Um divã para a sociedade brasileira

Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Wagner: “Desorientada, a sociedade ataca o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger. Um padrão típico dos casos de doença autoimune”

 

* Wagner Fraga Friaça

Certamente você já ouviu falar sobre as doenças autoimunes. São doenças muito difíceis de se reconhecer e diagnosticar. O resumo é o seguinte: o corpo humano está diariamente exposto ao ataque de perigosos “inimigos” – microrganismos como vírus, bactérias ou parasitas. Para se defender desses “inimigos”, o corpo possui um mecanismo de contra-ataque, que é o nosso sistema imunitário. As doenças autoimunes ocorrem quando há uma desorientação do nosso sistema imunitário que, em vez de atacar o “inimigo”, passa a atacar o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger.

Convido então você, nesta leitura, a fazer uma reflexão: estaria a sociedade brasileira acometida por algum tipo de doença autoimune?

No início do ano eleitoral de 2014 – mais precisamente, em março daquele ano – o Brasil foi sacudido com a divulgação da investigação de um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro que envolvia a Petrobras, as empreiteiras mais importantes do país e inúmeros políticos e partidos políticos brasileiros. Era o início da Operação Lava Jato, que desde então vem escancarando para nossa sociedade, com muita transparência, o diagnóstico da doença da corrupção dos políticos brasileiros e o processo de metástase que contaminou setores públicos e privados da nossa sociedade.

É claro que um diagnóstico correto facilita o tratamento e a possibilidade de cura de muitas doenças. Ou seja, conhecendo-se precisamente quem é o “inimigo” – quem é o agente invasor que ameaça o corpo –, temos condições de administrar o tratamento correto para extirpar a doença.

No caso da Operação Lava Jato, a contribuição para diagnosticar a causa da “doença” não deixou dúvidas: os políticos brasileiros, em todos os níveis da Federação, independentemente da coloração partidária, estão na raiz primária da corrupção. E o único antibiótico capaz de extirpar esse mal está nas nossas mãos, como eleitores. Somente unidos no objetivo comum de combater a invasão inimiga ao corpo da sociedade é que poderemos nos ajudar a sobreviver. E o remédio é o voto.

Mas, em vez de se preparar para o tratamento e cura da doença que a acomete – quem sabe em procedimento cirúrgico que já tem data marcada para o próximo mês de outubro –, o que tem feito a sociedade? Dividiu-se em polaridades antagônicas e, em vez de atuar unida como um sistema imunitário e atacar o “inimigo” do corpo da sociedade – o parasita causador da doença –, ataca-se mutuamente, munida de ódio inexplicável, sem perceber as sequelas que sofrerá e o risco de vida a que está submetida. Desorientada, a sociedade ataca o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger. Um padrão típico dos casos de doença autoimune.

O tratamento para doenças autoimunes é difícil e complexo. Há relatos de um caminho relativamente novo que tem se mostrado a cada dia mais promissor: a terapia, que em vez de tratar o efeito, procura neutralizar o mecanismo que leva ao problema.

Esse pode ser um bom começo para uma sociedade que insiste em se autodegenerar: o divã.

 

* Funcionário público do Senado Federal, pós-graduado em Marketing e Comunicação, publicitário e repórter fotográfico.

 

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