Vaga na Câmara comprada com material de construção

Gravação mostra que vagas de copeiro na Câmara podiam ser compradas até em troca de material de construção

Gravação mostra que vagas de copeiro na Câmara podiam ser compradas até em troca de material de construção

Eduardo Militão
A gravação de uma conversa entre funcionários da Câmara mostra que o esquema de venda de vagas de terceirizados, revelado pelo Congresso em Foco, permitia várias formas de pagamento. Além dos tíquetes-alimentação, a despesa poderia ser quitada até com material de construção e mão-de-obra de pedreiros e pintores para a ex-funcionária terceirizada Patrícia Guedes Silva, acusada de comercializar as vagas na Casa.


Tudo está documentado com notas fiscais, segundo áudios como o trecho reproduzido abaixo. São duas conversas obtidas pelo site, que somam 37 minutos e 16 segundos e estão divididas em cinco arquivos digitais. A pedido da fonte que repassou os áudios, o Congresso em Foco só publica as transcrições das conversas, para evitar a identificação de um dos interlocutores.







Trecho da gravação

FUNCIONÁRIO X – Não, meu, a Patrícia tem o rabo preso com você não. (…)
SEVERINO ARAÚJO – É mesmo? Quem botou 60 metros de cerâmica na casa dela? (…) Eu comprei e botei. Quem botou? Quem pintou a casa dela? (…) Você vem falar pra mim: “Ela não tem rabo preso comigo”! (…)
FUNCIONÁRIO X – Você pintou a casa da mulher. Você botou cerâmica na casa dela. E aí? É rabo preso? (…)
SEVERINO – E o Rogério entrar aqui? (…) Tudo teve preço [inaudível] e eu anotei. Entendeu, pô? Eu tenho nota fiscal [som de palmadas na mão] da Madecon, entendeu? Tenho a nota fiscal [som de mais palmadas na mão]. O Luís pedreiro foi quem botou. O Zé Maria foi quem pintou. (…)Tudo tem rabo preso aqui.

Procurada pela reportagem, Patrícia reclamou de “perseguição” e não fez novos comentários.  Em entrevista, o garçom Severino Garcia de Araújo negou suas próprias declarações gravadas em áudio, ao dizer nunca ter comprado vagas.

Como mostrou o Congresso em Foco, a Polícia Legislativa da Câmara investiga um esquema de venda de vagas de garçons e copeiras na Casa. Patrícia foi indiciada pelos policiais por estelionato. Ela é acusada por duas ex-funcionárias de receber de R$ 1.000 a R$ 3.500 para contratar servidores terceirizados e de desviar copeiras da Câmara para lhe prestarem serviços particulares.
 
Na primeira conversa, no início de março deste ano, o nome de Patrícia não é dito. Severino, funcionário do Anexo II da Casa, e seu interlocutor referem-se apenas a “ela”. O garçom diz que pagou a “ela” o equivalente a R$ 4 mil ou mais pelas vagas de um filho identificado apenas como Rogério, que trabalhou na Câmara, e da filha Fernanda Freitas de Araújo, que atua no Anexo III. O problema é que Rogério foi demitido depois, o que irritou Severino.


Revestimento e pintura


Na segunda conversa, o nome de Patrícia é mencionado. Ela acontece depois da primeira reportagem do Congresso em Foco, publicada em 17 de junho. O garçom Severino diz que bancou uma obra na casa de Patrícia, que foi a encarregada geral dos 800 terceirizados na Câmara mantidos pela empresa Unirio Manutenção e Serviços Ltda. Severino afirma que pagou 60 metros quadrados de pisos cerâmicos, além da mão-de-obra de um profissional para colocar o revestimento e outro para fazer pintura.


Na gravação, o garçom diz possuir nota fiscal da loja para comprovar tudo. Em determinado momento, faz menção a um cheque assinado que “ficou lá.” O garçom assegura que não foi apenas um favor prestado a Patrícia. Explica que o motivo da obra realizada foi o emprego para seu filho Rogério: “E o Rogério entrar aqui?”. Severino afirma, com irritação, que a então encarregada geral tem “rabo preso” com ele.


“Muito burra”


Neste trecho da gravação feita em março, o garçom Severino diz que o preço pago ficou em torno de R$ 4 mil pelo menos. E afirma que “ela” é “muito burra” porque o garçom sabe de tudo. Em outros trechos das gravações, Severino cita nomes de pessoas que compraram vagas.


FUNCIONÁRIO X – Tu sabe, todo mundo sabe que ela vende vaga ali.
SEVERINO – Isso, pronto.
FUNCIONÁRIO X – Tu já tá sabendo…
SEVERINO – Todo mundo sabe desde o começo. Mas ela é muito burra. Ela sabe que eu sei de tudo e ela [inaudível] na hora. Pra mim, ou ela é doida ou é burra demais.
FUNCIONÁRIO X – O que eu sei de nome de gente que pagou vaga. A mulher do Genésio é um…
SEVERINO – Todo mundo vendeu, todo mundo vendeu. Eu paguei pra Fernanda, pra Rogério entrar. Todo mundo
FUNCIONÁRIO X – Mas tu pagou muito?
SEVERINO – Paguei, paguei.
FUNCIONÁRIO X – Mil reais cada um? Mil?
SEVERINO – Ficou uns quatro mil ou mais…


Ainda na mesma conversa de março, mas um pouco antes de revelar o preço pago, o garçom Severino diz como foi sua conversa com “ela” para readmitir o filho Rogério, que, mesmo depois de pagar para entrar na Câmara, acabou sendo dispensado da empresa. O funcionário mostra que a reclamação com Patrícia aconteceu ainda este ano, já na gestão da empresa Unirio – que sucedeu a Capital Empresa de Serviços Gerais Ltda na prestação de serviços para o Legislativo.


SEVERINO – Busquei lá embaixo e [inaudível] e falei: “Ó, a partir de hoje, a partir de hoje, eu só falo com você, quando você fichar o Rogério. Eu só vou dar pra você bom dia e boa tarde”.
FUNCIONÁRIO X – Pra você fichar o Rogério?
SEVERINO – É, é. [inaudível]  Hoje faz… Segunda-feira faz oito dias, segunda-feira faz oito dias que eu cheguei pra ela e falei: “Ó, A partir de hoje, eu só falo com você quando você fichar o Rogério seja onde for. Eu não sou otário, não, tá entendendo?”…
FUNCIONÁRIO X – Ela tava só?
SEVERINO – …Ela: “Estou”. “Ó, a partir de hoje, eu só falo com você quando você fichar o Rogério. Eu só vou dar bom dia e boa tarde porque é minha obrigação, tá bom?”. Ela: “Tá bom”.
(…)
SEVERINO – Quem fichou ele aqui? Ela. Quem tirou ele daqui? Ela. Então, ela tem muito [inaudível]. Eu tô errado?


Na segunda conversa, após 17 de junho, Severino fica irritado ao confirmar que Patrícia tem “rabo preso” com ele.


FUNCIONÁRIO X – Não, meu, a Patrícia tem o rabo preso com você não.
SEVERINO – Hein?
FUNCIONÁRIO X – A Patrícia tem o rabo preso com você não.
SEVERINO – Tem não?
FUNCIONÁRIO X – A Patrícia não.
SEVERINO – É mesmo?
FUNCIONÁRIO X – Poder vir Vanilson. Ela tá c* e andando pra você.
SEVERINO – É mesmo? Quem botou 60 metros de cerâmica na casa dela?
FUNCIONÁRIO X – Quem?
SEVERINO – Quem foi que botou?
FUNCIONÁRIO X – Tu é ceramista?
SEVERINO – É.
FUNCIONÁRIO X – Tu corta cerâmica?
SEVERINO – Eu corto. Eu comprei e botei. Quem botou? Quem pintou a casa dela? Foi você? Foi o Vanilson [José Vanilson, encarregado da Unirio]? Você não sabe nada.
FUNCIONÁRIO X – Não, não, uai. Mas, mas…
SEVERINO – Você vem falar pra mim: “Ela não tem rabo preso comigo”!


Na sequência, o interlocutor desafia Severino a mostrar qual a relação entre a obra e alguma irregularidade. E o garçom ainda acrescenta que possui documentos para comprovar o que diz, citando o nome de uma loja chamada de Madecon:


FUNCIONÁRIO X – Tu pintou a casa da mulher. Você botou cerâmica na casa dele. E aí? É rabo preso?
SEVERINO – É não?
FUNCIONÁRIO X – Não…
SEVERINO – E o Rogério…
FUNCIONÁRIO X – …Podia não ser.
SEVERINO – E o Rogério entrar aqui? O Rogério da…
FUNCIONÁRIO X – Ah, você botou pra…
SEVERINO – Aaaaaaah, você não sabe o que está falando, não!
FUNCIONÁRIO X – Não, agora entendi.
SEVERINO – Não, não entendeu foi nada. Tudo teve preço [inaudível] e eu anotei. Entendeu, pô? Eu tenho nota fiscal [som de palmadas na mão] da Madecon, entendeu? Tenho a nota fiscal [som de mais palmadas na mão]. O Luís pedreiro foi quem botou. O Zé Maria foi quem pintou. O Luís pedreiro [inaudível]. Eu tô calado. Tudo tem rabo preso aqui.


Severino faz comentários ofensivos a Patrícia e seus familiares pouco antes de citar a existência de um cheque assinado.


SEVERINO – Todo mundo sabe que ela é. Eu tenho é dó dela. Eu não. Meu salário é mil reais mesmo. Entendeu o que eu tô falando? Esse cheque assinado, esse cheque ficou lá.


O interlocutor do garçom diz que Patrícia pode mandar ele embora da empresa. “Vai ver vai te mandar embora depois”, diz o colega do garçom. Mas Severino desdenha dessa possibilidade e afirma saber de tudo.


SEVERINO – Ela não manda de jeito nenhum. Você é doido. Eu acho que você é doido. Como ela vai mandar o [inaudível] embora? Ou eu, que sei tudo? Eu tinha pago… Se ela pedir prova, eu tenho. Se ela pedir nota fiscal dos materiais, eu tenho, de tudo.


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