Feliz 2018, mas cuidado com os salvadores da pátria

“Há sempre uma boa dose de patifaria por trás de qualquer discurso de salvação da pátria. Historicamente, a radicalização na política não promoveu coesão social nem fortaleceu a democracia em qualquer parte”, adverte auditor do Tesouro Nacional

Antonio Barros *

Terminado um ano que valeu por vários, sem descanso forças políticas já se organizam para a disputa que se avizinha. Posicionamentos antecipados demonstram a emergência do momento, que se desdobra em dois grandes movimentos: a política tradicional tenta convulsivamente reunir as energias dissipadas pelos efeitos da Lava Jato e uma nova liderança quase invisível se estrutura, ainda totalmente desconhecida do país.

Tradicionalmente, os acordos necessários à governabilidade incluem favores, conchavos, muito dinheiro público e a consequente perda do caráter republicano do Estado. Se o cidadão comum dá mostras de não tolerar mais isso, negar a política parece itinerário necessário à conquista do poder. Esse “purismo” retórico implica radicalização dos discursos.

A máxima parece ser “não se suje, nunca converse com os de lá, não faça política”. Mesmo os políticos de sempre se apresentam como o novo, a aparição virginal que agora nos redimirá. Ao mistificar suas imagens e priorizar a preservação da espécie, condenam a política como meio de construção da vida social. Não é ela, em si, a culpada, mas o uso que dela fazem.

Esse acirramento de posições nos impõe desafio nacional: resistir aos extremismos que ganham apoio e simpatia apaixonados, mas são meras expressões irrefletidas de rejeição ao “outro lado”. Não é prudente combatê-los na mesma medida, como se a resultante representasse alguma posição mais ponderada do conjunto da sociedade ou uma média dessas forças. Isso não tem ocorrido sequer nas democracias parlamentaristas europeias.

Por aqui, cada pessoa que se deixar contaminar pelo discurso de aversão ao outro e escolher um polo da disputa para “lutar”, apenas despertará reação equivalente de signo invertido no espectro ideológico e reforçará a polarização.

Há, no entanto, milhões de brasileiras e brasileiros ávidos por uma alternativa consistente, de diálogo e cooperação para a superação das nossas mazelas. Eles não querem se deixar levar por radicalismos obscuros que não dizem o que planejam fazer mas o que pretendem destruir. Querem participar do processo, não querem mais ser espectadores da vida social. As manifestações dos últimos anos comprovam.

É papel, portanto, dessa nova liderança que se forma mostrar caminhos possíveis. Está mais que madura a oportunidade histórica de construirmos solidariamente um ambiente democrático que promova a produção de riquezas, com liberdade, inclusão social e respeito à cultura e ao meio ambiente. Por que não avançamos?

O embate no campo da educação talvez explique nosso método para o frequente fracasso. Jogamos milhares de pequenos cérebros fora todos os anos ao defendermos cegamente e de forma intolerante pontos de vista absolutamente não excludentes. Não tem havido espaço nesse debate para a produção de políticas de libertação da inteligência brasileira, aprisionada anos a fio por um sistema educacional que reproduz preconceitos da esquerda e da direita.

Formação do senso crítico, assimilação da produção cultural simbólica e preparo técnico da força de trabalho não são incompatíveis, mas complementares. O despertar do pensar depende mais de um ambiente livre de intolerâncias que de outras condições, mormente materiais. Países mais pobres conseguiram realizar suas transformações educacionais e culturais ao mesmo tempo e em duas ou três gerações. O principal motor dessas mudanças? Um projeto central mínimo que atraísse suficiente apoio político ou simplesmente a ausência de falsas incompatibilidades paralisantes.

Enquanto a tecitura social se esgarça flagrantemente, intensificada pela falta de de arrefecimento das tensões por um parlamento que enfrenta a maior crise de representação da sua história, o nível do debate político cai a profundezas abissais. Nessa atmosfera, não há motivos para duvidar do evangelho: ninguém pode servir a dois senhores. O discurso do antagonismo maniqueísta, folhetinesco, fortalece aparentes dicotomias e consolida, mesmo que efemeramente, um poder político baseado em oportunismos.

Todos os que ao longo do tempo se beneficiam desse expediente sabem muito bem disso e, sem pudor algum, trocam a qualificação do debate e a formação política do brasileiro por esse atalho para o poder. Há sempre uma boa dose de patifaria por trás de qualquer discurso de salvação da pátria.

Historicamente, a radicalização na política não promoveu coesão social nem fortaleceu a democracia em qualquer parte. Serviu para inibir as possibilidades de um debate franco, mesmo que diverso e difícil. A escalada desse processo, aliada a elementos contextuais de crise e desconfiança mútua, pode levar à guerra – nem sempre metafórica. Enquanto flertamos com o imponderável, o que está em jogo não é apenas a perda do diálogo social, mas a nossa consolidação democrática.

Certamente, construir pontes é muito mais difícil. No entanto, a produção de consensos é a missão primordial da verdadeira política. Somente com a participação qualificada da população, sem prerrogativas nem privilégios, será possível construir de fato um regime democrático estável, que garanta liberdade e direitos para todos.

Ninguém nega o papel histórico das ideologias, mas está na hora de ir além dos esquemas limitantes do nosso pensar. Podemos aplicar nossas energias para saber que nação queremos ser e usar a experiência dos últimos anos para compreender se o que aprendemos nos levará adiante ou nos condicionará a esse embate estéril. Sairemos mais fortes – todos nós – dessa crise civilizatória?

A disputa começou. É hora de pensar em escolhas. Feliz 2018! Ele já chegou.

* Antonio Barros é auditor do Tesouro Nacional, presidente do Observatório Social de Brasília, Lemann fellow e empreendedor cívico RAPS.

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