Colunistas

20 mil quilômetros por uma escritora

“Também sou a favor da meritocracia, de que as pessoas se beneficiem de suas capacidades, mas discordo terminantemente da maneira egoísta como Ayn Rand vê o assunto”

Tenho, como todo mundo, meus escritores favoritos e sempre que posso gosto de recomendá-los aos outros. Esse é, inclusive, um dos objetivos desta coluna, além, é claro, de estimular o hábito da leitura, que considero imprescindível. Vejo, então, com admiração o norte-americano Nick Newcomen, que, em 2010, rodou quase 20 mil quilômetros por 30 estados de seu país – de costa a costa –  para escrever uma mensagem, visível apenas pelo Google Earth, incentivando a leitura de sua autora favorita, a russa (naturalizada americana) Ayn Rand.

Para escrever a frase Read Ayn Rand (Leia Ayn Rand), Newcomen traçou no mapa a rota necessária e utilizou um aparelho GPS para gravar a frase, ligando-o na hora de escrever e desligando-o entre as letras. Após a viagem, Newcomen inseriu no Google Earth os dados gravados, resultando na imagem abaixo. “A principal razão por que fiz isso é por ser um fã de Ayn Rand. Na minha opinião, se as pessoas lerem seus livros e levarem a sério as suas ideias, o país e o mundo seriam lugares melhores”, justificou.

Ayn Rand (1905-1982) é conhecida principalmente pelo livro A Revolta de Atlas, recém-lançado no Brasil pela editora Sextante, com apoio do Instituto Millenium. Em uma pesquisa realizada pela Biblioteca do Congresso americano, em 1991, a obra foi considerada a segunda mais influente nos Estados Unidos, atrás apenas da Bíblia.

A Revolta de Atlas se passa em um mundo fictício, no qual todos os países tornaram-se repúblicas socialistas, com exceção dos Estados Unidos, que caminha para o mesmo destino. Em um cenário em que a intervenção estatal se sobrepõe à qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, os principais nomes da ciência, da indústria e das artes começam a sumir sem deixar pistas. O motivo? Estão cansados de, assim como o titã Atlas, carregar sozinhos o peso de um mundo decadente e serem explorados por burocratas improdutivos e incompetentes. A falta de mentes criativas faz com que o país chegue à beira do colapso.

No livro, a autora utiliza uma criativa história de ficção para expor um sistema filosófico criado por ela, o Objetivismo, o qual prega, a grosso modo, que o ser humano deve existir em função de seus próprios interesses, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele. Além do individualismo, outros princípios de sua filosofia são a racionalidade, a produtividade e a separação do governo da economia, religião, educação e ciência.

Não conhecia a Ayn Rand até o início do ano, mas após ler um artigo sobre a viagem de Newcomen decidi ler A Revolta de Atlas. Vale a pena a leitura? Com toda a certeza. Apesar de eu discordar de diversos pontos de vista da autora, o livro traz diversas reflexões interessantes. Uma delas é a importância da racionalidade, do uso da mente, do planejamento, sobretudo em um mundo no qual fazemos inúmeras coisas de forma automática, sem nenhum tipo de reflexão.

Também sou a favor da meritocracia, de que as pessoas se beneficiem de suas capacidades, mas discordo terminantemente da maneira egoísta pela qual a autora vê o assunto. Para Ayn Rand, as pessoas devem ter como retorno financeiro, social, profissional etc. apenas o que são capazes de produzir por si mesmas – a escritora é contra até dar esmolas. Isso poderia funcionar em uma sociedade utópica, na qual todos tivessem as mesmas oportunidades, mas não em um mundo (e um país) com tantas desigualdades como o que vivemos.

Sou também contrário ao capitalismo laissez-faire defendido pela autora, no qual o mercado funciona sem nenhuma interferência do Estado. Sou favorável a uma relação equilibrada entre o Estado e a iniciativa privada. Ayn Rand, anticomunista radical, tem razão em relação aos males do totalitarismo, mas pensar em uma economia sem nenhuma regulação é, na minha opinião, pura utopia.

Ayn Rand era radicalmente contrária até ao pagamento de impostos. Para ela, o Estado deve sustentar-se apenas com doações. Não consigo imaginar semelhante situação. Apesar de ser um pequeno empresário e pagar tributos que considero abusivos, acho que os impostos são essenciais. Reclamo de pagá-los simplesmente porque não vejo retorno, porque sou obrigado a pagar plano de saúde para todos da família, escola particular para os filhos, levar o carro à oficina porque a roda empenou após cair em um buraco nas rodovias mal conservadas deste país. E, sobretudo, porque boa parte do dinheiro dos impostos vai parar no bolso de corruptos que enriquecem à custa da pobreza do país.

Epílogo

Além de A Revolta de Atlas, que tem cerca de 1.200 páginas divididas em três volumes, Ayn Rand tem outro romance lançado no Brasil, A Nascente, da editora Landscape.

Livro citado

A Revolta de Atlas, de Ayn Rand (1957)

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Sobre o autor

Alessandro Mendes

Alessandro Mendes

* Graduado em Jornalismo e em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Brasília, é sócio-proprietário e diretor executivo da Azimute Comunicação. Foi capturado pelo hábito da leitura aos nove anos, com a coleção Vagalume e os livros da Inspetora, de Santos de Oliveira. Desde então, tornou-se leitor inveterado, dos que leem até bula de remédio e rótulo de produto. Apesar de ser jornalista, pai, marido, empresário e pai de três filhos, se esforça para ler, no mínimo, 50 livros por ano e não aceita de ninguém a desculpa de que não lê por falta de tempo.

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