Terça, 21 de Maio de 2013

Colunistas

A imprensa briga, os bandidos engravatados soltam foguetes

Nenhum jornalista que não se esforce em procurar os aspectos positivos e negativos do fato que observa e apura está exercendo honestamente a sua profissão

É difícil encontrar comportamento mais tolo do que ser maniqueísta. Tolo e com imenso potencial de ser perigoso. Qualquer criança de dez anos minimamente equilibrada já consegue começar a perceber que não há nada nem ninguém que seja totalmente bom. E que, em contrapartida, não há nada nem ninguém que seja mau em sua totalidade.

Se alguém ultrapassa essa idade acreditando sinceramente nisso, adota um comportamento cuja ingenuidade tem imenso potencial de perigo. É a chave para os preconceitos, irracionalidades, ódios e intolerâncias. Por conta de tais crenças, muita barbaridade já foi cometida ao longo da história. Aquele, porém, que ultrapassa os dez anos de idade sabendo que o mundo não é mesmo dividido entre mocinhos e bandidos, mas adota deliberadamente um discurso maniqueísta, porque ele convém a seus interesses, é imensamente mais perigoso que o ingênuo. São os manipuladores, os mistificadores.

O Brasil experimentou um significativo avanço durante a era Lula. Da estabilidade econômica herdada do governo Fernando Henrique Cardoso, Lula soube não apenas mantê-la, mas, a partir dela, fez o país atingir um estágio de desenvolvimento social nunca visto. Hoje, mais de 60% da população já se enquadra acima da classe média. O desemprego é baixo, e o país resiste muito bem a crises econômicas que atingem de forma bem mais forte países mais desenvolvidos, especialmente na Europa. De coadjuvante nas questões internacionais, o Brasil passou a ser um dos protagonistas, a partir de posicionamentos mais firmes, especialmente após o patrocínio da ideia de criação dos Brics. Se Lula atingiu patamares de popularidade nunca antes vistos e elegeu com facilidade sua sucessora, nada disso deve ser surpresa. É o justo reconhecimento que a população rendeu a seu governo.

Mas a era Lula não significou a passagem de um santo milagreiro pelo governo, que resolveu todos os problemas e nada mais deixou para ainda ser resolvido. Ainda continuamos muito longe de morar no paraíso. O país ainda padece de profundas mazelas. E uma das que mais nos causa prejuízo é a corrupção pública, o incalculável desperdício de dinheiro mal utilizado ou – pior – desviado, que desde sempre é regra. Lula não resolveu esse problema. E muitas vezes, ao contrário, contribuiu no sentido de banalizá-lo. Como, por exemplo, quando disse em Paris, numa reação às denúncias sobre o mensalão, que aquilo que se descobria era algo que “todo partido político faz, sistematicamente”.

Este colunista tem a profunda convicção de que qualquer análise que não compreenda os dois aspectos acima – a profunda mudança sócio-econômica ocorrida no Brasil nos últimos anos e o não enfrentamento que persiste dos maus hábitos da elite política nacional – é incompleta. E, incompleta, desinforma. Estão igualmente errados aqueles que só enxergam defeitos e os que só veem acertos na era Lula e na sua continuação com Dilma. Nenhum jornalista que não se esforce em procurar os aspectos positivos e negativos do fato que observa e apura está exercendo honestamente a sua profissão.

Seja por crença sincera seja pela conveniência, a verdade é que nos últimos tempos muitos veículos e jornalistas parecem ter resolvido trocar a prática da sua profissão pelo exercício maniqueísta de separar o país entre mocinhos e bandidos. Aí, sobram adjetivos e faltam fatos. Sobram opiniões e faltam análises. Falta equilíbrio, sobra torcida. Para completar o quadro, resolveram falar uns dos outros. Ao apontar os defeitos dos jornalistas do lado oposto, cometem defeitos iguais ou piores. O resultado final deve atender aos grupos políticos pelos quais optaram. Ao brasileiro comum, ao leitor, que não tem nada com isso, o que sobra, porém, é muito pouco, quase nada.

Não é que o exercício do jornalismo não mereça – e não precise – ser analisado, investigado e criticado. Merece e precisa. Desde que isso se faça de uma forma equilibrada, que não seja carregada de imprecisões, preconceitos e, principalmente, de interesses políticos não confessados. Assim faz, por exemplo, há anos o Observatório da Imprensa. O problema é que enquanto parte da imprensa ocupa-se justamente em fugir do equilíbrio, adota lados e ocupa a sua trincheira, aqueles que deveriam ser os verdadeiros alvos da investigação jornalística na Esplanada dos Ministérios riem à toa e soltam foguetes. Adoram essa situação, em que o publicado pode ser relativizado porque deixou de ser notícia para virar panfleto.

Felizmente, tal comportamento ainda não se generalizou. Se alguém quiser conhecer um pouco mais a respeito daqueles que comemoram e suspiram de alívio por terem sido deixados de lado para que jornalistas e veículos prossigam no exercício de se agredirem mutuamente, recomenda-se a leitura do novo livro do veterano repórter investigativo Lúcio Vaz, Sanguessugas do Brasil (Geração Editorial). Partindo do termo que se popularizou após a série de reportagens que ele publicou no Correio Braziliense sobre o esquema que desviava dinheiro de prefeituras para a compra de ambulâncias – o esquema dos Sanguessugas –, Lúcio Vaz comenta que todos aqueles que contribuem para roubar e desviar o dinheiro público, impedindo que ele efetivamente chegue à ponta das ações que o ainda pobre e desigual Brasil necessita, sanguessugas são.

São 12 histórias de corrupção e de desvios de dinheiro, ameaças e até assassinatos. Como repórter, Lúcio Vaz viajou por vários pontos do país para apurá-las e contá-las. São textos concisos. Ninguém vai encontrar adjetivos demais, nem exclamações ou discursos indignados. Até porque a indignação de quem lê virá dos fatos narrados. Como se espera de qualquer bom texto jornalístico.

Atualizada em: 08/06/2012 ás 9:08

Sobre o autor

Rudolfo Lago

Rudolfo Lago

* É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultou na cassação do senador Luiz Estevão.

Outros textos de Rudolfo Lago.

10 Comentários

  1. Há sanguessugas, é óbvio. E há carrapatos, pulgas, sarnas e até morcegos, todos indesejáveis desviadores dos dinheiros públicos, todos merecedores do repúdio de qualquer ser humano que faça por merecer o título. No entanto, o grande assédio, o enorme desfalque do patrimônio público, a sugação fatal do Estado é obra dos grandes vampiros nacionais e internacionais, os grandes financiadores das campanhas, os “donos do mundo”, organismos financeiros mundiais que submetem Estados e populações avançando sobre os orçamentos anuais, apoiados por leis espúrias criadas a seu mando, pois financiando campanhas mantêm o poder de criar leis que consolidam seu nefasto poder sobre a política, as comunicações e demais áreas estratégicas, passando pela energia, medicina, alimentação, transportes, segurança, enfim, submetendo toda a sociedade aos seus interesses – ao custo de milhões de vidas destroçadas, bloqueadas, desviadas e barbarizadas.

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  2. Cassiana disse:

    Nossa, Ufa! Não podia acontecer um texto tão especial e chamando à razão de outra fonte, a não ser a partir deste site e pela luz de Rudolfo Lago. Desde que começou a ganhar força em vários periódicos, revistas, redes sociais, etc. o estilo de textos de alguns jornalistas “denunciativo só se for contra a oposição dos que me partidarizo” fiquei horrorizada com tamanho desprofissionalismo de vários. À principio tentei contestar. Depois revidar (pela proximidade com alguns) e discutir tanto partidarismo praticado a quem, por principio, caberia investigar e informar os fatos em toda sua abrangência. Em vão, o resultado prático foi meu isolamento amargado por indignação com este comportamento. Brilhante Rudolfo! Informativo, inteligente e denunciativo EQUILIBRADO. Uma escolha de estilo e caminho a ser seguido quando se opta pela profissão, mas ultimamente pouco praticado… PS: E olha que passei boa parte da vida entre índios, gente que acredita no “bem separado do mal” de forma categórica

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    • Rudolfo Lago disse:

      Obrigado, Cassiana, querida. Nós, jornalistas, de um modo geral andamos devendo aos nossos leitores equilíbrio, honestidade, distanciamento, busca da isenção. Beijo!

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  3. Wilson Azevedo disse:

    Parabéns, RUDOLFO LAGO, pelo artigo equilibrado e isento. Isto tem ocorrido pouquíssimo em nossa imprensa e, certamente, o seu contrário não traz nenhum benefício para o Brasil, nem para os brasileiros.

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  4. Jorge Candor Silveira disse:

    Rudolfo, gostei muito do seu artigo, bem como dos comentários do Eduardo e da Cassiana, tanto que proponho que escrevas sobre as ditas campanhas eleitorais. Assim: nos municípios não há Tv para todos os candidatos à vereadores e nos nos estados não há espaço para todos os candidatos a deputados, tanto estaduais como federais, que tal então acabar com as verbas de tais campanhas e ressuscitar a antiga lei do Ministro Falcão e no horário eleitoral, publicar a fotinho e o “curriculum” do candidato. Pronto! Uma maneira prática, já que as promessas desses candidatos deverão ser apenas e tão somente a de fiscalizar o executivo e votar algumas leis e mais nada, pois oa mesmos nem de dinheiro para outra coisa tem. Tudo isso porque é sabido que a grande fonte da corrupção são as campanhas. Escreva sobre isso. Um grande abraço!!

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  5. Amaro de Souza disse:

    Jornalismo, é uma profissão que exige de quem a exerce um profissionalismo com isenção total; informar corretamente os fatos, são os fundamentos da profissão; não cabe amadorismo,. gostei do seu texto.
    Abraço,
    Amaro

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    • Rudolfo Lago disse:

      Agradeço ao Jorge e ao Amaro. Jorge, com certeza escreveremos muito neste espaço sobre as campanhas eleitorais até outubro. Sua sugestão está anotada!

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  6. José Alves Firmino disse:

    Nobre Rudolfo Lagos, parabéns pelas belissímas matérias

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  7. Jurandyr Bueno disse:

    Show de artigo

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