Eduardo Bolsonaro: “Se o STF absolver todos os corruptos, eu apoiaria qualquer quebra de legalidade”

Sylvio Costa/Congresso em Foco

"Se minha mãe é sequestrada, eu pego o cara e tiro o fígado dele pela boca até ele contar", diz deputado

 

Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), 33 anos, elegeu-se deputado federal em 2014, primeira eleição que disputou, graças à popularidade do pai. Com Jair Bolsonaro impedido pelo regulamento de participar da disputa do Prêmio Congresso em Foco 2017, por responder a acusações criminais no Supremo Tribunal Federal, foi – na votação pela internet – o destino dos votos da família e daqueles que apostam em soluções autoritárias e conservadoras para enfrentar os dilemas nacionais. Foi escolhido o melhor deputado, na avaliação popular com larga frente sobre o segundo colocado, Jean Wyllys (Psol-RJ).

<< Entre aqui para comprar a Revista Congresso em Foco

Contra a violência, endurecimento de penas, liberdade para portar armas e mais presídios. Contra a frouxidão dos costumes, o modelo disciplinar de igrejas e quartéis. Contra a corrupção, rigor judicial e, se ele falhar, intervenção militar. A pregação levou Eduardo a ter mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais (o pai tem mais de 5 milhões) e a se tornar o deputado mais votado na internet, na votação do prêmio neste ano.

Segundo ele, os militares não têm apego ao poder, mas agem quando se sentem provocados. “O cidadão paga o imposto, o político rouba o imposto e o Judiciário absolve o corrupto. Aí eu apoiaria qualquer quebra de legalidade, na verdade não seria legalidade, seria um ordenamento jurídico a favor de um sistema corrupto”, defende. Eduardo Bolsonaro é um dos 13 premiados entrevistados pela Revista Congresso em Foco, cuja nova edição já pode ser acessada em sua versão digital. As entrevistas são apenas uma parte do conteúdo do novo número. Abaixo, os principais trechos da entrevista (caso prefira, acesse a íntegra).

<< As frases polêmicas de Jair Bolsonaro

A que o senhor atribui essa votação expressiva no Prêmio Congresso em Foco?

Eduardo Bolsonaro – Ao meu pai, obviamente, e ao fato de ele pisar fora do politicamente correto. O que a gente mais escuta hoje é “vocês falam tudo que a gente queria falar e não consegue, quando fala nas redes sociais é rechaçado”. O povo se sente representado. São mais até do que apoiadores porque eles vestem a camisa Bolsonaro mesmo e se indignam quando alguém fala mal. São muito ativos, e é um público descrente com a política nacional. Eles nos enxergam como se fôssemos eles aqui: uma pessoa de fora do sistema, que não é metida em escândalos de corrupção. O policial, por exemplo, que sofre processos injustos, olha aqui a gente tomando processo também e passa a ser Bolsonaro. É isso que dá margem a essa onda toda conservadora. Inclusive até mundial, é o Trump, Macri, a Marine Le Pen, que não ganhou na França, mas fez uma boa bancada no Congresso.

Fora do sistema, fora do politicamente correto e sem acusação de corrupção. São essas as três razões principais da força do deputado Jair Bolsonaro?
Eu colocaria só mais uma, que é a pauta de segurança pública sem o viés deturpado de direitos humanos. É o caso que eu sempre cito lá do menorzão Ezequiel, que arrastou o menino João Hélio no Rio de Janeiro durante quilômetros e ganhou, quando saiu da Fundação Casa, uma ida para a Europa com a sua família porque dizia que estava sendo perseguido aqui no Brasil.

E qual é a solução para a violência?
Acredito muito no exemplo de Rudolph Giuliani em Nova York. Nova York era uma cidade como o Rio hoje. As pessoas acreditavam que não havia mais solução. E o Giuliani chegou com a política que ficou conhecida como tolerância zero.

O senhor acha que a política do Rudolph Giuliani incluía desrespeito aos direitos humanos?
Com certeza, não. Havia uma estratégia, que é a nossa também, de enrijecimento das políticas penais. Para isso você precisa investir pesado em presídio. Não sou a favor de presídio superlotado. É claro, o cara tem que sofrer, tem que perder a liberdade, mas tem que haver condições para o agente penitenciário trabalhar. Mas a gente não prega, por exemplo, tortura. Não, ninguém é a favor de tortura. Agora, a questão da tortura remete sempre à questão do regime militar, puxa o Ustra, que não tem nenhuma condenação transitada em julgado. E que todo mundo que fala foi torturado por ele não apresenta as marcas e cicatrizes.

Então o senhor acha que o Brilhante Ustra não torturou?
Não. Se eu for na Papuda [presídio de Brasília], a maioria dos presos vai falar que foi torturado. Eu não duvido que possa ter ocorrido excesso. Se a minha mãe tivesse sido sequestrada, você acha o quê? Eu ia pegar o cara e tirar o fígado dele pela boca até ele contar. “Ah, é direito dele ficar em silêncio”. Não, ele cometeu o erro! É direito dele falar onde é que está o refém. Eu estou dando um exemplo extremo. Tem direito do preso? Tem, mas ele não tem direito de manter alguém encarcerado. E aí a decisão é dele. Aí, para mim, já é guerra.

Mas a lógica que se aplica a indivíduos pode ser aplicada ao Estado? O Eduardo cidadão talvez exploda eventualmente, em determinadas circunstâncias, extremadas. O que se espera, na civilidade democrática, é que o Estado aja com o equilíbrio necessário, dentro da lei. Se o Estado começa a torturar…
Na teoria é muito bonito, mas quem representa o Estado são os seres humanos. Pode ter certeza que não era uma política de Estado torturar, eu não acredito nisso. Pode ter havido? Pode, óbvio, assim como hoje. Eu vou negar que a polícia às vezes pode pegar um cara e torturar? Eu só estou falando que eu entendo os dois lados. O Estado é representado por pessoas, e as pessoas têm sentimentos, às vezes exageram também.

Em que a defesa dos direitos humanos prejudica o combate à criminalidade? Os países que mais respeitam os direitos humanos são também os que têm menos criminalidade? Onde há menos violência, menos homicídio? No Japão, na Escandinávia, na Alemanha, na Inglaterra…

A gente tem que chegar ao nível desses países. O que tem ocorrido no Brasil? O cara rouba, rouba, rouba, e depois é solto. Ou o cara comete latrocínio, dia seguinte responde em liberdade. Eu não sou contra os direitos humanos. Sou policial. Em hipótese nenhuma eu podia admitir que um cara algemado, alguém chegasse e metesse a porrada no cara. Quer meter a porrada no cara, solta pelo menos ele, faz um mano a mano aí, pô. Brincadeira gente, calma! Mas a política de direitos humanos no Brasil é muito exagerada. Certamente, pessoas com visão de direitos humanos vão querer condenar o policial se ele der mais de dois ou três tiros no criminoso, em uma troca de tiros. Por exemplo, eu vi a Mídia Ninja falando que mais de cem tiros é execução…

E não é?!
Claro que não. Na troca de tiros, você só para de atirar quando o seu oponente cai. O cara está com uma arma na mão atirando em você. Não tem como você exigir de um cidadão, qualquer que seja, qualquer que seja o treinamento dele, que ele dê dois tiros na perna, que ele dê um tiro ali na parte do tórax, não tem como. Eu digo para você, eu fiz uma das melhores academias de polícia do Brasil, que é a da Federal aqui. A gente dá 1.200 tiros. No final do curso, um professor de tiro falou: “Vocês estão preparados para ir para uma situação sensível agora, e ter que sentar o dedo em alguma coisa?”. Ninguém levantou a mão. Na hora que o couro come você vê o instinto de sobrevivência aflorado. Não tem como você exigir dele essa questão de excesso de legítima defesa. E finalizo aqui com o caso da Ana Hickmann. O sujeito entrou no hotel, maluco da cabeça, com uma arma. Ele ia, com certeza, matar a Ana Hickmann. O cara rolou no chão com o cara, deu dois tiros na cabeça. O MP está falando que foi excesso, está pedindo a punição dele por homicídio. Uma pessoa que, na minha visão, é um herói, salvou a cunhada e a esposa, está com risco de ir para a cadeia. Essa é a visão crítica dos direitos humanos.

Deputado, e o discurso na entrega do prêmio defendendo a ditadura militar?
Eu chamo de regime militar, mas tudo bem. Pode chamar de ditadura.

Esse ponto parecia resolvido na história do país. Havia um entendimento, inclusive dos líderes militares, de que a forma mais adequada de organizar uma sociedade politicamente é a democrática…

Nós preferimos o regime democrático. Quem retornou com esse tema foram a Dilma Rousseff e a Comissão Nacional da Verdade. Eu nasci em 1984. Agora, eu não posso permitir que se esculhambe, que se tente reescrever a história com a visão só de um lado. Se fosse uma Comissão da Verdade mesmo, metade indicada por militares, metade indicada pelo pessoal que lutou contra o regime. O que aconteceria? Se chegaria a um relatório final com duas versões. No caso do prêmio, eu ia fazer um discurso moderado, light. Ia falar do produtor agrícola, da questão do professor, do policial. Só que, depois de ver alguns parlamentares sendo premiados, subindo e falando em fascismo, falando isso e aquilo, levantando pautas ideológicas, eu pensei: “Se eu não for vaiado aqui, não vai ser vitória”. Tinha muito psolista indicado, muitas pessoas de esquerda na plateia, então recebi as vaias com muita satisfação. Foi a certeza do dever ter sido bem cumprido. E até agradeço por terem me assegurado a palavra.

O senhor defenderia a adoção da ditadura no cenário de hoje?
Hoje em dia não, porque a gente está passando por um momento de provação, em que estão sendo testadas as instituições. Se as instituições falharem, aí é outra história. O que seria falhar? Escândalos de corrupção, provas contundentes, e o STF absolver todos os corruptos, todos, realmente, não tem como a população pagar o imposto e passar o recibo de trouxa. Isso seria o fechamento do sistema perfeito. O cidadão paga o imposto, o político rouba o imposto e o Judiciário absolve o corrupto. Aí eu apoiaria qualquer quebra de legalidade, na verdade não seria legalidade, seria um ordenamento jurídico a favor de um sistema corrupto.

Com intervenção militar?
Se o STF absolver todos esses corruptos, vai ocorrer com certeza uma comoção, não tenha dúvida disso. O povo vai às ruas não é para botar um regime de direita, nem de esquerda não. É para quê? Para tirar os corruptos. Aí eu apoiaria sim, pela manutenção da lei e da ordem, de acordo com o artigo 142 da Constituição, uma intervenção militar que depois garantiria eleições gerais sem a participação desses corruptos. Aí com certeza eu apoiaria. Você apoiaria um sistema onde você paga o imposto, o político rouba e o Judiciário absolve? Não tem como.

É o discurso do general Mourão.
As pessoas se impressionam muito porque ele é militar, é general, mas o militar não quer o poder. Isso aqui é um abacaxi. Isso que o meu pai está fazendo é coisa de louco, o que ele envelheceu nos últimos quatro anos aqui não é brincadeira. Para pegar uma presidência? Para quê? Para ter mais dor de cabeça ainda.

Por que tentar resolver os problemas de uma democracia que é jovem com soluções fora do campo democrático?
A solução para a democracia é menos democracia ou é democracia de melhor qualidade? Devolvo a pergunta. Será que se vive em um sistema democrático quando um cidadão paga imposto, o político rouba o imposto e o Judiciário absolve o corrupto? Se o Executivo e o Legislativo ficam vendidos e o Judiciário passa a mão na cabeça deles, está fechado o sistema perfeito de corrupção. Para quebrar isso, infelizmente, não vai ser eu, você e mais um outro que vamos nos reunir e colocar isso adiante. Tem que ser à força.

A história mostra que os regimes mais corruptos são os regimes autoritários: China, Rússia, ditaduras africanas…
Mas a China veio de um sistema comunista que abriu agora para o capitalismo. A China é reconhecidamente um dos países mais corruptos do mundo. Prosperidade e corrupção não são necessariamente antagônicas. Você parece que não ouviu a delação do Emílio Odebrecht falando que foi só os militares saírem do poder que começou a pouca vergonha, começou a venda. E aí a gente vai ter um confronto aqui de visões. O militar, no meu entendimento, ia devolver o poder para o povo muito mais recente. Quando a esquerda radicalizou, eles não tinham a estabilidade política para devolver o poder. Quando eles tiveram estabilidade política para devolver o poder e realizar novas eleições, eles o fizeram. Aqui não teve ditatura. Vai falar que o falecido Kadafi, o Bashar al-Assad, a família Castro querem ou queriam democracia? Será que o Maduro vai entregar de bandeja para o povo o poder, como os militares fizeram aqui em 1985?

Não entregaram de bandeja, deputado. A população foi às ruas, teve diretas já, teve resistência… chegou um momento que não era mais possível manter o poder.
Se os militares não quisessem entregar o poder, o que a população ia fazer? Nada. Ia fazer manifestação, eles iam matar todo mundo. Ia continuar tendo manifestação, ia continuar matando todo mundo, que é o que ocorre hoje com a Venezuela. Só que os militares têm a visão democrática, por isso que entregaram para o povo. Agora está o povo aí tendo bilhões desviados, graças ao pessoal que lutou contra a ditadura, entre aspas, militar. Es- tão hoje no poder e estão sendo aí presos de novo, corrupção de novo.

Não houve ditadura, na sua opinião?
Não houve. Na minha visão, eles se anteciparam a um golpe de esquerda muito claro, e colocaram um sistema que não era o comunismo, a ditadura do proletariado que todos os grupos defendiam. Ocorreu uma disputa de poder entre dois grupos, e um grupo se antecipou ao outro.

<< Entre aqui para comprar a Revista Congresso em Foco

<< Militares não têm afinco pelo poder, diz filho de Bolsonaro. Veja a íntegra da entrevista do deputado à Revista Congresso em Foco

Continuar lendo

Publicidade Publicidade