Sábado, 21 de Janeiro de 2017

Caso Carli Filho: sete anos de mistério e impunidade

Acusado de ter matado dois jovens no trânsito, ex-deputado estadual manobra na Justiça para escapar da punição em um caso marcado por denúncias de sumiço de provas, perseguição e até ameaça de morte no Paraná

Imagens mostram o que sobrou dos veículos após acidente. Em cima, Carli Filho, abaixo, as vítimas Carlos Murilo e Gilmar Rafael Yared

Mauri König e Valdir Cruz, de Curitiba

Um Passat, de uma tonelada e meia, decola a 170 quilômetros por hora em um aclive na pista e aterrissa sobre um Honda Fit logo à frente. O veículo alemão é conduzido por um deputado de 26 anos, alcoolizado, depois de ter tomado quatro garrafas de vinho em companhia de um casal de amigos, e com a carteira de habilitação suspensa com 130 pontos em infrações de trânsito, cinco vezes mais do que o previsto para proibir um motorista de dirigir.

No Honda, um estudante universitário da mesma idade e outro de 20 anos, que haviam deixado o shopping center onde o mais jovem trabalhava, têm o sonho em comum de morar no exterior interrompido abruptamente. Os dois morrem esmagados pelo carro dirigido pelo deputado.

As investigações e as especulações em torno do acidente, ocorrido sete anos atrás em Curitiba, produziram um enredo de mistérios, com denúncias de sumiço de provas, de perseguição e até de ameaça de morte, mas nenhum julgamento até agora. Luiz Fernando Ribas Carli, que conduzia o Passat, renunciou ao mandato de deputado estadual dias depois, ao ser acusado de duplo homicídio com dolo eventual por assumir o risco de matar ao dirigir embriagado e em alta velocidade. A defesa tenta reverter a denúncia para homicídio culposo (ou seja, sem intenção), para reduzir a pena de até 20 anos para no máximo quatro, o que pode favorecer a prescrição do crime, como mostra reportagem da Revista Congresso em Foco.

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A colisão ocorreu em 7 de maio de 2009, por volta de 1 hora da madrugada, quando os semáforos no bairro Mossunguê estavam apenas com o sinal amarelo de alerta piscando. O Honda fez uma conversão à esquerda para entrar na Rua Monsenhor Ivo Zanlorenzi e foi atingido 30 metros após o cruzamento. Gilmar Rafael Yared, de 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20, morreram na hora. O deputado sobreviveu. Passou por uma cirurgia de 14 horas no Hospital Albert Einstein (SP) para reconstituir os ossos do crânio e da face.

A câmera de segurança de um posto de combustível registrou o acidente. As imagens de baixa resolução mostram o Honda Fit parando na esquina antes de fazer a conversão, até ser atingido. Perícia técnica encomendada pela família Yared apontou indícios de adulteração das imagens, reforçando os rumores de que o deputado participava de um racha. A parte subtraída, de um segundo e meio, alegam os advogados, pode esconder a passagem de um carro em alta velocidade à frente do Passat de Carli Filho.

Nos últimos sete anos, a defesa do ex-deputado estadual utilizou todos os recursos possíveis para evitar o júri popular. Em fevereiro de 2014, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) reconheceu que ele assumiu o risco de matar ao dirigir embriagado em alta velocidade e confirmou o júri popular para 21 de janeiro deste ano. Mas, na véspera, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, suspendeu o júri até o julgamento do mérito de um último recurso.

Uma nova data ainda não foi marcada. O STF definirá se Carli Filho terá seu destino traçado em júri popular, que, por sua vez, decidirá se ele será sentenciado por crime culposo (sem intenção de matar) ou por crime doloso (com intenção). Para o advogado Elias Mattar Assad, contratado pela família de Gilmar Yared, as provas disponíveis são suficientes para condená-lo por crime doloso. Ele atua como assistente de acusação ao lado do Ministério Público.

A Revista Congresso em Foco teve acesso ao depoimento de três testemunhas que atestam o excesso de velocidade segundos antes da colisão. Alice de Lima Braz morava nas imediações do acidente e havia saído na porta de casa para fumar quando viu o carro do deputado passar em alta velocidade. O vigia José Carlos Teixeira viu a mesma cena. Ele estava no posto de combustíveis onde trabalhava, perto do local do acidente. Nenhum depoimento, contudo, foi tão esclarecedor quanto o de Leandro Lopes Ribeiro.

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