Domingo, 30 de Abril de 2017

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A prisão de Garotinho e a Lava Jato como novo método

“O que fica claro – e não é a primeira vez – é que já não é mais a Lava Jato a única a levar políticos brasileiros de expressão para a cadeia. E é aí que os efeitos dessa cultura passam a se tornar imprevisíveis e incontroláveis do ponto de vista de alguma preferência política”

A prisão do ex-governador do Rio Anthony Garotinho na manhã desta quarta-feira (16) é mais um capítulo de algo que a gente vem dizendo por aqui já há algum tempo. A Operação Lava Jato pode ter erros, exageros e alguns de seus integrantes até podem mesmo ter motivações políticas específicas. Mas ela é uma investigação sobre determinado modo de relacionamento entre financiadores e financiados na política. Modo que permeia todo o sistema. Praticamente todos os partidos.

Praticamente todas as eleições. Estabeleceu-se padrão mais rigoroso de tolerância quanto a essas práticas. E, como cultura disseminada na Justiça de um modo geral, extrapola mesmo os limites da própria Lava Jato. Como aconteceu agora.

No caso, o que se investiga é um suposto esquema de compra de votos na cidade de origem de Garotinho e sua principal base política, Campos de Goytacazes. O esquema desviaria recursos de um programa municipal, chamado Cheque Cidadão. O benefício seria fornecido em troca de votos. Segundo a investigação da PF, o suposto esquema teria causado a explosão da base social do programa, elevando em mais de 100% em um ano o volume de benefícios. Garotinho é hoje o secretário de Segurança de Campos, e sua mulher, Rosinha Garotinho, que também já foi governadora do Rio, é a prefeita.

Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

Prisão de figurões da política sinaliza o caminho irreversível, registra Rudolfo Lago

O que fica claro – e não é a primeira vez – é que já não é mais a Operação Lava Jato a única a levar políticos brasileiros de expressão para a cadeia. E é aí que os efeitos dessa cultura passam a se tornar imprevisíveis e incontroláveis do ponto de vista de alguma preferência política por este ou aquele partido. As investigações seguirão, e as prisões acontecerão, na forma da convicção de cada juiz ou tribunal pelo país, dependendo só do foro do cidadão.

Caso a caso, as prisões vão levando a novos desdobramentos. Garotinho tem passagem por uma variedade impressionante de partidos – PMDB, PDT, PSB, PR… Sabe-se lá o que sabe sobre as tratativas – as republicanas e as não republicanas – em cada um deles. Sabe-se lá o que pode vir a contar caso se sinta inclinado a isso. E, emende-se aqui, negociar delações premiadas é outro aspecto na cultura inaugurada a partir da Lava Jato.

Não custa, então, repetir. Sendo um novo grau menor de tolerância com relação a certas práticas da relação entre financiadores e financiados na política, é mais do que urgente que os políticos parem de fazer cara de paisagem e embarquem de vez na discussão de uma nova forma de financiamento da sua atividade. Mais clara, mais transparente. Seguir tentando conter essa enxurrada, seguir tentando inventar anistias ou limitadores para a atividade policial, do Ministério Público e da Justiça, não vai resolver nada. Não vai haver cadeia pra todo mundo…

Texto publicado originalmente no site de Rudolfo Lago.

 

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Sobre o autor

Rudolfo Lago

Rudolfo Lago

* Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, atuou como jornalista especializado em política a partir de 1987. Com passagens pelas principais redações de Brasília, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor assistente da revista Veja, editor especial da revista IstoÉ e editor executivo do Congresso em Foco. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso em 2000 com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultou na cassação do senador Luiz Estevão.

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