Quinta, 24 de Julho de 2014

“Governo nunca quis negociar com servidores”

Em entrevista ao Congresso em Foco, Pedro Delarue Tolentino, um dos principais líderes da greve do funcionalismo, argumenta que carreiras estão sem reajuste há quatro anos

Unafisco

Segundo Delarue, há categorias com reajustes defasados há quatro anos

O governo federal mascara a realidade salarial no país e enrola na negociação da greve. A opinião é do coordenador da União das Carreiras Típicas de Estado (UCE), Pedro Delarue Tolentino, um dos principais líderes da greve do funcionalismo público, que já reúne cerca de 350 mil servidores em todo o país. A UCE congrega 22 categorias e um universo de 80 mil servidores – 50 mil da ativa e 30 mil já aposentados – que formam as principais carreiras do funcionalismo, como diplomatas e auditores fiscais, o caso de Delarue.

Leia a íntegra da entrevista de Pedro Delarue Tolentino
Greves poderão chegar também à iniciativa privada

Em entrevista exclusiva concedida ontem (quarta, 22) ao Congresso em Foco, o líder de classe critica a forma com que o Planalto tem lidado com o movimento grevista. Segundo ele, o maior problema é que o governo não tem reajustado os vencimentos dos funcionários públicos todo ano, como deveria. “Se isso acontecesse, estaríamos pedindo reajustes de 5%”, argumenta. Como há, segundo Delarue, um acúmulo de inflação não reajustada de quatro anos ou mais, as categorias têm reivindicado reajustes maiores. Para o servidor público, em vez de fazer comparações com salários da iniciativa privada, o governo deveria comparar o que ganham os servidores públicos com os vencimentos pagos em estatais como a Petrobras.

“Vão descobrir que o funcionário da estatal ganha muito mais, mas muito mais, do que o do setor público. Talvez isso seja uma realidade que esteja interessando ao governo esconder neste momento. Vamos fazer uma comparação do salário do servidor público com, por exemplo, o de um funcionário da Petrobras. Você vai ver que a massa salarial da Petrobras está muito acima”, provocou o auditor fiscal, que também é presidente do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco Nacional) para o biênio 2012-2013.

De dois em dois dias

A paralisação dos auditores foi decidida há uma semana, na última quarta-feira (15), em assembleia nacional. À meia-noite desta quinta-feira, a depender dos acontecimentos, a categoria pretende interromper a greve geral. Mas não sem antes explicitar uma espécie de aviso ao governo: “Depois da pausa de dois dias, os auditores federais voltam a cruzar os braços na próxima terça-feira (28) e quarta-feira (29)”, adverte a UCE em sua página virtual.

Segundo Pedro, a transparência no funcionalismo é só um dos elementos que podem demonstrar a “maquiagem” feita pelo Planalto. Como resposta às críticas pela paralisação de sua classe em todo o país, ele diz que os auditores “não viraram as costas”, mas recorrem a uma operação-padrão ainda mais minuciosa em termos de fiscalização. E a culpa, diz, é do governo. “O governo demorou a negociar, enrolou na negociação. Na verdade, não queria fazer a negociação, e isso foi o que desencadeou toda essa reação que, agora, se vê nas ruas”, observa.

Para o presidente UCE, não procede a tese de que os auditores querem avançar sobre o restrito orçamento à disposição do governo Dilma. O auditor também refuta a qualificação feita por Dilma de que a greve do funcionalismo é uma greve de “sangue azul”, dado o valor dos salários que ganham. “Trata-se de uma declaração impensada”, rebate.

Reajuste “inconcebível”

Os auditores querem recomposição salarial de 30%, retroativa e anual, de 2008 para cá. Segundo Pedro, a contrapartida considera apenas conceder reajuste segundo a “inflação futura”, com 15% de reajuste divididos em três parcelas nos próximos três anos.

“Se há carreiras pedindo 151%, aí é problema de cada carreira, especificamente. Nós, auditores fiscais, não estamos pedindo isso. O que estamos pedindo, na verdade, só recompõe a inflação dos últimos anos”, diz Pedro.

Leia a íntegra da entrevista

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