outra tragicomédia. A composição das comissões. De acordo com o resultado de domingo, o bloco liderado pelo PMDB, com quase 15 partidos, entre eles os épicos DEM, PSDC e PSC, vai indicar 11 comissões, com as primeiras chamadas. Constituição e Justiça e Finanças devem entrar nesse bolo. Se as pessoas temiam o toma-lá-dá-cá de praxe, o que será instalado nesses próximos dois anos na Câmara será de assustar.

Pela primeira vez desde 2005, com a exitosa presidência de Aldo Rebelo, comunista letrado e versado na política – com um dos melhores discursos de posse na Esplanada em 2015, aproveitando a ocasião – o PT fica de fora da Mesa Diretora. Ao contrário daquela situação, sem aliado na presidência da Casa e correndo o risco de enfrentar uma tragédia que, segurando a Esperança, pode libertar todo o restante da Caixa de Pandora que é o Congresso Nacional.

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Sobre o autor

Alessandro Melchior

Alessandro Melchior

* Alessandro Melchior é estudante de Direito. Foi presidente do Conselho Nacional de Juventude/Conjuve (2013/2014), diretor da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais/ABGLT e vice presidente do Fórum de Juventude da Comunidade de Países de Língua Portuguesa/CPLP. No twitter mantém o perfil @AleConjuve.

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