Assessor da Câmara tenta atropelar ciclistas que saíam de velório de colega atropelado no DF

Reprodução

Na tentativa de passar por cima do grupo, o motorista subiu o canteiro e foi em direção aos ciclistas

 

Ao voltar do velório de Raul Aragão, atropelado no sábado (21) enquanto andava de bicicleta em Brasília, um grupo de seis ciclistas foi surpreendido por um motorista que, incomodado com as bicicletas na via, jogou o carro sobre um dos integrantes do grupo. A situação ocorreu na tarde dessa segunda-feira (23), na altura da quadra 703 da Asa Sul, bairro valorizado da capital. Portando arma branca e ameaçando os ciclistas, o motorista Tiago Marcel Canabarro, que é assessor parlamentar do deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS), foi contido por um bombeiro que passava pelo local e viu a cena.

De acordo com relatos de ciclistas, o motorista xingou o grupo, exigindo que os ciclistas saíssem da pista. Foi quando começou a discussão e as ameaças do condutor do carro. Nem mesmo a presença da polícia e a percepção de que estava sendo filmado evitou que Tiago continuasse as ameaças sobre o grupo. O vídeo gravado por um dos ciclistas (veja abaixo) mostra o motorista passando por cima de um canteiro e indo em direção a um dos integrantes do grupo.

A situação foi parar na 1ª Delegacia de Polícia da Asa Sul, onde foram registradas as ocorrências. Em um dos vídeos, o motorista afirma que ia passar por cima de um dos ciclistas em outra ocasião. “A gente vai se encontrar e eu vou te atropelar”, diz Tiago, mesmo ciente de que estava sendo gravado.

Assista ao vídeo do momento da ameaça:


 

Ao site, Mateus Baruci, um dos ciclistas envolvidos, contou que o assessor parlamentar tentou atropelar o grupo por três vezes. Afirmou ainda que os ciclistas ocupavam a via da direita, exatamente a pista reservada aos veículos lentos, conforme preveem as leis de trânsito.

De acordo com Tiago, a preocupação era com sua filha, de um ano e oito meses, que estava dentro do veículo durante o episódio. Na versão dele, houve apenas um pedido para que os ciclistas saíssem da via devido ao perigo de colisão. Em seguida, ele diz que começaram os xingamentos e os ciclistas quebraram o vidro do seu carro. “Naquele momento em que eu tentei passar, minha filha estava dentro do carro”, afirmou ao Congresso em Foco.

No entanto, o ciclista contesta a versão. “Ele argumentou que estava com uma filha, mas a grande questão é que ele poderia ter ido embora a qualquer momento, era só continuar reto. Chegou a sair do lugar e voltar. Somente após a terceira tentativa dele de nos atropelar é que, por defesa, um colega jogou a chave da bicicleta. A justificativa de defesa não tem cabimento. Nada justifica o atropelamento”, ressaltou Mateus.

Proteção de cabeça

Tiago alegou ser ciclista e que percebeu que alguns estavam sem capacete. “Eu simplesmente alertei o ciclista que estava na rua sem capacete, sem nada, e começaram a agressão verbal. Não sei se foi pau ou pedra, mas eles alvejaram algo sobre o meu carro e quebraram o vidro traseiro com minha filha dentro do carro”, sustenta o assessor parlamentar. “Eles não filmaram dando uma pedrada no vidro do meu carro. Eu sou ciclista, pedalo na rua, mas não igual esses caras pedalam. É a segurança nossa que está em jogo, e não a segurança do carro”, justificou.

Sobre a justificativa de Tiago, de que os integrantes estavam sem equipamentos necessários como o capacete, Mateus contestou. “O fato de estar sem capacete não justifica uma tentativa de homicídio. A gente estava indo para casa, um grupo de seis pessoas. A norma de trânsito diz que o ciclista tem direito à via. Estávamos ocupando uma faixa da direita, como veículo lento.”

Mateus também afirmou que a abordagem do motorista foi precedida de muito xingamento. “Não justifica a agressão. Começamos a gritar pelos nossos direitos. É nosso direito andar ali. O fato de um ou outro estar sem capacete não dá direito dele querer nos atropelar”, reclamou. De acordo com o ciclista, o vidro do carro do Thiago foi quebrado na terceira tentativa de atropelamento de seus colegas.

O grupo também contou que Tiago, após as ameaças, saiu do local, mas voltou poucos minutos depois com uma faca na mão. “Quando ele voltou, saiu do carro com uma faca, tipo um canivete na mão, e começou a fazer ameaça. As pessoas que estavam em volta viram que não se tratava mais de uma briga de trânsito quando ele sacou a faca”, relatou. A situação foi contida por um bombeiro que passava pelo local e que, em seguida, recebeu reforço da polícia.

A discussão ocorreu na tarde dessa segunda-feira (23), na volta do velório de Raul, que era integrante da ONG Rodas da Paz e do grupo Bike Anjos. Na tarde desse último sábado (21), Raul voltava para casa depois de almoçar no Restaurante Universitário da Universidade de Brasília (Unb) e, durante o percurso, foi vítima da violência no trânsito. Um carro conduzido por um rapaz de 18 anos o atropelou na altura das quadras 406/407 da Asa Norte. Raul não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada de domingo (22).

“Parte mais frágil no trânsito”

Sobre o conflito, o coordenador-geral da ONG Rodas da Paz, Bruno Leite, alerta para o uso responsável do carro, dos limites de convívio social e da ciência de que o ciclista é a parte mais frágil no trânsito. “Esse caso extrapola todos os limites normais do convívio social e chama atenção de que o carro tem que ser usado com responsabilidade, pois ele pode se transformar em uma arma e matar uma pessoa. Infelizmente o ciclista é a parte mais frágil”, ponderou, em entrevista ao Congresso em Foco.

Para Bruno, o crescente aumento de bikes nas ruas está criando um clima de tensão entre motoristas e ciclistas, mas o objetivo não é disputar espaço e sim criar um ambiente onde todos se respeitem. “O nosso trabalho é para buscar a paz no trânsito. A gente sabe que tem muita coisa para construir em prol de um trânsito mais humano. Hoje, o nosso domínio do trânsito é pelos carros, mas a gente de maneira alguma quer transformar isso em uma guerra”, ressaltou o coordenador da ONG.

No Distrito Federal, 739 ciclistas morreram nas ruas, entre 2000 e 2017, segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran). Só até junho deste ano foram 11. A ONG Rodas da Paz surgiu em 2003, como resposta ao número crescente de ciclistas vítimas do trânsito na capital federal.

 

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