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Compartilhando água: a nova era da hidro-diplomacia

"Espero que a gestão inteligente da água, com parcerias globais entre gestores dinâmicos, comprometidos e engajados de governos e iniciativas privadas, reflita o ideal da comunhão com a Terra e do compartilhamento do que já é de todos"

O Fórum Mundial da Água, que aconteceu em Brasília entre os dias 18 e 23 de março, deixou claro que alcançar a universalização dos recursos hídricos exige mais que a combinação de boas ideias com o desenvolvimento de tecnologia, finanças e governança. É preciso haver um engajamento da comunidade, ao adotar processos mais sustentáveis de uso da água, até a integração entre países, no sentido do desenvolvimento de medidas que respeitem a biodiversidade e protejam os sistemas.

Um dos painéis do fórum mostrou, por exemplo, que o Pantanal – uma das maiores áreas úmidas do planeta, importante ecossistema global – está ameaçado pela atividade humana. Apesar de ser o bioma brasileiro melhor preservado, o desmatamento chega a 55%. Essa situação vai exigir um esforço conjunto e integrado de divisão de conhecimento e práticas de sustentabilidade entre os governos brasileiro, boliviano e paraguaio, países que compartilham essa imensa planície em seus territórios.

Os três países, embora possuam características hídricas semelhantes, têm diferentes potenciais e demandas. Além disso, cada um aprendeu a lidar com as mudanças climáticas a seu modo. Em 2016, a Bolívia, por exemplo, um dos países mais afetados pelo fenômeno El Niño, sofreu com uma das piores secas de sua história, o que levou o presidente Evo Morales a decretar estado de emergência e racionamento, além de determinar a perfuração de cisternas e a instalação de tanques de 10 mil litros em vários pontos da capital, La Paz.

<< Do mesmo autor: Lições da crise hídrica em Brasília

Meu último artigo nesse espaço trouxe exemplos de brasilienses que deram uma lição de cidadania e sustentabilidade durante a crise hídrica do ano passado no DF.  A esteticista Nayara dos Santos, o bioarquiteto Sérgio Pamplona e o professor Daniel Santanna perceberam que não podiam ficar apenas reclamando da falta d’água e criticando o governo. Eles resolveram pensar no que eles próprios poderiam fazer, a partir de sua própria realidade, para não desperdiçar, para reutilizar a água de diferentes maneiras, aproveitar a água da chuva e pensar em políticas públicas que estimulassem essas práticas em larga escala. Imagina se eles tivessem se conhecido antes e pudessem trabalhar em conjunto?

Assim como Brasil, Bolívia e Paraguai, no caso do Pantanal, Nayara, Sérgio e Daniel tinham objetivos comuns: economizar água, contribuir com a minimização dos efeitos da crise e evitar seu agravamento. Quando perfis assim se juntam, ou nações que tenham gestores com esse perfil, temos a chance de superar o campo das “soluções demagógicas e clientelistas” para o problema de escassez da água. As palavras são da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo, durante a abertura da Conferência de Magistrados e Membros do Ministério Público no FMA.

Mas quem dera se a era da hidro-diplomacia fosse feita só de potenciais. Vivemos em um mundo de crises: políticas, militares, de alimentação, saneamento básico – muitas delas relacionadas à escassez da água. Para se ter uma ideia, no Brasil, 34 milhões de pessoas – cerca de 16% da população – não têm acesso a água potável; 100 milhões (43%) nem sequer têm o esgoto coletado, de acordo com denúncias feitas durante o fórum e entregues ao relator especial da ONU (Organização das Nações Unidas), Leo Heller. No mundo, a situação não é diferente. Cerca de 1,9 bilhão de pessoas no planeta vivem em áreas de escassez severa de água. Estima-se que em 2050, o número aumente para três bilhões, segundo dados do relatório da ONU.

A água é uma das maiores prioridades para o desenvolvimento de um país e para uma vida digna de seus cidadãos. E mais: oferecer segurança hídrica para o mundo é também uma questão de paz entre os países. A ameaça de escassez de água pode sim gerar períodos de tensão social, instabilidade política e disputa territorial.

Ao invés disso, espero que a gestão inteligente da água, com parcerias globais entre gestores dinâmicos, comprometidos e engajados de governos e iniciativas privadas, reflita o ideal da comunhão com a Terra e do compartilhamento do que já é de todos. Afinal, como disse a ministra Carmem Lúcia, “desperdiçar água é desperdiçar a vida”.

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Sobre o autor

Glauco Humai

Glauco Humai

* Cientista político e especialista em Gestão Sustentável de Empresas, Glauco Humai é coordenador do Movimento Agora! em Brasília e presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce)

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