Sexta, 28 de Abril de 2017

O impeachment e o sistema jagunço: as veredas de uma narrativa

“A nossa história, o nosso cenário social, não é uma linha reta, contínua, em que não há riscos de não nos remetermos a tempos idos. Ela é um espiral, que progride, mas volta e meia retorna a referências do passado”, escreve jornalista

Bernardo Gonzaga Duarte *

Dentro do sertão de Guimarães Rosa existe um sistema político de se fazer justiça entre os sertanejos que é chamado de Sistema Jagunço. Ele se caracteriza pela força do coronel, aquele que detém as terras da fazenda, e, consequentemente, tem poder e domina a única forma de trabalho do sertão: o trabalho rural. Sendo assim, qualquer trabalhador que não gosta ou não concorda ou desafia o coronel da fazenda, é mandado embora junto com a família. Ou seja, o trabalhador rural agora virou um jagunço: aquele que vaga pelo sertão sem rumo, daí o nome desse sistema.

Segundo Maria Célia Leonel e José Antônio Segatto, “esse sistema envolve um conjunto de relações de dominação regidas pela violência ou pela coação, pelo clientelismo e pelo favor, pela preponderância do poder privado sobre o público, pela supremacia da tradição sobre a instituição”. Esse poder de dominar o outro, que o coronel detém nas fazendas, também existe dentro dos bandos de jagunços.

E ninguém pode questionar o mando do chefe, para isso, tem que ser feito um julgamento em conjunto, como aconteceu com Zé Bebelo, em Grande Sertão: Veredas, ex-líder do bando, que perdeu seu poder para o vaqueiro Medeiro Vaz e foi julgado pelo bando de Joca Ramiro.

Porém, Zé Bebelo não descumpriu ou desonrou sua liderança em nenhum momento. Ele foi tirado do bando por interesse dos jagunços em conseguir poder, para que o Sistema Jagunço não deixasse de reinar no sertão, como mostra a seguinte passagem do texto: “’O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei’. Zé Bebelo manteve a verve: ‘Velho é o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo’”.

E, dentro desse julgamento, há de se destacar dois personagens centrais do romance: Hermógenes (a personificação do diabo) e Zé Bebelo, o julgado. Que interferem diretamente no julgamento, se confrontando contra e a favor do réu. Como na passagem em que Hermógenes diz:

“Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos… Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!” (ROSA, 1994, p. 369)

E logo em seguida Zé Bebelo rebate:

“Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto…” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!…” (ROSA, 1994, p. 371)

Riobaldo, atento ao julgamento refletiu e observou:

“Rentes os do bando do Hermógenes chegaram a dar altas palavras, de calca pá. Questionou-se a respeito disso? Tinham barulhos na voz. Mesmo os chefes entre si cochicharam. Mas Joca Ramiro sabia represar os excessos, Joca Ramiro era mesmo o tutumumbuca, grande maioral. Temperou somente: – “Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo…” E era verdade. Todo o mundo concordou, pelo que vi de todos. Só para o nome-da-mãe ou de “ladrão” era que não havia remédio, por ser a ofensa grave.” (ROSA, 1994, p. 372)

Nessa passagem fica claro que o motivo real, da lei da jagunçagem, pela qual alguém pode ser retirado do bando e ir a julgamento, não foi cometido: que é xingar a mãe de alguém do bando ou ser ladrão. Ou seja, Zé Bebelo foi a julgamento por questionar a lei que ali reinava, isso fica evidente quando ele diz: “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo…”.

Esse Sistema Jagunço acompanha a história brasileira para além do sertão mineiro de Rosa. Ele está presente desde quando os senhores de terra, do Brasil imperial, repeliam as revoltas dos escravos, até, sobretudo, no ano de 2016 ao tirar uma presidente do poder por motivos que partiram de alianças políticas e manobras da oposição, o que ficou claro na votação do processo na Câmara dos Deputados, em que nenhum parlamentar da oposição citou as pedaladas fiscais como motivo de cassação do executivo.

Mas o Sistema Jagunço, como pode-se perceber, não é uma invenção de João Guimarães Rosa, é uma descoberta do autor de personificar a formação de nódulos sociais que estão presentes nas camadas mais conservadoras da sociedade ou de um determinado espaço dela. O Sistema Jagunço é a forma mais fácil e eficiente de se exercer o poder sobre o mais fraco e tratar quem discorda das leis em vigor.

Porém, a nossa história, o nosso cenário social, não é uma linha reta, contínua, em que não há riscos de não nos remetermos a tempos idos. Ela é um espiral, que progride, mas volta e meia retorna a referências do passado. Por isso, não é de assustar, que nas manifestações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, também havia pessoas que pediam a volta da Ditadura militar, e outras, até mesmo, a volta da monarquia. Mas, independentemente dessas referências ao passado, a nossa história é feita no presente. Sobretudo, ela é feita de travessias.

* Bernardo Gonzaga Duarte é jornalista e mantém o blog reflitaqui.wordpress.com, no qual publica textos sobre política e literatura

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