Vidas interrompidas na visão de uma cineasta

No ano de 2009, assim que retornei da França após exibição do meu primeiro longa-metragem “Para ficar de boa”, tive um reencontro inesperado com jovens que haviam participado do meu filme como protagonistas de suas histórias reais e comoventes. Nesse grupo de seis adolescentes participava uma jovem grávida.

Cerca de um mês depois, fiquei sabendo por um deles que, graças ao convívio com a equipe de filmagem, foi possível estabelecer um elo de confiança e aprendizado de ambas as partes. O rapaz me contou que conseguiu evitar um assalto em que a jovem grávida – aquela que fez parte do filme – serviria de “isca” nessa ação criminosa.

O que mais me tocou nesse relato foi que minha iniciativa tenha evitado – quem sabe – uma tragédia. Pode parecer um acontecimento banal, mas para aqueles meninos e meninas não! Um sentimento gigante de justiça foi incorporado à vida desses adolescentes.

Aquela notícia me motivou a dar início a uma nova jornada que seria encontrar uma “caixa baixa”, tal como chamam os jovens em cumprimento de medida socioeducativa.  Durante as filmagens do documentário, um garoto, que acabara de completar 12 anos, chegou para mim e falou como conseguiu comprar uma arma: “Troquei minha bicicleta por um vídeo game. Depois fui à feira, e barganhei o aparelho eletrônico por um revólver”. E continuou: “Há dois dias matei um cara.”

Ao ouvir seu depoimento pensei que poderia ser meu filho (sou mãe de dois, o Victor, de 22, e o Luís, hoje com 12 anos).

Meses depois, encontrei esse mesmo garoto. Não me surpreendi quando ele me disse que fazia parte de uma quadrilha de menores infratores. Fiquei atordoada, aperreada, como se diz no meu Sertão de Pernambuco. Não sabia o que fazer, pois não era apenas um, mas milhares seguindo esse caminho sem volta. Como resolver essa questão?

Outro relato que me impressionou e me empurrou para a reflexão foi daquele mesmo garoto que havia convencido os demais para não realizar o assalto a que me referi no início do texto, proferiu-me a seguinte frase: “Ei, Nubia. Arruma aí um trampo pra mim. Não quero voltar pro crime não, guerreira. Esses dias acordei na delegacia, os policiais dizendo que eu tinha matado um. Tô cansado do crime, véi.”

Olhei para o menino – que estava com a boca rocha de Rupinol (uma droga perigosa) – e pensei: como vou arrumar emprego para essa criatura?! Quem vai empregar um jovem recém-saído da medida protetiva e, ainda por cima, com aspecto de delinquente?! Eu daria um emprego a ele?? NÃO. Preciso encontrar uma saída, concluí.

Eu, sinceramente, não consegui dormir nesse dia. Saí da periferia, localizada a 16km do Plano Piloto, centro da capital federal, retornei ao Sudoeste, bairro onde resido, determinada a mudar a história desses jovens. Para mim, a arte seria o caminho, que poderia ajudá-los, pensei. Com a troca de signos -  a arma pela arte.

Uma luz verde acendeu e estabeleci como meta que montaria uma escola de Artes para esses meninos. Seis meses depois, conseguiria empregá-los, pois acreditava que todos poderiam mudar a partir de uma educação artística. Assim, dei início ao projeto NOTA 10. Inicialmente, pensei em trabalhar com 10 jovens de comunidades das periferias, com vidas interrompidas pela violência. A minha proposta seria transformá-los nos garotos NOTA 10.

Tive que enfrentar diversos obstáculos. Deparei-me com várias adversidades, inclusive, enfrentar uma guerra promovida por facções criminosos entre as quadras 10 e 14 da região do Riacho 1, no Distrito Federal. Digo que não foi fácil, mas consegui. Hoje, quatro desses jovens são meus maiores multiplicadores.

A regra para esses adolescentes é morrer – e não viver. O mesmo jovem que me pediu oportunidade de trabalho à época da filmagem do meu primeiro documentário foi preso no regime fechado, com pena de mais de oito anos no Complexo Penitenciário da Papuda, situado na região administrativa de São Sebastião, no Distrito Federal.

Depois de passar seis meses nas oficinas artísticas, trabalhando diretamente comigo a vida de Felipe, 26 anos, mudou. Hoje, cumprindo pena no semiaberto, trabalha na Secretaria de Economia do Governo do Distrito Federal, graças à oportunidade concedida pelo Projeto Nota 10.

Sinto-me tão orgulhosa do Felipe que muitas vezes me pego chorando de alegria. Ele é o grande responsável por eu ter descoberto minha MISSÃO. Nos tratamos por Mano e Mana.  O respeito e a gratidão que tenho por esse menino não se expressam em palavras. Só sei dizer que sou a pessoa mais feliz do mundo ao ter certeza que consegui tirar ele e vários outros de um mundo tão sombrio e devastador para muitas pessoas.

Saiba mais sobre o projeto no vídeo abaixo:

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