Segunda, 27 de Março de 2017

Colunistas

Os medicamentos que matam

“Um a cada dez pacientes sucumbe não enquanto vítima do câncer, mas devido a medicamentos ministrados. O fato é que as drogas e radioterapias atualmente disponíveis acabam por fragilizar o sistema imunológico do doente, que fica vulnerável a infecções”

Dia desses, lendo o respeitado jornal britânico Telegraph, descobri uma interessante matéria sobre a quantidade de pacientes de câncer que morrem devido ao tratamento naquele país.

Segundo apurou-se, um a cada dez pacientes sucumbe não enquanto vítima do câncer, mas devido a medicamentos ministrados. O fato é que as drogas e radioterapias atualmente disponíveis acabam por fragilizar o sistema imunológico do doente, que fica vulnerável a infecções e moléstias outras.

Cumpre registrar que somente foram utilizados nesta pesquisa casos nos quais o óbito ocorreu por conta exclusiva de um único fator absolutamente independente – ou seja, que em nada se relacione com o câncer.

Este quadro – o do tratamento que mata o doente – me trouxe à memória o combate ao tráfico de tóxicos. Segundo um relatório divulgado pela ONU, 200 mil pessoas morreram durante o ano de 2007 em função do uso de drogas ilícitas – maconha, cocaína, heroína etc.

Eis aí, sem qualquer sombra de dúvida, uma doença social a merecer tratamento. Não podemos assistir passivamente a tamanho morticínio. Como não deveríamos nos omitir diante das cinco milhões de vidas que perdemos a cada ano só por conta do vício de fumar, e bem assim dos 2,5 milhões de óbitos decorrentes do álcool – são, afinal, 7,5 milhões de semelhantes nossos que morrem por conta de substâncias claramente indutoras de dependência química, a despeito de absolutamente legais.

Mas fiquemos com aquelas 200 mil que morreram por conta das drogas ilícitas. São elas, evidentemente, causa de preocupação. E por conta disso nossa geração tem testemunhado uma verdadeira guerra contra os traficantes – este tem sido o tratamento prescrito.

O México, por exemplo, disponibilizou nada menos que 80 mil agentes da lei para combater os traficantes. Pois bem: entre dezembro de 2006 e dezembro de 2011 nada menos que 50.285 mexicanos perderam a vida nesta guerra – quase o mesmo índice dos EUA, país no qual calcula-se que a cada ano sejam perdidas 16.425 vidas e US$ 52,3 bilhões em conflito similar (dados de 2007).

Na Colômbia, ao custo de US$ 7 bilhões, a intervenção norte-americana na guerra ao tráfico já acarretou alguma coisa em torno de 50 mil vidas humanas

Aqui mesmo, no Brasil, 56,12% dos assassinatos tem ligação direta com o tráfico. Os mortos, em sua maioria, são jovens pobres entre 15 e 25 anos de idade – uma perda triste para um país que busca o desenvolvimento.

Diante deste quadro, não é de se estranhar a ponderação recente do ex-ministro e parlamentar britânico Bob Ainsworth, no sentido de que “a guerra contra as drogas tem sido um verdadeiro desastre”, e que é chegada a hora de serem discutidas novas opções.

Sugerindo que “os políticos e a imprensa deveriam se empenhar em uma discussão séria e genuína”, ele recordou a tragédia dos 13 anos de proibição do consumo de bebidas alcoólicas nos EUA para concluir em seguida que “após 50 anos de proibição global é hora de os governos elevarem o debate” sobre a grave questão das drogas ilícitas.

A quem achar que esta seja a conclusão de um só, segue uma declaração formal da Comissão Global sobre Políticas de Drogas: “A guerra global às drogas falhou, com consequências devastadoras para as pessoas e sociedades ao redor do mundo”.

Talvez, afinal, com razão William S. Burroughs, segundo quem “fizeram da droga algo ilegal e, ao mesmo tempo, fizeram indústrias milionárias da droga em ambos os lados da lei”.

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Sobre o autor

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

* Pedro Valls Feu Rosa, desembargador desde 1994, foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no biênio 2012/2013.

Outros textos de Pedro Valls Feu Rosa.

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