Dinheiro atribuído a Geddel compraria 20 apartamentos no prédio de luxo que o derrubou do governo

Divulgação

Projeto da vista da piscina do La Vue Ladeira da Barra, prédio que foi pivô da demissão de Geddel da Secretaria de Governo no ano passado

 

Os R$ 51 milhões encontrados em malas e caixas atribuídos ao ex-ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) nessa terça-feira (6), em Salvador, poderiam bancar até 20 imóveis de luxo no prédio pivô de sua saída do governo. Cada unidade do La Vue Ladeira da Barra, localizado em área tombada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) está avaliada em R$ 2,6 milhões. Já a cobertura, em R$ 4,7 milhões.

Geddel caiu do ministério em novembro do ano passado, depois que o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, pediu demissão, acusando-o de pressioná-lo a intervir no Iphan para liberar a construção do edifício, no qual, segundo ele, o peemedebista tinha um apartamento. Na ocasião Calero contou que o presidente Michel Temer sugeriu a ele que atendesse o pedido de Geddel.

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No “bunker” atribuído ao ex-ministro foram encontrados R$ 42.643,5 e outros US$ 2.688. Essa é a maior apreensão em dinheiro vivo na história do país. A descoberta foi feita após investigações da Operação Cui Bono, que resultaram na Tesouro Perdido, determinada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília.

Em julho, a PF recebeu por meio de um telefonema anônimo a informação de que o ex-ministro escondia “provas ilícitas” em caixas de documentos em um imóvel no bairro da Graça, em Salvador. O apartamento pertence a Silvio Silveira, amigo do ex-ministro. A PF passou mais de 14 horas contabilizando, por meio de máquinas, o dinheiro apreendido, trabalho que só acabou na madrugada desta quarta (6). Os R$ 51 milhões também pagariam pelo menos 54 mil salários mínimos – cujo valor em 2017 é de R$ 937.

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A cara da riqueza

Projeto do salão de festas do edifício La Vue

O imóvel que guardava a fortuna em nada se compara com o majestoso prédio de 106 metros de altura que resultou na saída de Geddel do governo. O projeto do La Vue Ladeira da Barra tem 24 andares, incluindo uma cobertura duplex. Com um apartamento por andar, cada imóvel tem 259 metros quadrados (são dois tipos de planta), com exceção da cobertura, que tem 450 metros quadrados. São quatro quartos, todos suítes, e vaga para quatro veículos. Dois pavimentos do prédio são reservados para área de lazer e outros três, para garagem.

O espaço de lazer inclui piscina de adulto com raia de 20 metros, deck molhado, piscina infantil, quadra, espaço gourmet, fitness com vista para o mar, spa, salas de massagem, sauna e jogos, brinquedoteca, bar, entre outros ambientes. Na cobertura, há piscina privativa, no primeiro andar do duplex, e elevador exclusivo para o segundo piso.

Em novembro, uma corretora que já havia vendido apartamentos no prédio disse ao Congresso em Foco que apenas seis das 24 unidades (uma por andar) ainda estavam disponíveis para negociação. Os demais já haviam sido vendidos.

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Preocupação com empregos

Um dos dois modelos de planta baixa do imóvel de 259 metros quadrados

Ao justificar seu interesse na continuidade das obras, Geddel admitiu que tinha assinado uma promessa de compra e venda de um imóvel no prédio, mas atribuiu o seu interesse no caso à geração de empregos.

“Em 2015, eu fiz uma promessa de compra e venda de uma unidade que estava lançada, sem nenhum problema, com todas as licenças colocadas e que vários outros adquiriram uma unidade de apartamento. O que não me tira, me dá legitimidade para levar a ele um problema por conhecer o que estava ocorrendo, estar preocupado, como todo cidadão fica preocupado em uma situação dessa. O que fica muito distante de pressão indevida. Tanto que o que prevaleceu foi a posição dele”, declarou à Folha de S.Paulo. O jornal também revelou que sócios do então ministro em um restaurante na Bahia têm ou tiveram relações com a empreiteira responsável pela obra em Salvador.

Patrimônio histórico e cultural

Em construção na avenida Sete de Setembro, o La Vue Ladeira da Barra ocupa um terreno de 1.625 metros quadrados e é composto de uma única torre que, segundo o Iphan, o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-BA) e o Ministério Público Federal, fará sombra sobre cartões-postais de Salvador na região da Barra. Os prédios vizinhos, também de alto padrão, têm até dez andares.

Pelo projeto arquitetônico, para que todos os moradores tenham a privilegiada vista da Baía de Todos-os-Santos, o primeiro apartamento do La Vue está situado apenas no sexto andar. O edifício está localizado ao lado de pontos históricos como o Forte de São Diego, a Igreja de Santo Antônio da Barra e o Cemitério dos Ingleses.

Imagem projetada do prédio de 106 metros de altura

O prosseguimento da obra, iniciada em 2015, dependia da autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. De acordo com Calero, o Iphan nacional cassou a autorização dada pela representação do órgão na Bahia. Geddel, conforme o relato do ex-ministro da Cultura, ligou para ele pedindo que providências fossem tomadas. “E aí, como é que eu fico na história?”, teria questionado o ex-chefe da Secretaria de Governo.

Prisão domiciliar

Na Cui Bono, Geddel é suspeito de ter recebido cerca de R$ 20 milhões em propina de empresas em troca da liberação de financiamentos na Caixa Econômica Federal (CEF). Ele foi vice-presidente de Pessoa Jurídica entre 2011 e 2013, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

A descoberta do dinheiro complica a situação de Geddel, que está em prisão domiciliar na Bahia, acusado de obstrução da Justiça. O ex-ministro, que virou réu em 22 de agosto, foi denunciado por tentar atrapalhar as investigações sobre o desvios no FI-FGTS, o fundo de investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, no período em que foi vice-presidente da Caixa. Segundo a acusação, ele tentou impedir o doleiro Lúcio Funaro de fazer delação premiada.

Em 3 de julho, o ex-ministro chegou a passar dez dias no Complexo Penitenciário da Papuda, antes de ter a prisão domiciliar autorizada. De acordo com nota do Ministério Público Federal, o objetivo de Geddel era evitar que Funaro e o ex-deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) firmassem acordo de delação premiada. O ex-ministro é acusado de oferecer vantagens indevidas, além de “monitorar” o comportamento do doleiro para constrangê-lo a não fechar o acordo.

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