Demóstenes diz que foi tratado como “cão sarnento”

José Cruz/Ag. Senado

"Não acabem com a minha vida. O que eu quero é ter o direito que os outros tiveram para se defender"

Em seu último discurso como senador, momentos antes de ter o mandato cassado pelos colegas, Demóstenes Torres (sem partido-GO) pediu aos demais senadores uma última chance de defesa para provar sua inocência. Ele reclamou que não teve tempo suficiente e implorou por perdão. “Não acabem com a minha vida. O que eu quero é ter o direito que os outros tiveram para se defender. Não votem pela minha cassação.” O apelo não surtiu efeito. Demóstenes foi cassado por 56 votos a 19. Houve cinco abstenções. Dos 81 senadores, apenas Clovis Fecury (DEM-MA), licenciado, não compareceu à sessão.

 

 

 


Por 56 votos a 19, Senado cassa Demóstenes

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O agora ex-senador voltou a insistir que, durante a tramitação do processo que resultou na cassação do seu mandato, não ficou comprovada a sua relação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Demóstenes acusou a imprensa de publicar uma “enxurrada” de “ilações infundadas” contra ele.

Demóstenes disse que é bode expiatório. “Querem me pegar para não ficar mal para a imagem do Senado. [...] O que pega mal para a imagem do Senado é condenar sem prova, punir um inocente”, disse. Para o senador, seu processo foi conduzido de forma injusta e apressada.

O senador afirmou que não renunciou ao cargo porque queria ser absolvido no julgamento político no Senado. “Não renunciei porque eu não podia sair do Senado sem dar explicação para minha mulher, para os meus filhos, para meus eleitores. Quem cassa senador não é a imprensa, são os senhores senadores”, disse.

“Duro” e “intolerante”

Demóstenes admitiu que cometeu vários erros enquanto senador, mas todos relacionados ao fato de ter sido intolerante com outros colegas que foram alvos de denúncias. “Meu erro aqui foi ser intolerante, foi ser duro. Foi não ter aprendido a ler os jornais porque hoje eu sei que muito do que é publicado não é verdade”, disse. Nos últimos nove anos e meio, Demóstenes se destacou no Senado por seu discurso duro contra a corrupção e o combate à impunidade.

O agora ex-senador citou ainda a passagem bíblica em que Jesus Cristo foi julgado pelos romanos. Na história, Pôncio Pilatos, governador da Judéia, lavou as mãos em relação à vontade do povo. “Não lavem as suas mãos em relação a mim. Me deixem ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal e pelo povo de Goiás”. O ex-parlamentar afirmou ainda que foi perseguido como “um cão sarnento”.

Durante o discruso, Demóstenes lembrou que o relator do processo de cassação no Conselho de Ética, senador Humberto Costa (PT-PE), foi acusado de envolvimento com a máfia dos “vampiros”, que desviava recursos destinados à compra de hemoderivados. Humberto foi inocentado no decorrer das investigações. “Eu quero o mesmo direito. Assim como ele [Humberto Costa], eu provei que sou inocente [...]. Por que a minha cabeça deve rolar? Eu provei várias vezes que sou inocente, eu quero o direito.”

Braço político

Ele disse ainda que sua cassação representava uma política de “dois pesos e duas medidas”. Demóstenes afirmou ainda que os únicos momentos em que foi “braço político de alguém” foi quando defendeu as crianças e os idosos durante a tramitação de projetos de lei. Ele foi acusado de ser “braço político” da organização criminosa

Demóstenes falou por 35 minutos. Antes dele, seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, falou da tribuna do Senado por 15 minutos. Com base na Lei da Ficha Limpa, da qual foi um dos relatores, o agora ex-senador está inelegível até 2027.

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