Terça, 24 de Janeiro de 2017

Congresso em Foco recebe prêmio Vladimir Herzog

Thomaz PiresO poder público brasileiro precisa avançar para não apenas garantir, mas promover a cidadania. Esse foi o tom dos discursos proferidos na cerimônia de entrega da 31ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, realizada ontem …

Edson Sardinha, editor do site, é autor de série sobre deputado padre censurado pela Igreja Católica

Edson Sardinha, editor do site, é autor de série sobre deputado padre censurado pela Igreja Católica

Thomaz Pires

O poder público brasileiro precisa avançar para não apenas garantir, mas promover a cidadania. Esse foi o tom dos discursos proferidos na cerimônia de entrega da 31ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, realizada ontem (26) no Teatro Tuca, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. 

Cerca de 40 jornalistas foram premiados em 11 categorias. Os vencedores receberam placas e os segundos colocados, certificados com menção honrosa. Pelo segundo ano consecutivo, o Congresso em Foco é homenageado naquele que é considerado o mais importante prêmio jornalístico do país na área de direitos humanos.

A série “Deputado Luiz Couto, o padre censurado pela Igreja Católica”, do editor do site, Edson Sardinha, ganhou menção honrosa na categoria internet. Em 2008, foi premiada a série Vida e Morte Correntina (leia mais), do repórter Lúcio Lambranho.

Diversas autoridades participaram da cerimônia de premiação, entre eles, o ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, o governador de São Paulo, José Serra, o ex-ministro da Justiça José Gregori, que representou o prefeito Gilberto Kassab. Os jornalistas Fernando Pacheco Jordão e Audálio Dantas também foram homenageados por suas respectivas trajetórias na defesa da democracia e no combate à ditadura.

O prêmio é promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e pelo Instituto Vladimir Herzog, presidido por Ivo Herzog – filho de Vlado, como era o conhecido o jornalista, torturado e morto durante a última ditadura militar. Clarice Herzog, viúva de Vladimir, também acompanhou a cerimônia. 

Anistia e censura

Em seu discurso, Paulo Vanucchi defendeu a revisão da Lei de Anistia para que os torturadores possam ser punidos no Brasil, a exemplo do que ocorre no Uruguai e na Argentina. “A memória das violências estruturais foi apagada no Brasil, com o genocídio indígena e manifestações como a Guerra do Contestado, o Estado Novo, Canudos e a Revolta das Chibatas. Não podemos deixar isso se repetir com a ditadura militar. Precisamos resgatar essa memória, mas sem revanchismo, para que isso não aconteça mais”, disse.

O ex-ministro da Justiça José Gregori criticou a censura imposta por um juiz ao jornal O Estado de S. Paulo, proibido há quase três meses de publicar reportagens sobre a Operação Boi Barrica, que investiga o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). “Chamo todos a dar uma salva de vaia àquele juiz”, disse Gregori, o último dos integrantes da mesa a falar.

O governador paulista, que chegou atrasado à cerimônia, não fez discurso. Usou a palavra apenas para saudar os três estudantes de jornalismo que receberam o recém-lançado Prêmio Fernando Pacheco Jordão. “Fiquei sabendo que uma das pautas tem 12 páginas. A matéria já está praticamente escrita”, brincou Serra. O prêmio foi entregue aos universitários que propuseram, na avaliação do júri, as melhores pautas.
 
Na categoria internet, o prêmio principal deste ano ficou com Lúcia de Fátima Rodrigues Gonçalves e Tatiana Merlino, da revista Caros Amigos, com a reportagem “Uma missa para um torturador”. Outra menção honrosa foi dada a Amanda Machado Cieglinski, da Agência Brasil, com a matéria “Analfabetismo: a exclusão pelas letras”. Segundo os jurados, os critérios para premiação foram relevância do tema, conteúdo, pauta e edição.
 
Padre jurado de morte…

Luiz Couto tornou-se um dos principais alvos do crime organizado no país por sua atuação à frente da CPI dos Grupos de Extermínio no Nordeste, que se destacou pelo trabalho realizado, sobretudo, em Pernambuco e na Paraíba.
 
Em 24 de janeiro deste ano, como num aviso do que poderia lhe ocorrer, foi assassinado o advogado Manoel Bezerra Mattos Neto, militante dos direitos humanos e ex-assessor da CPI.
 
A morte do advogado levou integrantes da bancada do PT na Câmara a solicitarem ao Ministério da Justiça proteção da Polícia Federal (PF). O pedido se estendia ao deputado Fernando Ferro (PT-PE), que, como Couto, também era alvo de ameaças.


…e censurado

O histórico do deputado-padre e sua militância na defesa dos direitos humanos levaram o Congresso em Foco a publicar o perfil “Padre, deputado e adversário do celibato”.

Padre desde 1976, Luiz Couto questionou publicamente certos dogmas da Igreja Católica. Criticou a proibição do uso de preservativos, o celibato clerical e a intolerância em relação aos homossexuais.
 
As declarações foram imediatamente condenadas pelo arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Pagotto. Ao tomar conhecimento da entrevista, reproduzida por vários outros veículos de comunicação, ele suspendeu Luiz Couto das atividades sacerdotais. A punição provocou forte reação de movimentos dos direitos humanos e de setores da própria Igreja Católica, que não se conformaram com a condenação sumária do clérigo.
 
Então eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Luiz Couto só retomou seu direito de exercer o sacerdócio um mês depois, quando, pressionado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o arcebispo da Paraíba revogou a suspensão.
 

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Congresso em Foco recebe Prêmio Vladimir Herzog

Em cerimônia realizada ontem à noite, em São Paulo, o jornalista Lúcio Lambranho, do Congresso em Foco, foi um dos premiados na 30ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Lúcio recebeu menção honrosa, na categoria internet, …

Em cerimônia realizada ontem à noite, em São Paulo, o jornalista Lúcio Lambranho, do Congresso em Foco, foi um dos premiados na 30ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Lúcio recebeu menção honrosa, na categoria internet, por causa da série de reportagens sobre o drama de 79 trabalhadores rurais do Piauí submetidos a condições análogas à de escravo, vítimas de um acidente rodoviário na Bahia.

Para o repórter, a premiação – considerada a mais importante do jornalismo brasileiro na área de direitos humanos – mostra que a internet é também espaço para a publicação de reportagens de fôlego, e não apenas de curtos registros factuais.

Lúcio também ressaltou a importância do trabalho em equipe e o histórico do site na denúncia da prática do trabalho escravo no Brasil e suas ligações com o poder.

“Este prêmio Herzog é a demonstração de que o Congresso em Foco é uma equipe onde todos se ajudam e trabalham por algo novo na internet e no jornalismo brasileiro. Começamos com o Tarciso (Nascimento), que teve a idéia de cruzar os dados entre as empresas autuadas por trabalho escravo e as doações de campanha nas eleições de 2006. Passamos pelo pai do ministro do TCU que submetia seus empregados a dormir na estrebaria junto com os animais. Passamos pelo trabalho escravo na fazenda da família do Ayrton Senna”, lembrou.

“E esse esforço conjunto culminou com esta série dos trabalhadores escravos esquecidos pela Justiça no sul do Piauí. Nada, portanto, foi por caso e por obra minha. Isso demonstra que a internet, pode sim, ter reportagens que dizem muito mais ao leitor do que o simples registro do chamado tempo real”, acrescentou.

Tragédia sem fim

Durante quase uma semana, em junho, o repórter visitou familiares dos trabalhadores levados dos municípios de Corrente e Avelino Lopes, localizados no sul do Piauí, em 1995, para uma fazenda em Bom Jesus da Lapa, no oeste baiano, para trabalhar na colheita de feijão. Lá, de acordo com denúncia do Ministério Público do Trabalho, foram submetidos a condições degradantes.

Quando voltavam para casa, 40 dias depois, foram vítimas de um grave acidente que matou 14 pessoas. Outras 15 ficaram com lesões graves, grande parte delas não consegue mais trabalhar ou não dispõe das mesmas condições de trabalho de antes. Dos 79 trabalhadores, 23 tinham menos de 18 anos na época.

Sobrecarregado, o caminhão tombou após apresentar problemas mecânicos. Na carroceria, transportava trabalhadores misturados a centenas de sacas de feijão.

O caso se arrasta na Justiça há 13 anos. As empresas responsáveis pela fazenda entraram com recurso no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região contestando as indenizações trabalhistas reivindicadas pelas famílias. A denúncia pela responsabilidade criminal, porém, sequer foi aceita pela Justiça da Bahia. 

A reportagem mostra como a tragédia, reforçada pela impunidade, roubou a esperança dos trabalhadores e dos familiares dos catadores de feijão do Sul do Piauí.

Confira a série:

Corrente (PI): 13 anos de uma tragédia ignorada
Acidente rodoviário com 79 trabalhadores rurais revela uma face escondida do trabalho escravo no país. O repórter Lúcio Lambranho visitou sobreviventes e familiares dos 14 mortos para contar, na série que começa hoje, o drama dos catadores de feijão esquecidos pela Justiça.

Corrente (PI): famílias acusam advogado de ficar com o seguro
Familiares de oito dos 14 mortos em acidente no Piauí denunciam defensor que sacou R$ 40 mil do seguro obrigatório e não entregou o dinheiro aos parentes das vítimas. Processo criminal continua engavetado na Justiça baiana.

Carvoarias impulsionam trabalho escravo no Piauí
Na última reportagem da série sobre a tragédia de Corrente, o Congresso em Foco mostra como a expansão da fronteira agrícola levou o estado a se tornar um dos principais exploradores desse tipo de mão-de-obra no país.

O resgate de uma tragédia
Após 13 anos, autoridades de Direitos Humanos vão investigar a tragédia que matou 14 trabalhadores rurais no interior da Bahia

Transporte de alto risco
Falta de fiscalização e sucateamento de veículos foram as principais causas dos 6.486 acidentes no transporte de trabalhadores rurais entre 2004 e 2006

Premiação

O principal prêmio, na categoria internet, foi entregue ao jornalista André Deak e equipe, da Agência Brasil (DF), com “Nação Palmares”. Além de Lúcio Lambranho, com a série “Vida e morte correntina”, também foi homenageada com a menção honrosa Juliana de Melo Correia e Sá, do JC On Line, de Recife (PE), com “Violência velada”. Os jurados foram Reiko Miura, Roseli Tardelli e Chico Silva.

Criado em 1979 pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o Prêmio Vladimir Herzog é a principal referência na área de direitos humanos no jornalismo brasileiro.

De acordo com o regulamento, são objetivos do prêmio:

“Reconhecer e premiar os jornalistas que, através de seu trabalho, colaboraram com a promoção da cidadania e dos Direitos Humanos e Sociais; homenagear personalidades, profissionais e veículos de comunicação que se destacaram na defesa da cidadania e dos Direitos Humanos e Sociais, e reverenciar a memória do jornalista VLADIMIR HERZOG, preso pela ditadura militar, torturado e morto nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, no dia 25 de outubro de 1975”.

Ainda segundo os organizadores, o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos este ano tem um significado ainda mais especial, porque lembra o 60º aniversário de instituição da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que serão completados em 10 de dezembro.

Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, Lúcio Lambranho, 35 anos, foi repórter dos jornais O Estado, A Notícia, Diário Catarinense e da rádio CBN em Santa Catarina. Em Brasília desde 2004, trabalhou no Correio Braziliense e no Jornal do Brasil. Em 2004 recebeu menção honrosa no Prêmio Senai de Reportagem. Faz parte da equipe do Congresso em Foco desde setembro de 2006. (Edson Sardinha)

 

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