Haddad, Jânio Quadros e o aburguesamento da companheirada

Péssimas perspectivas para 2017? Nem tanto. Pelo menos, muitas ilusões nefastas foram varridas de cena. Podem me qualificar de esnobe, mas nunca em minha vida dei real importância às administrações municipais. Isso, claro, se deve às minhas convicções revolucionárias, que descartam totalmente a resolução dos verdadeiros problemas do povo por quaisquer governos sob o capitalismo.

O pecado original não está no número de buracos das ruas, na rede insuficiente de transporte coletivo ou na corrupção desembestada. Está na organização de toda a sociedade sob o primado da desigualdade e da ganância, ao invés da colaboração solidária de todos os cidadãos para o atendimento das necessidades humanas.

Alguém poderá atirar-me na cara a frustrada candidatura para vereador paulistano em 2012. Tratou-se mesmo (mea culpa) de uma péssima iniciativa, à qual fui levado por pessoas em quem confiava e que não cumpriram os compromissos assumidos comigo. Desperdicei uns oito meses por conta da minha ingenuidade e do meu voluntarismo.

Sim, pois só entrei em tal roubada por acreditar que, denunciando de forma competente as mazelas da Prefeitura, qualquer que fosse o prefeito (seria, necessariamente, um político de grande partido e eu era inimigo de todos eles!), ajudaria o Psol a crescer e aparecer.

Fernando Pereira/Secom/SP

"Jânio Quadros? Eneas? Tiririca? Não: Fernando Haddad"

Nem em sonhos eu me via apresentando projetos de iluminação ou asfaltamento. Queria é, usando a tribuna da Câmara e meus contatos com jornalistas, provocar muito barulho sobre medidas impopulares e interesses escusos que estivessem vicejando (talvez fosse melhor dizer brotando como cogumelos…) na gestão do burgomestre da vez; e não identificava, nas candidaturas do Psol, ninguém melhor do que eu para cumprir tal tarefa.

Ou seja, meu mandato de vereador teria sido uma guerrilha permanente contra os poderosos, tentando causar-lhes o máximo de desmoralização, constrangimentos e questionamentos jurídicos.

Percebi, contudo, que nem mesmo o Psol estava disposto a ir tão longe na hostilização dos podres Poderes; afinal, retórica à parte, queria também deles participar (obtendo nacos cada vez maiores!).

Então, no mesmo dia da derrota eleitoral, já decidi: política oficial, nunca mais! Afinal, desde meus longínquos anos de movimento secundarista eu já sabia que a democracia burguesa não passa de um jogo de cartas marcadas, cujo crupiê é o grande capital. Tive de reaprender a lição depois de velho…

E, como a política revolucionária quase não estava existindo no Brasil, conclui que, antes de mais nada, seria preciso construirmos uma esquerda de verdade no Brasil, de vez que o PT se tornara apenas outra força auxiliar do capitalismo.

Venho há quatro anos fazendo tudo que posso para que a esquerda brasileira reassuma a luta de classes e volte a encarar como inimigos irreconciliáveis o capitalismo e a burguesia. É uma batalha dificílima, pois a domesticação e o aburguesamento já avançaram muito entre a companheirada.

De qualquer forma, algo de auspicioso há neste início de 2017:

  • está em cacos a ilusão petista majoritária, de que a burguesia lhe permitiria atuar indefinidamente no gerenciamento do capitalismo, sem poder para alterar uma vírgula sequer daquilo que afeta os interesses dos verdadeiramente poderosos mas podendo cuidar a bel-prazer das ninharias do varejo (agora, nem este papel vexatório lhe resta!);
  • está em cacos a ilusão de esquerdistas chiques, de que conseguiriam humanizar o monstro capitalista por meio de pautas ecológicas, iniciativas contra as várias formas de preconceito e um sem número de besteirinhas politicamente corretas.

O caso do agora ex-prefeito paulistano Fernando Haddad é exemplar quanto ao segundo item. À maneira de Dilma Rousseff, logo depois de tomar posse, ele jogou no lixo todo o plano de governo trombeteado durante a campanha eleitoral, alegando inviabilidade econômica (ou seja, ou lançara palavras ao vento para enganar trouxas ou não sabia nem calcular com exatidão receitas e despesas…).

Centrou, então, o marketing do seu governo em factoides à maneira do folclórico Jânio Quadros (outro que bolava artifícios espertos para bombar no noticiário, mesmo quando não dispunha de recursos orçamentários para obras de vulto): medidas altamente discutíveis na área do trânsito, aplaudidas quase sempre por cidadãos que não enfrentavam dia sim, outro também, o tráfego pesadíssimo da hora do rush.

Quem dele não tinha como escapar ficava arrancando os cabelos com a morosidade extrema do tráfego nas marginais e o desperdício de parte do leito de vias já saturadas, das quais foram retirados espaços para pistas de ciclistas pelas quais raríssimas bicicletas se aventuravam nos dias úteis (o sensato seria tais pistas serem ativadas apenas nos feriados e fins de semana).

Previsivelmente, obteve apenas 17% dos votos na tentativa de reeleição, tendo a acentuada rejeição a seu governo sido o motivo principal da vitória do antípoda João Dória já no 1º turno.

Moral da história: reduzir temporariamente algumas injustiças e desumanidades menores do capitalismo não adianta, basta o governo mudar para tais conquistas serem esvaziadas ou revogadas.

É o capitalismo em si que temos de superar, dando um fim definitivo à exploração do homem pelo homem. Caso contrário, continuaremos patinando sem sair do lugar, como estivemos fazendo durante toda a era petista, ora nos estertores.

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