Da juventude na sociedade do consumo

Bruno Duailibe *

Atento às inúmeras modificações às quais assistiu no curso de seus 91 anos, o já saudoso Zygmunt Bauman partilhou com clareza as características do homem e do mundo contemporâneo. Para ele, vivemos numa sociedade líquido-moderna, cujos membros estão sempre apressados em obter os produtos que lhes oferecem bem-estar e a descartar rapidamente aqueles que já não mais os satisfazem como outrora. Não há tempo para a solidificação da relação e as realizações pessoais não devem ser perenes, já que se modernizam de modo constante, de acordo com novas e imprevisíveis necessidades, desejos ou impulsos.

Nesse modo líquido de viver, todos estão voltados para o tempo presente, negligenciando o que virá, a ponto tal que o citado sociólogo em entrevista divulgada em 19 de fevereiro de 2014, na página eletrônica da Revista Época, afirmou que poderíamos falar no “fim do futuro”. É que, na exata medida em que somos protagonistas e agentes do hoje, deixamos de pensar na virtuosidade de nossa conduta e de agir para alcançar um projeto de sociedade.

Assim deduzir não é exagerado, se pensarmos que as características da sociedade-líquida são reforçadas para as gerações que chegam à sociedade consumista e que devem estar plenamente integradas a ela quando atingirem a idade adulta. Bauman explica que, para tanto, as crianças contemporâneas são moldadas, desde o berço, para serem consumidores ávidos e informados que atenderão à necessidade de incentivar as relações de consumo para além de propulsionar o crescimento econômico.

Atingir tal fim não é difícil quando as crianças observam seus pais e passam a ser concebidos como seres conscientes e capazes de escolher por um marketing especializado que está pronto a estimular incessante insatisfação e novos desejos. Como resultado, o mercado de produtos infantis se expande e meninos e meninas passam a influenciar diretamente no que será consumido pelos seus genitores.

Por outro lado, à proporção que são estimuladas a perceber que precisam obter um produto para ser um tipo determinado de pessoa, passam a se sentir inadequadas socialmente quando não conseguem obtê-lo, já que o ser, a felicidade e a dignidade humana encontram-se diretamente relacionados à capacidade de ter bens de consumo. Não é difícil supor que, alfim desse processo cíclico de consumismo, os laços emocionais e de formação de identidade sejam atrelados a objetos e marcas.

E na base da pirâmide social, os efeitos das garras da sociedade líquida não são menos perversos. Os jovens excluídos sentem-se desvalorizados no meio social e carregam o estigma de uma vida sem realizações, sem significado e sem prazer. Com o incremento dos objetos de desejo que passam a rodeá-los, podem ainda nutrir sentimentos de raiva, humilhação, incitando o impulso de destruir o que não podem ter. Porém, no mais das vezes, os excluídos são ignorados. O mesmo ocorre com outros estilos de vida, os quais também podem ser julgados como repulsivos e dolorosos.

O ângulo estreito por meio do qual a maioria dos membros da sociedade consumista enxerga a vida não permite que se vislumbre mudanças sociais, nem que se perceba que o ritmo imprimido pelo mercado fatalmente conduzirá à exaustão dos recursos disponíveis, com débitos incalculáveis para o meio ambiente e para os frenéticos consumidores que habitarão o mundo.

Essa preocupante visão de Bauman, descrita em “Vida líquida” (Zahar, 2009) e tecida igualmente em “Sobre educação e juventude” (Zahar, 2013), não dever ser, contudo, motivo para desespero. É que, segundo mencionou na citada entrevista de 2014, falar e escrever sobre as características da sociedade pós-moderna não expressava pessimismo, mas o olhar de um homem esperançoso.

Tanto assim que entendia que a juventude poderia tomar as rédeas desse curso, recuperando o interesse e a atenção para os aspectos comuns da vida e portando-se de forma diferente do modo como a maioria se comporta, através de uma “revolução cultural” capaz de gerar plena libertação da indução às compras e aos gastos. Na composição desse cenário, a educação, sempre ela, continua a exercer o papel dominante de preparar os jovens para a realidade que terão que enfrentar, tornando-os conscientes quanto ao adestramento que sofrem e desenvolvendo mentes menos obtusas aos fragmentos de informação que circulam essencialmente pela rede de computadores.

Pensando fora do círculo vicioso do estilo de vida líquido, esses jovens poderão vislumbrar que a coexistência humana e a vida social constituem o bem comum para, assim, semear as soluções dos problemas criados na sociedade do consumo. Eles podem até ser poucos, imperceptíveis, invisíveis no começo até, porém, se direcionados por um propósito comunitário, poderão, quem sabe, construir um futuro para a maioria.

 

* Advogado. Graduado pela Universidade Federal do Maranhão. Pós-Graduado em Direito Processual Civil no ICAT-UNIDF

Continuar lendo

Publicidade Publicidade