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“Não somos Manés. Somos todos Garrinchas”

O estádio que virou monumento ao desperdício do dinheiro público na capital federal, o "Anjo das Pernas Tortas, o menor rio do mundo... Nicolas Behr revela a Brasília que começa com letra M

Mané Queriam mudar o nome, mas a cidade não deixou. Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Bonito por fora e lindo por dentro. Coliseu. Mas ficou muito caro, caríssimo. Tínhamos (e ainda temos) outras prioridades. Não somos Manés! Somos todos Garrinchas!

Manga Ela contou, e identificou, uma a uma, as árvores do Plano Piloto: são 15.187. Descobriu que a espécie mais plantada é a mangueira. Roberta Costa e Lima, autora de uma dissertação de mestrado. Na verdade, uma bela tese de amor por Brasília. (Aqui vale abrir parênteses: não, as flores das mangueiras da cidade não são esterilizadas para que não produzam frutos! Desde que aqui cheguei no começo dos anos 1970 eu ouço essa lenda urbana. Aliás, não é lenda, é mentira! Fecha parênteses).

Mapa Desenrole com atenção o mapa do Distrito Federal e um mundo antigo, cheio de histórias, se revelará aos seus olhos. Vamos ver. O córrego Capão da Onça, denunciando a presença do maior felino brasileiro, deságua no nosso maior rio, o São Bartolomeu, nomeado provavelmente em homenagem ao temível Anhanguera, bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva. Mais adiante, o ribeirão Santo Antônio da Papuda, que corta a fazenda da senhora que sofria de bócio, pois a falta de iodo no sal fazia aumentar o “papo”. Perto dali, o córrego Quilombo, nome por si mesmo revelador. Pros lados do rio Preto, os ribeirões Jacaré, Jiboia, do Lobo, do Urubu, Tamanduá… Córrego dos dois Valos, pois as fazendas, antes da chegada do arame farpado, protegiam suas criações construindo fundas valetas, valas. Já pros lados de Brazlândia, terra dos Braz, nomes reveladores das condições de potabilidade das águas: rio do Sal, córrego Salobrinho, ribeirão das Salinas e o preferido de todos: ribeirão Água Doce. Mais pro norte, o ribeirão do Ouro e os córregos Congado (manifestação cultural afro-brasileira), Cutia (mamífero roedor de pequeno porte), Sussuarana (a nossa onça parda) e Catingueiro (cervídeo sul-americano). E em vários locais o onipresente Olho d’Água. Já mais próximo do Plano Piloto, o córrego Acampamento, perto da Água Mineral, onde a Missão Cruls se alojou por meses, em barracas de couro, em 1892. Perto do ribeirão Engenho das Lajes, certamente funcionava um engenho de cana, produzindo melado, rapadura e cachaça. Lagoa do Jaburu, ave rara por estas paragens, anterior ao artificial Paranoá, palavra próxima de Paranaguá, de Paraná, de Paranã… Chapada da Contagem, entre o Colorado e o Lago Oeste, onde no século XVIII havia um posto fiscal para contar, ou seja, controlar os carregamentos de ouro e receber os impostos para a coroa portuguesa. Por ali passava a Estrada Real do Sertão, cortando o Parque Nacional de Brasília, o Distrito Federal pelo norte. Riacho Fundo, hoje tristemente assoreado, raso, que atravessamos a pé. Café-Sem-Troco, perto da insossa sigla pad-df. Lençol Queimado, próximo à Fercal, empresa dos primórdios de Brasília que explorava o ferro e o calcário. Taguatinga significa ”barro branco”, mas seus moradores, com dificuldade de o simbolizarem, preferiram o errado “ave branca”, mais fácil de ser representado. Guará, em homenagem ao nosso maior canídeo, o lobo-guará. Mestre d’Armas, um profissional que viveu onde hoje é Planaltina, provavelmente na passagem do século XVIII para o XIX, nome lugar. Para quem não acredita em nada disso, encontrei o córrego Mentira, que faz barra com o córrego Pindaíba, que, por sua vez, cai no ribeirão Sonhém, desaguando no rio Maranhão, partindo daí para o Tocantins. Um dia ainda vou lá verificar se o ribeirão é mesmo de verdade ou de mentira! Vale uma expedição. Quem topa?

Marco Zero Música de Paulo Tovar e Haroldinho Mattos: Quando não havia torre, lago ou rodoviária / Que o Eixão era somente uma forma imaginária / A ciriema cantava solene compenetrada / Vacas e bois ruminavam no meio da Esplanada / Partiu-se de um ponto / Traçaram-se as retas / Cruzaram-se os eixos / Riscaram-se os mapas / Somaram-se os números / Mediram-se os ângulos / Ligaram-se as máquinas / Rasgaram-se as ruas / Quando não havia ainda / Samambaia e Setor P / Quando lobos farejavam / Nos campus da UnB / E tatus faziam túneis / Muito antes do metrô / Tropeiros e comitivas / Arranchavam livremente / Onde se fez o Palácio / Onde se fez… a Rodô / Partiu-se de um ponto / Traçaramse as retas / Cruzaram-se os eixos / Riscaram-se os mapas / Somaram-se os números / Mediram-se os ângulos / Ligaram-se as máquinas / Rasgaram-se as ruas / Quando só havia mesmo / Este céu por testemunha / Quando tudo que se via / Era o vasto chapadão / Seguidores de estrelas / Caçavam pedras e índios / Muito antes de Ana Lídia / Ou da forma… do avião / Partiu-se de um ponto / Traçaram-se as retas / Cruzaram-se os eixos / Riscaram-se os mapas / Somaram-se os números / Mediram-se os ângulos / Ligaram-se as máquinas / Rasgaramse as ruas. // (Do cd H2Olhos, produção independente, 2002.)

Menor rio do mundo Sim, corre no Distrito Federal. O Rio Paranoá foi represado para formar o lago, todos sabemos. Da barragem até ele encontrar o Rio São Bartolomeu são exatos 9,5 km.

Minha Brasília É o filme sobre a nossa Brasília que mais se parece com este livro. Em vez do papel, a tela. Um passeio poético em que Carolina conversa com a mãe, a fotógrafa Luiza Venturelli. Vê fotos de quando era criança. Revêlugares, adulta. A direção é de Erwan Massiot. Fácil de ver. Mais fácil ainda de gostar.

Ministéricas Conjunto vocal composto por Lenina (Helena  Gurgel Pires), Lolô (Heloisa Gurgel Pires), Maria Mercedes dos Anjos Alvim e Tereza (Terezão) Sobral Rollemberg. Formado exclusivamente para atuar nos shows ao ar livre do Concerto Cabeças, as Ministéricas até hoje carregam um mistério: quem criou o nome? Dizem que foi este escriba e eu deixo que acreditem. Mas acho que foi o Renato Matos.

Missão Cruls Realizou o primeiro Relatório de Impacto Ambiental (rima) no mundo. Isso em 1894.

Mogno Jânio Quadros era presidente e eis que se aproxima o Dia da Árvore. Quer plantar pau-brasil na Esplanada. Mas onde, nesta Brasília inicial, encontrar mudas da nossa árvore-símbolo? Tem mudas de mogno no viveiro do zoológico. A informação chegou rapidamente até o ministro e tudo se resolveu. Os mognos em frente ao Ministério da Agricultura são, na verdade, paus-brasis disfarçados.

Museus Somos o maior museu de arte moderna, ao ar livre, em todo o mundo, aberto 24 horas. Desfrute. Mas preste atenção aos outros museus, institucionalizados, pois muitos deles, por incrível que pareça, fecham nos fins de semana. É como restaurante fechar pra almoço. Não tem explicação.

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Sobre o autor

Nicolas Behr

Nicolas Behr

* Nicolas Behr é poeta e dono da Pau-Brasilia viveiro eco.loja. Nasceu em Cuiabá em 1958, e vive em Brasilia desde 1974. Três anos depois, publicou seu primeiro livro mimeografado e nao parou mais. Foi redator publicitário. Fundou e trabalhou em ONGs ambientalistas. Casado, três filhos. Adora Brasília. Site: www.nicolasbehr.com.br.

Outros textos de Nicolas Behr.

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