Morte de caminhoneiro seria como acender fósforo em depósito de pólvora

Uma amiga de longa data cobrou-me no Facebook um posicionamento sobre a tal greve dos caminhoneiros. Expliquei que, desde o primeiro momento, fiquei dividido entre aplaudir o exemplo de luta que estava sendo dado neste momento de abulia e prostração nacionais, de um lado; e, do outro lado, receoso de que houvesse mais no quadro do que os olhos estavam vendo (lembrando o belo hino roqueiro My My Hey Hey, do Neil Young).

O diabo é que os caminhoneiros andaram amiúde sendo joguetes dos poderosos, tendo desempenhado, por exemplo, papel infame na derrubada do presidente chileno Salvador Allende, quando, financiados pela CIA, cruzaram os braços e causaram um terrível desabastecimento, para enlouquecer a classe média e predispô-la a apoiar o pinochetazo que breve seria desencadeado.

Ademais, pelo menos os comandados por Ramiro Cruz Jr. (uma das lideranças da categoria) mobilizaram-se em apoio ao impeachment de Dilma Rousseff, o que tinham todo direito de fazer como meros cidadãos, mas não era exatamente uma pauta de caminhoneiros.

Também fiquei ressabiado com o fato de não ser um movimento de trabalhadores lutando contra a exploração que todos os assalariados sofrem, mas sim de pequenos empresários em busca de vantagens para si e para os grandes empresários do transporte. Eles nunca quiseram descortinar um caminho para o povo, mas, apenas, abrir um atalho pelo qual só eles (e os vilões ocultos por trás deles) passariam.

Por último, desde sempre sou contrário aos movimentos e manifestações que extrapolam seu alvo e atingem quem nada tem a ver com suas reivindicações, como uma forma de chantagem contra aqueles a quem querem pressionar.

Ainda mais neste caso: o desabastecimento em si já seria mais do que suficiente para vergar o fraco governo de Temer à vontade dos caminhoneiros, então qual a necessidade do pandemônio nas rodovias?

Numa concepção de esquerda, entre os principais objetivos de quaisquer iniciativas está sempre o de trazermos a população para o nosso lado, não o de impor-lhe transtornos e sacrifícios que a fazem antipatizar conosco.

Enfim, como nunca me senti confortável em cima do muro, agora me defino: vejo o locaute dos caminhoneiros, principalmente, como um movimento exclusivista na sua essência e perigoso na sua execução.

Não se trata de alarmismo. É que parte dos bloqueadores de estradas estão se recusando a honrar os acordos que suas entidades representativas estão fechando com as autoridades. Se insistirem, haverá violência. E, morrendo algum caminhoneiro, o efeito será o mesmo de acender-se um fósforo num depósito de pólvora.

Neste momento, quem está preparado para capitalizar o caos são nossos inimigos da extrema-direita, não nós. Os principais contingentes da esquerda continuam obcecados com o pleito de outubro, como se eleger presidente fosse conduzir a classe operária ao paraíso num país em que o poder econômico destitui presidentes quando quer e como quer.

Então, insisto: é hora de prepararmos nossos efetivos para podermos, adiante, travar confrontos com a mínima possibilidade de nos sairmos bem. Há muito tempo deixamos de fazer a lição de casa como se deve, então ela está bem atrasada agora.

Enquanto não dispusermos de tais efetivos, será temerário e irresponsável estimularmos confrontos.

Ainda mais se for para metermos o nariz no que não é da nossa conta, pois, como já destaquei acima e como bem define o Elio Gaspari na sua coluna dominical, o que está acontecendo não é uma greve de caminhoneiros, mas sim uma doce parceria dos ditos cujos com os grandes empresários do setor de transporte de cargas…

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