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A internet das coisas, mas… e as pessoas?

"Mais de 53% da população mundial estão fora da rede, e esse percentual sobe para 75% se tomarmos a população da África isoladamente, e, no quesito riqueza, quase 85% da população dos países menos desenvolvidos estão off-line"

Clique abaixo para ouvir o comentário de Beth Veloso veiculado originalmente no Papo de Futuro, da Rádio Câmara, com Paulo Triollo:

O debate sobre a internet das coisas dominou a feira mais importante sobre tecnologia, que acontece sempre em março, em Barcelona, na Espanha. O Mobile World Congress é o delírio das gerações de nerds apaixonados por gadgets que falam, ouvem, cumprem ordens e abrem todo esse mundo novo da internet 5G, de quinta geração, que promete ser quatro vezes mais rápida que a atual, mas só deve chegar por volta de 2019.

O Mobile World Congress, de Barcelona, é o delírio das gerações de nerds apaixonados por gadgets que falam, ouvem, cumprem ordens e abrem todo esse mundo novo da internet 5G

Entre novos modelos de celulares, câmeras de fotografia com definição dez vezes maior do que as atuais e a febre pelos protótipos de carros não dirigíveis, o que impressiona mesmo é a briga das gigantes da internet por maiores fatias de mercado, como os planos do Facebook de colocar publicidade nos vídeos produzidos direto na rede, e dividir o lucro com o usuário, tudo isso para fazer da rede social uma grande plataforma de vídeo até 2020 e bater o YouTube.

O Brasil deve lançar até setembro o plano para a internet das coisas, ou seja, como o governo vai investir nas cidades do futuro com carros automáticos e milhões de equipamentos eletrônicos interconectados em nossas casas. Mas o que uma pesquisa feita pela revista The Economist junto com o Facebook¹ mostra é que o Brasil não vai bem no ranking mundial dos países mais conectados do mundo.

Encabeçada por Singapura, a lista avalia aspectos como disponibilidade de infraestrutura, usabilidade da internet conforme renda da população; a relevância do conteúdo nacional e o uso do idioma local na rede e a política de telecomunicações e o uso efetivo da rede pelo cidadão. E a posição brasileira é a de número 18 entre os 75 países com melhor desempenho no ranking geral, caindo para a posição de 31 quando se trata de confiabilidade e segurança da rede.

É interessante notar uma pesquisa da empresa OpenSignal² que avalia, por exemplo, que, na metade das vezes em que os telefones tentam encontrar uma rede de 4G no País, eles falham. E por isso que não dá para carregar as notícias da sua linha do tempo na rede social, por exemplo. Nem sempre o que é vendido, é entregue, a gente sabe das particularidades técnicas de uma rede descentralizada de telecomunicações, mas a instabilidade da rede móvel no Brasil é considerada a sua maior marca. Isso faz entender, por exemplo, porque o Brasil está em 21º lugar no critério disponibilidade de rede, e não apenas por ser grande como território, mas porque faltam políticas sociais para que a internet alcance a população de baixa renda.

O estudo permite comparar, por exemplo, o Brasil com a Argentina, que está três posições à frente em termos de uso, ocupando o 21º lugar. Entre as Nações mais conectadas do mundo, nesta ordem, estão Singapura, Suíça, Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coréia do Sul e França. O que mostra que, das mais de 5 bilhões de pessoas que terão celular em 2017, conforme estudo da Associação Global de Operadoras (GSMA) apresentados no congresso internacional de Barcelona, uma boa porção está nos países desenvolvidos.

As empresas que cuidam da infraestrutura de internet e seus aplicativos não sabem como preencher o enorme abismo de gênero, idade e desenvolvimento socioeconômico, abismo este que, segundo a UIT, União Internacional de Telecomunicações, só fez aumentar de 2013 a 2017 e que coloca o mundo diante do desafio de prover, até 2020, mais de 725 milhões de conexões somente na África.

Num documento intitulado “A pobreza é machista”, a conclusão é de que a utopia digital ainda não é para todos. Mais de 53% da população mundial estão fora da rede, e esse percentual sobe para 75% se tomarmos a população da África isoladamente, e, no quesito riqueza, quase 85% da população dos países menos desenvolvidos estão off-line, proporção esta que é de apenas 19% nos países ricos.

Por mais que as empresas exibam nos seus congressos objetos que falam, coisas que acendem e apagam sozinhas e celulares super hiper espertos, o grande discurso a ser enfrentado é o da velha e já quase esquecida inclusão digital. Na milionária feira espanhola e na letra da lei no Brasil, internet é para ser um direito de todos. Que assim seja!

¹ Disponível em: << https://theinclusiveinternet.eiu.com/ >>. Acesso em: 17 mar 2017.
² Disponível em: <<https://tecnoblog.net/206081/4g-brasil-2016-opensignal/ >>. Acesso em: 20 mar 2017.

Se você não concorda ou quer comentar, escreva para nós: papodefuturo@camara.leg.br

Coluna produzida originalmente para o programa Papo de Futuro, da Rádio Câmara. Pode haver diferença entre o áudio e o texto.

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Sobre o autor

Beth Veloso

Beth Veloso

* Jornalista e consultora legislativa da Câmara dos Deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia. Apresenta a coluna "Papo de Futuro" todas as terças-feiras, às 9h, no programa Com a Palavra, da Rádio Câmara FM.

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