Colunistas

A rotina do absurdo

Há algum tempo resolvi fazer uma experiência. Durante dez dias acompanhei o noticiário policial brasileiro, arquivando apenas aquelas notícias verdadeiramente absurdas, que causariam comoção em qualquer lugar razoável.

Logo no primeiro dia li que uma granada, uma pistola, três revólveres e quase 100 projéteis foram aprendidos durante uma revista de rotina realizada em uma prisão. É chocante, mas esta incrível notícia, tão comum que é, habitou meramente um canto de página do jornal.

No dia seguinte li que traficantes impuseram toque de recolher em um morro, decretando luto por causa da morte de um deles, ocorrida durante um tiroteio. Todo o bairro obedeceu, sem discutir. Este horror, também corriqueiro, foi apenas mais uma notícia daquelas que duram 24 horas, dada a falta de repercussão.

Terceiro dia: um ônibus com 40 passageiros foi saqueado à luz do dia por ladrões armados, que ainda ameaçaram incendiar tudo com um galão de gasolina que carregavam. Este não é um crime comum – é o retrato da falência do Estado. No entanto, não ensejou sequer um discurso, de tão usual.

Quarto dia, e li sobre o drama de 30 funcionários de uma loja que ficaram duas horas em poder de criminosos, durante um assalto realizado no centro de uma capital. Acredite: sequer na primeira página esta notícia estava, de tão comum que é!

No quinto dia noticiou-se que um policial fardado foi sequestrado por quatro homens armados com metralhadora e levado para um cativeiro. Metralhadoras! Um policial fardado! E esta notícia não durou 24 horas! Zero de repercussão na sociedade. Rotina, pura rotina!

Sexto dia: traficantes determinaram o fechamento de 177 lojas até as 13 horas. Tratava-se de luto pela morte de um deles, morto durante um tiroteio com um bando rival. A reação da sociedade surpreendeu: o medo foi tamanho que a maioria das lojas não voltou a abrir, indo muito além do “ordenado”. Este retrato do abandono da população não deu margem a nenhuma CPI, discurso, ou seja lá o que for. No dia seguinte já não se falava mais nisso.

No sétimo dia três marginais armados saquearam um ônibus com 50 passageiros, à luz do dia, no meio de uma via movimentada, e fugiram andando pela rua. Andando. Nem precisaram correr.

Oitavo dia. Noticiou-se que traficantes estavam ameaçando metralhar e incendiar uma Companhia da Polícia Militar, em represália contra a prisão de um deles. Policiais declararam serem recebidos a tiros todos os dias ao chegarem para trabalhar. Parece incrível, mas esta notícia não mereceu sequer uma “chamada de capa”.

Nono dia, e anunciou-se o alívio para os policiais militares acima referidos. A Justiça soltou o traficante que estava preso, e toda a quadrilha comemorou com um alegre churrasco exatamente em frente à Companhia da Polícia. Os policiais, humilhados, não puderam fazer nada senão contemplar a comilança. E ficou tudo por isso mesmo!

No décimo dia, noticiou-se que os corpos de sete adolescentes foram encontrados dentro do porta-malas de um carro, e que uma quadrilha invadiu uma Universidade Federal para roubar as armas dos vigilantes. E tudo isto foi rotina. Mera rotina, nada mais do que rotina.

Comentei sobre os resultados desta experiência com diversas pessoas. De todas ouvi a expressão “é assim mesmo”, seguida de uma tentativa de mudança do tema da conversa para outro mais alegre. Pois é. Talvez seja a hora de nossas instituições começarem a discutir isto!

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Sobre o autor

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

* Pedro Valls Feu Rosa, desembargador desde 1994, foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no biênio 2012/2013.

Outros textos de Pedro Valls Feu Rosa.

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